segunda-feira, 4 de março de 2013

Psicomotricidade Clínica


(Fisioterapia Psicocinética ou Fisioterapia Psicomotora)

                  Portifólio 2013.1 - 4º Período – Prof. Felismar 08/03/2013 – 4ª aula


2.0 – O Desenvolvimento Funcional do Ser Humano – Aspectos Neurais, Mentais, Psíquicos e Motriciais

2.1 – A formação da mente e do aparelho psíquico - Conforme já afirmamos antes, o desenvolvimento funcional do ser humano  tem relação de influência dos fatores biológicos, dos fatores socioculturais, dos fatores ambientais e da história de vida da pessoa, principalmente da sua fase de 0 a 6 anos na infância.

Os aspectos genéticos, citomorfológicos, metabólicos, entre outros, podem interferir no crescimento da criança e no desenvolvimento do pequeno ser humano; igualmente o ambiente, tanto do ponto de vista ecológico, quanto do ponto de vista social e cultural interferem no crescimento e desenvolvimento da criança, pois nessa fase a criança está em processo de endoculturação e socialização primária através dos entes significativos da sua convivência. Há que considerar no aspecto ambiental, se há espaço disponível para  que a criança possa engatinhar e promover os estímulos necessários para internalizar as noções de tempo e espacialidade em sua mente e aparelho  psíquico.
A história de vida da criança é um outro fator interferente, com graves repercussões dos aspectos econômicos quando produzem privação  de alimentos essenciais ao desenvolvimento normal, sendo também os aspectos do ambiente emocional da criança um outro componente de importância para desenvolver um perfil de desabrochamento do ser em desenvolvimento.

O desenvolvimento neural permite a nivel inconsciente uma vida relacional, desde os três meses de gestação do feto, através da mãe com suas reações emocionais, formando a consciência matricial inconsciente que irá ter repercussões na vida adulta. O sistema neural só conclui sua fase de desenvolvimento e maturação após o nascimento da criança, indo até mais ou menos os 18 meses de nascido.

Percebe-se que, enquanto o cérebro é um órgão material, com seus componentes anatômicos, não acontece da mesma maneira com  a mente e o aparelho psíquico, que também são órgãos funcionais, mas de perfil virtual, pois que não se localiza no cérebro  orgânico, nenhuma área  conhecida responsável pelas suas respectivas existências. O pensamento, a imaginação, a vontade, são funções importantes dos seres humanos, que se manifestam na vida psíquica em consequência das atividades mentais da pessoa.

Luria, Vigotizk e outros pesquisadores já produziram textos sobre a formação da mente e do aparelho psíquico, entretanto, de concreto sabemos que as ações cerebrais produzem ondas eletromagnéticas,  que se distribuem em várias frequências, podendo estas interferirem nos comportamentos das pessoas que as produzem. De concreto temos a certeza  de que, para a existência da mente funcional necessitamos do cérebro orgânico, e que, para a existência do aparelho psíquico funcional necessitamos da existência funcional da mente. Assim ambos, mente e aparelho psíquico dependem de um cérebro orgânico funcionando normalmente para os seus funcionamentos normais; e ainda, para que ambos tenham um funcionamento normal, necessita de um sadio e complexo ambiente sociocultural, ecológico, espiritual e emocionalmente equilibrado.

2.2 – Aspectos da evolução filogenética  e ontogenética que formam a memória corporal arcaica.

Para este ítem nós vamos estudar  alguns capítulos do livro de Vitor da Fonseca, que bem fundamenta essas questões, começando pela Paleontologia Funcional, capítulo 4, de “Psicomotricidade: Filogênese, Ontogênese e Retrogênese”.
É bom  ficar  registrado que muitos padrões funcionais de movimentos e comportamentos  elaborados durante a existência de animais, na fase da filogênese, tem seus esquemas  neurais arquivados no cérebro, podendo emergir na vida presente em razão de situações facilitadoras. Um terapeuta que usa a via corporal na abordagem dos seus clientes, não pode ignorar a existência possível de tais padrões interferenciais.
VAMOS AO CAPÍTULO 4

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Imagética Motora Psicocinética no Retreinamento do Controle Voluntário Esfincteriano do Ato Miccional.



Prof. Dr. Felismar Manoel (1)

Relato de Caso Próprio


Resumo:

Emprega-se a prática mental com a intenção de promover a aprendizagem de uma habilidade motora, entendendo-se como prática mental a simulação mental de repetidos movimentos. O objetivo deste estudo é relatar o êxito obtido, mediante as atividades psicocinéticas de relaxamento, ideação mental e imaginação, da realização dos movimentos comportamentais que envolvem a ação miccional, e em sequência, a realização cinesioterapêutica dos movimentos musculares que foram inicialmente imaginados. A metodologia de base psicocinética trabalha com a teoria de que os movimentos ideados, mentalizados e imaginados sequencialmente, como uma vivência, entendido, sentido e imaginado mentalmente, fisiologicamente melhoram a irrigação sanguinea das áreas cerebrais que têm relação de pertinência com as ações motoras referidas, melhorando as próprias ações motoras quando posteriormente são realizadas, ou facilitando o retreinamento de movimentos que tiveram suas performances prejudicadas, ou suprimidas. Conclui-se como exitosa a metodologia da fisioterapia psicocinética e como operante a técnica do treinamento mental e da imaginação vivencial, ideando os movimentos a nivel do pensamento, antes da execução dos exercicios cinesioterapêuticos.

Palavras Chaves: Ideação Motora, Treinamento Mental, Imagética Motora, Bexiga Neurogênica Parcial.


Introdução

A Resolução COFFITO 80, que complementa a Resolução COFFITO 8, em suas considerações iniciais, afirma que a fisioterapia sendo uma ciência aplicada, tem como objeto de estudo o movimento humano em todas as suas formas de expressão e potencialidades, tanto nas alterações patológicas, como nas repercuções psíquicas e orgânicas, objetivando a preservação, a manutenção, o desenvolvimento e a restauração da integridade de órgãos sistemas, ou funções do ser humano. Considera também o seu processo terapêutico, com conhecimentos e recursos próprios, valendo-se das condições psico-física e social do cliente, ou paciente, para buscar, promover, aperfeiçoar ou adaptar o individuo a uma melhor qualidade de vida, através da relação terapêutica (COFFITO - Resolução nº 80).
Atualmente tem sido empregada a prática mental com a intenção de promover a aprendizagem de uma habilidade motora, entendendo-se como prática mental a simulação mental de repetidos movimentos. Publicações bem recentes tem demonstrado êxito da prática mental, combinada à cinesioterapia, para promover a reaprendizagem motora, fortalecendo a crença que ela reforça processos encefálicos indutores da reogarnização cortical (Pacheco et all, 2007 ).
Pesquisadores das Universidades Federais de Santa Maria e Rio Grande do Sul, avaliaram a qualidade de vida em mulheres com incontinência urinária de esforço, antes e depois da aplicação de um protocolo de tratamento com Imagética Motora, consistindo no treinamento e aprendizagem de habilidades motoras e força muscular. A intervenção teve foco principal no ensino e na realização de exercícios perineais, que após mentalizados, foram efetuados através da prática mental (Torriani el all, s/d).
Semelhante à imagética motora, também o reconhecimento de partes do corpo aciona representações somatosensoriais específicas, ativando-as implicitamente para comparar o corpo com o estímulo. (Lameira et al, 2008).
O objetivo deste estudo é relatar o êxito obtido, mediante as atividades psicocinéticas de relaxamento, ideação mental e imaginação, da realização dos movimentos comportamentais que envolvem a ação miccional, e em sequência, a realização cinesioterapêutica dos movimentos musculares que foram inicialmente imaginados e mentalizados vivencialmente.

Relato de Caso

Pessoa do sexo masculino, 73 anos, residente em Caxias, RJ; fisioterapeuta com formação psicanalista e atuação em psicocinética, praticante de meditação, atividades físicas leves e treinamento da energia vital (QI); usuário de dieta vegetariana preferencial, com substituição da proteina animal pela proteina de soja (sem dosagem dos níveis de vitamina B 12); portador de hipertensão arterial familiar compensada (sob o uso de losartana potássica, 50 mg/dia e amilorida com hidroclorotiazida, 5-50 mg dia respectivamente), bem como, portador de uma manifestação de mioclonia hemi-fascial esquerda, de natureza idiopática; com 1,65 metros de altura quando jovem, tendo diminuído para 1,55 metros de altura na idade atual, pesando 72 quilos. A cerca de três anos atrás sonhou que estava urinando, e ao acordar percebeu que estava todo molhado de urina e que estava sem o controle esfincteriano para o término da micção; sentia a vontade de urinar em seu inicio, mas não conseguia perceber se tinha acabado a micção, levando de 15 a 20 minutos, vasando a urina sem perceber. Procurou exame médico, sendo examinado a próstata, constatando normalidade para a faixa etária. Não conseguiu adaptar-se ao uso de fraldas absorventes, desenvolvendo irritação da pele, alergia cutânea, lesão da pele peniana e dois episódios de infecção urinária, além do mau cheiro. Optou-se por não usar nenhum recurso e passar a esperar a conclusão de cada micção , o que tornou muito constrangedor, em consequência a estar sujeito a usar sanitários públicos, quer de bares e shopings, quer do próprio ambiente do trabalho, pois pela demora da micção levava as pessoas a interpretarem mal a demora e fazerem mau juizo. Talvez seja a parte mais dificil, sofrida e constrangedora, durando este período cerca de oito a onze meses, mais ou menos. Recusou a intervenção médica e médico-cirúrgica para episódio de bexiga neurogênica. Diante da situação desconfortável pela qual passava, resolveu desenvolver uma tentativa de atividades neurobióticas para retreinamento de controle esfincteriano, uma metodologia e técnica que estava ao seu próprio alcance, a seguir descrita.

Metodologia

No presente estudo não consta o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, conforme normas da Resolução 196 do CNS, por se tratar de um autorrelato da pessoa envolvida.
A metodologia de base psicocinética trabalha com a teoria de que os movimentos ideados, mentalizados e imaginados sequencialmente como uma vivência, entendido, sentido e imaginado mentalmente, fisiologicamente melhoram a irrigação sanguinea das áreas cerebrais que têm relação de pertinência com as ações motoras referidas, melhorando as próprias ações motoras quando posteriormente são realizadas, ou facilitando o retreinamento de movimentos que tiveram suas performances prejudicadas, ou suprimidas.
Durante os três primeiros meses, duas, ou três vezes ao dia, estando em posição corporal confortável, entrava em exercicio de relaxamento, com respiração diafragmática e sentimento de bem estar; em sequência, exercicio de imaginação e mentalização, como uma experiência vivencial: estava se levantando e indo ao sanitário, se despindo apropriadamente e iniciando a micção, acompanhando o ato miccional e concluindo a micção, seguido do vestir-se adequadmente e retornando à posição do conforto anterior; toda essa sequência era imaginada mentalmente. Após três meses desses exercicios, começou-se por perceber a finalização do ato miccional, embora ainda sem o controle total do esfincter vesical. Esta situação durou por mais três meses, passando a fazer os exercicio duas vezes ao dia e incorporando os exercicios cinesioterapêuticos, que foram orientados por dois fisioterapeutas, Dr. João Guilherme e Dra. Adriana Verçosa, em razão das suas habilidades especializadas. Houve progresso no controle esfincteriano e ao completar seis meses de treinamento, passou-se a dispensar as atividades imagéticas em separado, passando as mesmas a serem exercidas durante os atos miccionais normais. Conseguiu-se normalizar o controle miccional, com uma diferença entretanto: o inicio da micção ficou mais demorado, cerca de dois a três minutos, sendo mais fácil quando na posição sentado, o que nem sempre é possivel. As atividades cinesioterapêuticas referidas acima, são exercicios de contração voluntária para musculatura do assoalho pélvico e dos esfinteres vesical e anal.

Resultado e Discussão

As atividades mentais imaginando determinados movimentos e tendo repercussões com a musculatura agonista de tais movimentos, já são conhecidas a bastante tempo. Não me lembro da referência que publicou tal trabalho, mas parece-me ter acontecido lá pelo final de 1800 ou inicio de 1900, com uma experiência de Jacobson, que colocou eletrodos na musculatura do pescoço, nos músculos agonistas da extensão da cabeça, como se olhasse para o alto; estando a pessoa deitada em uma cama, solicitava a ela que imaginasse que estava olhando para o alto e observou-se que os músculos agonistas da extensão de cabeça, registrava os fluxos energéticos recebidos, embora só se estivesse imaginando a ação.
Muitas práticas da moderna neuropsicologia trabalha com essas bases teóricas, sendo o moderno conceito de engramas neurais e de engramatizações cerebrais de comportamentos, incluindos comportamentos motores, se enquadrarem nesses principios. Com certeza, na prática clínica, fortalece-se a convicção de que quando se trabalha o aprendizado, ou o reaprendizado motor, começando-se pela ideação, mentalização, ou imaginação do movimento, a performance se constroi com menos tempo e com maior perfeição do ato motor. É claro que é preciso considerar, que a faixa etária do paciente, situações relacionadas com a nosologia e com a patologia, disposições temperamentais do cliente antes do seu acometimento, são fatores interferentes e que devem ser avaliados, quando em uma programação terapêutica. Esse relato confirma o êxito terapêutico usando a técnica da imagética, de acordo com os principios da fisioterapia psicocinética. Confirma-se satisfatoriamente para o cliente, ter se livrado dos incômodos da incontinência parcial, do grande sofrimento e desconforto, notadamente ter-se livrado do constrangimento social a que estava exposto.
Acerta o COFFITO quando faz as considerações da Resolução 80, incluindo as repercuções psiquicas e orgânicas, bem como as condições psico-física e social do cliente, corroborando com esse pensamento os trabalhos referidos na introdução.

Conclusão

Pode-se concluir como exitosa a metodologia da fisioterapia psicocinética e como operante a técnica do treinamento mental e da imaginação vivencial, ideando os movimentos a nivel do pensamento, antes da execução dos exercicios cinesioterapêuticos.
Há que se debruçar sobre esses fatores envolvidos, para se pesquisar com maior objetividade e melhor controle de variáveis intervenientes, já que se tem recursos técnicos, por meios mais modernos de pesquisa.


-


Referências Bibliográficas

COFFITO - Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional - Resolução nº 80 - DOU nº 093 - 21/05/87, Seção I, Págs.7609;

Lameira AP, Guimarães-Silva S, Ferreira FM, Lima LV, Pereira Jr A, Gawryszewski LG. Postura da mão e imagética motora: um estudo sobre reconhecimento de partes do corpo. Rev Bras Fisioter. 2008;

Pacheco M, Machado S, Lattari JE, Portella CE, Velasques B, Silva
JG, Bastos VH, Ribeiro P. Efeitos da prática mental combinada à cinesioterapia em pacientes pós acidente vascular encefálico: uma revisão sistemática. Revista Neurociências, 2007 ;

Torriani, Juliana Marazini, Ana Lucia Cervi Prado, Nara Maria Severo Ferraz Marília Rossato Marques. O Efeito da Imagética Motora na Qualidade de Vida em Mulheres com Incontinência Urinária. UFSM e UFRGS, s/d


---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
(1) - Professor Mestre Adjunto I da UNIGRANRIO; Doutor em Filosofia da Religião - SETESA/Não Capes; Mestre em Ciências da Motricidade Humana - UCB/Capes; Formação em Psicanálise Clínica - SFPC; Formação em Psicomotricidade Sistêmica - CEC; Formador-Didata em Terapia Psicomotora Analítico Clínica - TEPAC do CEBRASC; Especialista em Docência Superior - IBMR; Bacharel em Fisioterapia - IBMR; Bacharel em Filosofia - SETESA; Bacharel em Teologia - SETESA; Bispo Primaz do Catolicismo Evangélico Salomonita - ICAI-TS.

                    Endereço: felismarmanoel@gmail.com

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

A Fisiologia do Adolescente e o Tornar-se Pessoa


Prof. Dr. Felismar Manoel (1)

RESUMO

Através de pesquisa bibliográfica diacrônica, procurou-se conhecer a opinião de diferentes especialistas, sobre a ocorrência dos principais eventos fisiológicos da adolescência e sua significância com relação à formação da personalidade, visando aferir a importância dessa fase do desenvolvimento humano para o processo do tornar-se pessoa.


PALAVRAS CHAVE

Adolescência e puberdade, fisiologia e desenvolvimento,tornar-se pessoa.

Introdução


Objetiva o presente trabalho enfocar os principais eventos de natureza fisiológica e/ou consequente das alterações fisiológicas que ocorrem na adolescência e que são significativos na formação da pessoa humana.
Inicialmente abordará aspecto linguístico dos termos adolescência e puberdade, considerando o consagrado pela língua portuguesa e as contribuições advindas das línguas latina e grega.
Em sequência fará uma breve exposição das principais ocorrências de cunho fisiológico, que surgem na adolescência, ou das alterações resultantes e, que, constituem características básicas dessa fase do desenvolvimento.
Por fim discorrerá sobre as possibilidades que a adolescência oferece para a formação da pessoa e seu ajustamento bio-psico-social contributivo para o seu bem estar individual e para uma participação exitosa como membro da sociedade onde vive.
O estudo resulta de pesquisa bibliográfica de alguns autores que editaram seus trabalhos em livros, (incluindo duas revistas apenas), sem ter um compromisso com a sincronicidade das publicações e preocupado simplesmente com o assunto, na visão de diversos especialistas, incluindo médicos, psicólogos, antropólogos, pedagogos, psicanalistas, psicomotricistas, psicopedagogos, filósofos, fisiólogos, professores de educação física, teólogos etc. O trabalho, portanto, não tem uma visão de completude, mas apenas dos dados mais gerais relacionados com a fisiologia do adolescente, que constituem fatores para um desenvolvimento normal do ponto de vista psico-físico e que resultam na formação de uma pessoa ajustada, em harmonia consigo mesma e com o seu meio social.

Aspectos Linguísticos dos Termos Adolescência e Puberdade

Francisco da Silveira Bueno em seu Dicionário Escolar da Língua Portuguesa (1981), registra o verbete adolescência, substantivo feminino, significando o período da vida do homem entre a puberdade e a virilidade, que vai dos quatorze aos vinte e cinco anos.
Embora tal definição seja tipificada para o sexo masculino, os verbetes do adjetivo e substantivo adolescente admitem os dois gêneros, significando, que, ou o que está na adolescência.
Em linguagem do senso comum fala-se de adolescência e puberdade como significando uma mesma coisa, referindo-se principalmente à crise vivencial muito comum na adolescência (Jérome 1962).
A língua latina, que deu origem aos vocábulos da língua portuguesa, registra adolescentia como o período da vida humana entre a puberdade e a virilidade, que vai dos quatorze aos trinta anos (Faria 1994). O termo deriva do verbo adolesco, que em sentido próprio significa crescer, desenvolver-se, engrossar, tornar-se maior, mas que Vergilio empresta também o sentido figurado, significando arder, queimar, transformar-se em vapor (Georgicas 4, 379).
Quanto ao termo pubertate, deriva o mesmo do verbo pubesco, que em Cícero tem o sentido de cobrir-se de pêlos, chegar à puberdade (De Officiis 1118).
Percebe-se que tanto no latim como em português, puberdade denota idéia de um fenômeno de transformação corporal, universalmente presente, enquanto adolescência significa o processo ou a fase em que ocorre o processo psico-social de inserção do jovem no mundo dos adultos, variando de acordo com as culturas, podendo até mesmo estar ausente, conforme relatam estudos antropológicos (Grace 1978).
O grego, que exerceu influência sobre as línguas latina e portuguesa, traz colaboração importante de adequação ao ponto de vista fisiológico, pois dentro do conceito de efebeia () inclui as idéias de puberdade e adolescência em todas as suas fases, sendo hebe () o desabrochamento do novato (= neotes) (Lauro 1940), desde o surgimento dos pêlos e transformações corpóreas ( = tricotes) até o exalar de sua sexualidade, vigor e maturidade (= tragos) (Pereira 1976).

Características Fisiológicas da Adolescência e Puberdade

Embora o critério de definição de adolescência da língua grega seja mais adequado para reflexões fisiológicas, como é esclarecido anteriormente, ao fazer considerações sobre os principais aspectos fisiológicos da adolescência e puberdade, como aqui se pretende, este texto seguirá a definição de Weineck (1991, pág. 254) que ao considerar o desenvolvimento humano, coloca a infância escolar tardia por volta dos dez anos, como a entrada na puberdade e esta, abrangendo duas fases distintas, primeiro a da pubescência, entre os onze a quatorze anos para as meninas e entre os doze a quinze anos para os meninos; e a segunda a da adolescência, situada entre treze a dezoito anos para as meninas e dos quatorze aos dezenove anos para os meninos. Depois disso seguirá a fase da idade adulta.
A idéia de fases do desenvolvimento significa os períodos de um desenvolvimento uniforme, que permite nítida distinção entre eles, através de características claramente diferenciadas. Weineck citando Keller/Wiskott diz que, desenvolvimento é a soma dos processos de crescimento e diferenciação do organismo, que finalmente levam ao seu tamanho, forma e função definitivos (Weineck 1991 pág. 254).

Atividade Motora


Crianças e adolescentes necessitam para um desenvolvimento psico-físico harmonioso, de uma dose suficiente de movimentação (Weineck 1991). Isto acontece graças a um mecanismo fisiológico do pallidum, então com dominância de impulsos, produzindo uma maior movimentação (Korolkovas 1991) e por outro lado a uma outra característica do ser jovem, que tem a capacidade de perceber o esforço para suportar carga diminuída com relação ao adulto, o que sugere devam ser, consideradas as particularidades referentes ao crescimento das crianças e adolescentes no gerenciamento das atividades físicas (Weineck 1991).

Proporções Corporais


Os segmentos corporais das crianças e adolescentes apresentam crescimentos em intensidades diferentes, acarretando alterações nas proporções corporais, significativas para a prática de exercícios, principalmente na fase da pubescência.
Weineck (1991 pág. 248) citando Zurbrugg diz que ocorre um crescimento centrípeto, ou seja, pés e mãos amadurecem antes que pernas e antebraços e estes amadurecem antes que coxas e braços.

O Problema da Aceleração e Retardamento


O desenvolvimento normal da criança e adolescente faz coincidir a idade cronológica com a biológica, não acontecendo o mesmo nos casos de desenvolvimento precoce, quando ocorre uma sucessão acelerada das fases do desenvolvimento corporal em um ou mais anos e nos casos de desenvolvimento tardio, um retardamento por um ou mais anos. Tais variações no crescimento físico podem ser perturbadora para o adolescente (Telford 1980).
Nos três tipos de desenvolvimento existe um crescimento harmônico, em relação ao desempenho orgânico, às medidas dos órgãos e ao sistema esquelético (Weineck 1991).

Metabolismo


Na criança, ou adolescente, em fase de crescimento, o metabolismo estrutural desempenha um papel muito especial, em razão do crescimento e diferenciação que exigem diversos processos de estruturação e restruturação, com conseqüente aumento do metabolismo basal em cerca de 20 a 30% mais que no adulto, necessitando, portanto, de maior quantidade de vitaminas, minerais e outros nutrientes. Há uma necessidade maior de proteína, na ordem de 2,5 g por quilo de peso corporal, sendo esta necessidade mais aumentada ainda em caso de cargas adicionais conseqüente de exercícios, para se evitar que o metabolismo funcional prejudique o metabolismo estrutural e interfira no crescimento do organismo infantil (Weineck 1991).

Aparelho Locomotor Passivo


Diz a Lei de Mark-Jansen (citado por Weineck 1991, pág. 249) que “a sensibilidade do tecido é proporcional à velocidade de crescimento”. Assim a criança ou o adolescente, quando comparados ao adulto, estão muito mais expostos ao perigo de danos de carga, através de estímulos não fisiológicos da carga, pois seus ossos, tendões e ligamentos, que compõem as estruturas do aparelho locomotor passivo, estando ainda em crescimento, não mostram a mesma resistência à carga que na idade adulta, constituindo um fator de desempenho limitante (Weineck 1991).

Eis algumas particularidades da infância e adolescência:
- Os ossos são mais flexíveis e menos resistentes à pressão e tração, devido a um armazenamento relativamente maior de material orgânico mole.
- O tecido dos tendões e ligamentos ainda não é suficientemente resistente à tração, devido ao fraco ordenamento micelar (estruturas semelhantes a redes de cristais) e predominância de substâncias intercelulares.
- O tecido cartilaginoso e os discos epifisários ainda não ossificados, representam um perigo em relação às forças de pressão e torção, devido à sua alta taxa de divisão, condicionada ao crescimento.
Pode-se afirmar que impulsos de carga adequados ao crescimento - submáximos, exigindo de forma múltipla o complexo todo do aparelho locomotor passivo - oferece um estímulo apropriado, tanto para o crescimento quanto para a melhora da estrutura (Weineck 1991).

Musculatura


Há semelhança entre a célula muscular esquelética da criança e do adulto. O que diferencia é a formação quantitativa de subestruturas da célula muscular, sendo, a parcela de fibras ST (slow twitch - contração lenta) na faixa dos doze anos, equivalente a 64,2 ± 11% nas meninas e 72,8 ± 11% nos meninos.
Até o início da puberdade há pouca diferença de massa e força musculares entre meninos e meninas. Só a partir de então e em conseqüência de alterações hormonais ocorrem acentuadas taxas de crescimento em relação à massa muscular e desenvolvimento diferenciado, específico do sexo e características corporais (Weineck 1991).

Termorregulação


Em termos de termorregulação existem diferenças entre crianças e adultos.
A superfície corporal absoluta da criança é menor, mas ao contrário, sua superfície relativa em relação ao peso corporal, é cerca de 36% maior que a do adulto. Entretanto, apesar dessa superfície corporal relativa ser maior, as crianças apresentam uma menor taxa de transpiração, em cerca de 2,5 vezes menor que no adulto por glândula sudorípara. Além disso a criança tem menor número de glândulas sudoríparas ativas.
Há também uma limitação no hipotálamo, segundo se pensa, elevando o limiar de temperatura para que a transpiração se inicie (Weineck 1991).

Desenvolvimento Cerebral


O desenvolvimento da cabeça, cérebro e todo o corpo acontece de modo muito variado.
O cérebro tem um crescimento muito rápido, atingindo 90 a 95% do tamanho do adulto já aos seis anos de idade (Weineck 1991).
As células nervosas do sistema nervoso central, sofrem um entrançamento e proliferação intensiva até o terceiro ano de vida, podendo ser estimuladas por meio de exercícios adequados (Le Boulch 1978).

Sistema Cárdio-circulatório


Durante o crescimento ou sob treinamento, as fibras musculares cardíacas tem um desenvolvimento harmonioso, com aumento no seu comprimento e diâmetro, propiciando diminuição da freqüência cardíaca, aumentos do espaço interno do coração e do volume de pulsação, levando o coração a um trabalho mais efetivo e econômico.
O sistema cárdio-circulatório de crianças e jovens, sob estímulos de treinamento, realiza alterações adaptativas positivas, principalmente sob o treino de resistência, podendo alcançar um volume cardíaco relativo por quilo de peso corporal, de 14,9 a 18,1 ml, quando a normalidade para um coração esportivo adulto é da ordem de 12 ml (Weineck 1991).

O Crescimento Corporal e a Maturidade Sexual


O crescimento do corpo todo, em sua estatura normal, ao contrário do cérebro, só vai acontecer no término da puberdade, em torno dos vinte anos (Weineck 1991).
A arrancada para este crescimento acontece em torno dos nove a dez anos, quando o hipotálamo secreta os fatores de liberação que irão influenciar a hipófise anterior levando-a a produzir o hormônio somatotrófico que impulsionará o crescimento corporal e os hormônios gonadotróficos que estimularão o desenvolvimento dos caracteres sexuais primários e secundários (Korolkovas 1991).

Esquema Corporal


O esquema corporal tem uma evolução lenta durante a infância, alcançando seu pleno desenvolvimento aos onze ou doze anos, portanto na fase puberal.
O esquema corporal é definido como uma intuição global ou conhecimento imediato do nosso corpo, em estado de repouso ou em movimento, em função da interrelação de suas partes e sobretudo da relação com o espaço e os objetos que o rodeiam, uma relação ajustada entre o indivíduo e seu meio (Le Boulch 1969).
A elaboração definitiva do esquema corporal, ocorre, graças a tomada de consciência dos diferentes elementos corporais e ao controle de sua mobilidade com vista a ação, levando a diversos ganhos:
- Desenvolvimento e instalação das possibilidades de relaxamento global e segmentar;
- Independência dos braços e pernas com relação ao tronco;
- Independência da direita com relação à esquerda;
- Independência funcional dos diversos segmentos e elementos corporais;
- Transposição do conhecimento de si ao conhecimento dos demais.
Desenvolve diversas capacidades de aprendizagem e de relação com o mundo exterior, tendo meios para conquistar sua autonomia.
Sua relação com o adulto, se distanciará cada vez mais até chegar a cooperação e ao compartilhamento das responsabilidades (Vayer 1973).
Amplia as condições para o aperceber-se da sua singularidade e complexidade, fornecendo os elementos essenciais para o tornar-se pessoa (Mondin 1980).

Crise Existencial


Embora existam diferentes teorias sobre os conflitos da adolescência, estudos etnográficos indicam que, as circuntâncias sociais concretas da vida da criança determinam a duração do período da adolescência, e a existência ou ausência de crises conflitivas e dificultosas e o caráter da passagem da infância à idade adulta. Deriva desses estudos a idéia de que “no homem o natural não pode ser contraposto ao social, porque nele o natural é o social” (Dragunova, 1979).
Há a necessidade de por em relevo a nova formação básica na consciência do adolescente, esclarecendo a situação social do desenvolvimento que, em cada idade, constitui um sistema irrepetível de relações entre a criança e o meio. A reestruturação desse sistema de relações cosntitue o conteúdo fundamental da crise da idade transicional (Vigotski, 1960).
A posição imprecisa do adolescente, que se reconhece adulto em alguns aspectos e não em outros, e as exigências que se apresentam em seu meio social, quando em um desenvolvimento psicofísico normal e assistência pedagógica devida, servirá ao jovem de dinamizador na busca de valores positivos para adornar a sua personalidade, como assimilação de operações intelectuais complexas, desenvolvimento da autoconsciência, capacidade de comunicação e de vida emocional, iniciativa social, formação da concepção de mundo, adoção de ideário filosófico, social, espiritual, político, filantrópico ou profissional que possibilita a sua autotranscendência e o caminhar para a integralização da sua pessoa (Kon, 1979).

A Adolescência e o Tornar-se Pessoa



A questão da pessoa não era totalmente desconhecida dos sábios da antigüidade, mas foi no Cristianismo que ela se delineou claramente através do Personalismo, quando os Pais da Igreja se ocuparam em estudar a Pessoa de Cristo, que por extensão levou a uma melhor compreensão da pessoa humana. Desde então, estudiosos se voltam para a reflexão sobre uma melhor definição do que constitui a pessoa humana (Mondin 1980).
Atualmente, o Humanismo, em suas diversificadas nuances e variações (Feijó 1992), devota especial interesse pela totalidade da pessoa humana, servindo de base para a abordagem holística, adotada por diferentes profissionais das áreas de saúde e educação no trato com o homem, preocupando-se com a totalidade da pessoa, em resposta à crise de fragmentação imposta pela ciência e suas especializações (Crema 1994).
A pessoa não é um resultado já belo e adquirido desde o nascimento, mas é, antes uma fonte de ricas possibilidades pela qual se faz uma conquista, oportunizada durante toda a vida do adulto (Mondin 1980).
Tornar-se adulto do ponto de vista social varia com cada cultura, sendo a puberdade o evento natural demarcador da fase transicional entre a infância e a vida adulta, mesmo naquelas culturas sem contagem cronológica, que se valem dos “ritos de passagem” para conferir o status de adulto aos membros de suas comunidades (Mair 1984).
O começo da puberdade forma um marco no desenvolvimento psicofísico do adolescente, sem nenhum equivalente na vida adulta (Weineck 1991). Sua intensa criatividade e sua reatividade aliada aos valores de sua individualidade, constituem aspectos fundamentais de estimulação para que se consiga uma boa maturidade psicossocial e futura relação harmoniosa com o mundo (Mondin 1980).
Durante a adolescência o jovem adquire saber e crescimento corporal, não podendo o seu desenvolvimento saudável ser dissociado de um bom ambiente escolar, familiar e social (Naiying 1996). É nessa fase que se encontram as bases para se delinear a orientação geral na formação das atitudes morais e sociais da personalidade que continuará desabrochando na vida da pessoa humana (Petrovski 1979). É essa a ocasião de se aprender tudo aquilo para o qual a vida humana deve ser orientada, para que se torne uma vida plenamente valiosa.
O valor funcional desse acesso aos valores sociais é considerável. A inteligência e a afetividade do adolescente, do adulto jovem, devem ser mobilizadas para proporcionar uma vida nova, na qual será muito importante o espírito de responsabilidade, tão fundamental a uma vida adulta plenamente realizada (Wallon, citado por Ajuriaguerra).
Segundo Feijó (1992, p. 43), “O indivíduo é uma organização psicossomática em constante processo, em perene desabrochar. Em outras palavras, a personalidade é um sistema com dimensões históricas, com um princípio, meio e fim. Seu vir-a-ser é a elaboração da história passada projetando-se na direção da história futura.” O adolescente não pode ser explicado simplesmente pela interferência entre o biológico e o sociológico. Se é verdade que ele deve fazer a história, também é verdade que ele é fruto de sua história pessoal (Ajuriaguerra sem data); pois as peculiaridades das manifestações e do curso do período da adolescência estão determinadas por circunstâncias sociais concretas da vida e do desenvolvimento do adolescente e por sua situação social no mundo dos adultos, constituindo subsídios importantes na formação da pessoa (Petrovski 1985).
A pessoa humana só pode ser compreendida mediante a ligação que a une ao seu meio inter-humano. “Quando o ser humano integra as atividades orgânicas e biológicas que mantém sua existência e a ligam ao seu meio biológico, ele se chama corpo; quando ele integra suas atividades orgânicas, suas necessidades de afeto ou sua afetividade, identificando-se então, parcialmente, com os objetos de seus grandes interesses visuais e ligando-se a outros seres humanos vivos, ele se chama indivíduo; quando ele integra suas atividades orgânicas, suas atividades instintivas, suas atividades de estruturas complexas, identificando-se então com seus semelhantes e com ele mesmo, como projeção espiritual de qualquer ideal, tornando-se então um ser com valores, um ser com direitos, com deveres e um ser ainda mais ligado aos outros homens em sua intimidade moral, é que ele adquire mais autonomia e liberdade, chamando-se pessoa” (Hesnard, citado por Ajuriaguerra).
O ser humano tem internalizado como seu, elementos importantes do meio sócio-cultural, científico e espiritual que constituem e definem sua pessoa (Vigotski 1960). Assim os filósofos reconhecem como características principais da personalidade, quatro elementos essenciais que permitem definir a pessoa como um indivíduo dotado de autonomia quanto ao ser, de autoconsciência, de comunicação e de autotranscendência (Mondin 1980), adquiridos em um processo que tem início na adolescência e que poderá ser aperfeiçoado durante toda a vida (Petrovski 1985).

Conclusão

As transformações que ocorrem no corpo durante a adolescência e que culminam com a forma corporal definitiva do adulto, surgem em conseqüência de fatores fisiológicos e são importantes para a formação da personalidade.
Tais mudanças tem início com a fase da puberdade, mas são desencadeadas um pouco mais cedo através de mecanismos neuroendócrinos, que estimulam a produção dos hormônios responsáveis pelo desenvolvimento do corpo e dos caracteres sexuais primários e secundários.
Para um desenvolvimento harmonioso, a criança e o adolescente necessitam de muita movimentação. Isto é conseguido graças a dominância de estruturas encefálicas, que produzem mais impulsos motores, e por outro lado, pela diminuição da capacidade de percepção do esforço para suportar cargas. Essa atividade motora aumentada é significativa para o adolescente porque estimula também o metabolismo estrutural, aumentado necessariamente, para atender a maior demanda conseqüente dos processos de estruturação e restruturação, envolvidos no crescimento e diferenciações do corpo, que culminam com a forma corporal definitiva do adulto, possibilitando a elaboração e introjeção do esquema corporal, instrumento útil para uma relação ajustada entre o indivíduo e seu meio, desenvolvendo a sua autonomia, capacidade de cooperação social e compartilhamento de responsabilidades, pela percepção de sua singularidade e complexidade pessoal.
As circunstâncias sociais concretas da vida do adolescente, quando em um desenvolvimento psico-físico ideal, mesmo que desencadeie uma crise existencial pela fase transicional da infância para a vida adulta, possibilita que ele desenvolva a sua autoconsciência, delimite as fronteiras da heteronomia em que vive e conquiste a sua autonomia enquanto ser, estabelecendo relações saudáveis consigo mesmo, com o meio e com as outras pessoas, que amplia a sua capacidade de comunicação e vida afetiva, adotando a participação social e os ideais altruístas, filantrópicos, espirituais, filosóficos e profissionais que permitem a realização de sua personalidade e autotranscendência, evidenciadas na sua manifestação enquanto pessoa.

Referências Bibliográficas


AJURIAGUERRA, J. de, Manual de Psiquiatria Infantil, 2ª edição, Masson, Brasil, sem data.
BUENO, F. da Silveira, Dicionário Escolar da Língua Portuguesa, 11ª edição, FENAME, Rio de Janeiro, 1981.
CREMA, Roberto, Homo Holisticus, in Pensando o Corpo e o Movimento, Organizado por Estélio H. M. Dantas, Shape, Rio de Janeiro, 1994.
DRAGUNOVA, T. V., Características Psicologicas del Adolescente, Editorial Progresso, Moscú, 1979.
FARIA, Ernesto, Dicionário Escolar Latino-Português, 6ª edição, FAE, Rio de Janeiro, 1994.
FEIJÓ, Olavo G., Corpo e Movimento. Uma Psicologia Para o Esporte, Shape, Rio de Janeiro, 1992.
GALLIANO, A. Guilherme, O Método Científico, Harbra, São Paulo, 1979.
GRACE, Miriam S. Nicholson, Philip T., Lipsitf, Don R., Introdução ao Estudo da Psicologia, Cultrix, São Paulo, 1978.
JÉROME, J., O Escrúpulo, volume 9, Edições Palmas, São Paulo, 1962.
KON, J. S., Psicologia de la Primera Juventud, Ed. A.C.P., Moscú, 1960.
LE BOULCH, Jean, La Educacion por el Movimiento, Paidós, Buenos Aires, Argentina, 1969.
———, Hacia uma Ciencia del Movimiento Humano, Paidós, Buenos Aires, Argentina, 1978.
LELLO e Irmãos, Dicionário Prático Ilustrado Luso-Brasileiro, Porto, Portugal, 1961.
LOURO, José Inez, O Grego Aplicado à Linguagem Científica. Edit. Educação Nacional, Porto, Portugal, 1940.
MAIR, Lucy, Introdução à Antropologia Social, 6ª edição, Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1984.
MANNARINO, Celina, Aspectos Psicossociais dos Distúbios da Puberdade, Arquivo Brasileiro de Pediatria 3(5):127-128. 1996.
MONDIN, B., O Homem, Quem é Ele? Elementos de Antropologia Filosófica, Edições Paulinas, São Paulo, 1980.
NAIYING, Pang, Helpi Geknabojn en ilia Adoleskanteco, El Popola Cinio 11(458):4-6, 1996.
PEREIRA, Isidro, Dicionário Grego-Portugês, Português-Grego, 5ª edição, Livraria Apostolado da Imprensa, Porto, Portugual, 1976.
PETROVSKI, A., Psicologia Evolutiva y Pedagogica, Editorial Progreso, Moscú, 1985.
TELFORD, C. W. e SAWREY, J. M., Psicologia, 5ªedição, Cultrix, São Paulo, 1980.
VAYER, Pierre, El Niño Frente al Mundo, Editorial Científico-Medica, España, 1973.
VIGOTSKI, L. S., Desarrollo de las Funciones Psiquicas Superiores, Ed. A.C.P., Moscú, 1960.
WEINECK, J., Biologia do Esporte, Editora Manole, São Paulo, 1991.

---------------------------------------------------------------------------------------------------------

(1) - Professor Mestre Adjunto I da UNIGRANRIO; Doutor em Filosofia da Religião - SETESA/Não Capes; Mestre em Ciências da Motricidade Humana - UCB/Capes; Formação em Psicanálise Clínica - SFPC; Formação em Psicomotricidade Sistêmica - CEC; Formador-Didata em Terapia Psicomotora Analítico Clínica - TEPAC do CEBRASC; Especialista em Docência Superior - IBMR; Bacharel em Fisioterapia - IBMR; Bacharel em Filosofia - SETESA; Bacharel em Teologia - SETESA; Bispo Primaz do Catolicismo Evangélico Salomonita - ICAI-TS.

Implantação de Projetos Comunitários



Educação para a Vida
Prof. Dr. Felismar Manoel (1)

Tem havido pedidos de alunos, para que eu publique as políticas, métodos e técnicas que o Catolicismo Evangélico Salomonita usa, para implantação dos programas pastorais de "promoção humana e educação para a vida" junto às diferentes comunidades sociais, onde atuam nossas missões, capelas e paróquias. Esta publicação atende a essas solicitações.

1 - Atenção Básica às Comunidades do Povo de Deus.

Na atenção básica às comunidades promovida pela ICAI-TS, o alvo principal é a promoção humana inspirada no Evangelho Libertário de Jesus Cristo, que alforria o Ser Humano não só subjetivamente do pecado, na sua vida pessoal, mas também na vida social, familiar e dos grupos que partilham experiências na sua caminhada no planeta terra. Por isso há uma preocupação em educar para a vida.
Vida aquí é tomada nos seus dois sentidos eruditos: o bios (biologia) enquanto “processos vitais orgânicos, e também o zoês (zoesia), enquanto vida subjetiva plenificada pela vivência das ordenanças evangélicas, viés revelado por Jesus Cristo.
Neste contexto, vida é sinônimo de saúde e deve ser vista enquanto processo, cujas fases podem ser operacionalizadas pelo ser humano de modo consciente, como sujeito do processo e como ator no cenário onde vive e compartilha experiências.
O modo principal de operar essas mudanças na vida do ser humano é através da Educação para a Vida. Por isso temos em todas as comunidades os Centros de Instrução pró Vida – CIVIDA. Aqui a educação é percebida enquanto processo.

Assim a educação deve acontecer mínimamente seguindo as fases seguintes:
SENSIBILIZAÇÃO <===> INFORMAÇÃO;
INFORMAÇÃO <===> MOTIVAÇÃO;
MOTIVAÇÃO <===> EXPERIMENTAÇÃO;
EXPERIMENTAÇÃO <===> ADOÇÃO DO NOVO.

Na realidade, só terá acontecido a educação, quando houver a adoção do comportamento novo.
Só haverá a construção do sujeito, quando houver a sua conscientização e a assunção do seu papel no processo, quando então o sujeito se tornará ator no cenário da sua comunidade, agente capaz de transformar a realidade na construção de um mundo melhor.

I - Caminhos a Seguir:

1 – Vistoriar a região da comunidade para se conhecer a realidade local (quando houver tempo e recursos, aconselha-se usar o método etnográfico participativo). Normalmente utiliza-se o “diário de campo” (um caderno) para anotar tudo que for significativo, ou relevante, quando se "passeia" pela comunidade, anotando tudo de significativo que percebe, tanto os de aspecto positivo, quanto os de aspectos negativos;

2 – A partir dos diários de campo, se reunem e elaboram um Relatório de Vistoria Sistematizado - RVS, (sistematizar é por ordem sistemática nos dados registrados) para fornecer subsídios à identificação dos problemas;

3 – Análise do RVS, identificação dos problemas e construção de uma MATRIZ DE PROBLEMAS - MdP. (Deve-se analisar os dados do RVS, identificando os problemas que podem ser resolvidos e anotando-os em separado em uma folha de papel, que constitui a Matriz dos Problemas)
4 – A partir da MdP elabora-se um DIAGNÓSTICO SITUACIONAL- DS. (A partir dessa MdP é que vai se pensar, raciocinar e encontrar o Diagnóstico da Situação Local).

5 - Segue-se uma análise conjuntural participativa para escolha de prioridades. (É sempre conveniente a participação dos membros das comunidades, que possam fornecer subsídios dos pontos complicadores existentes nas comunidades, principalmente daqueles que representam os CONTRA-VALORES e que podem oferecer riscos para os agentes de pastorais e para os membros das comunidades que se envolvem). (A análise da conjuntura é extremamente importante, e nela deve participar as pessoas amadurecidas, lúcidas e responsáveis das próprias comunidades, além de técnicos, pois ela visa evitar complicações, interdições, conflitos; quando existem atividades marginais, caciquismo ideológico, político, ou até mesmo religioso, tém-se que ter cuidados nas comunidades. Na análise conjuntural deve-se atentar também para esses aspectos).

6 – Com base na análise conjuntural constrói-se a MATRIZ DE ESTRATÉGIAS DE AÇÃO - MEA. (A matriz de estratégias de ação MEA, é a relação das ações possíveis para resolver os problemas existentes, anotadas em folha de papel, que será uma peça importante do trabalho comunitário).

7 – A partir das MEA elabora-se os Projetos de Intervenções para implementação das ações transformadoras das realidades passíveis de mudanças. É a partir da Matriz de Estratégias de Ação, que o grupo de Agentes Pastorais irão construir os Projetos de Intervenção para solucionar os problemas. (Poderá surgir a necessidade de pesquisas também, tanto no sentido fenomenológico, quanto no cartesiano, visando esclarecer pontos obscuros antes de iniciar as intervenções).

8 – Na Implementação das ações deve-se fazer o acompanhamento, através de avaliação do controle do processo em andamento e avaliar também o impacto das ações interventoras na comunidade. (Aqui deve-se ter cuidade em adotar um mecanismo para fazer o controle do processe de intervenção - Relatórios de Vistoria Técnica, Memoranda, Questionários, etc. Também deve fazer o controle do impacto das intervenções junto à Comunidade, aplicando Questionários Comunitários antes de iniciar e após a implantação dos projetos).

II - Alguns Fatores já conhecidos de Saúde e Qualidade de Vida nas Comunidades, que servem de focos de nossas observações:

Educação formal acessível, saneamento básico existente e mantido (refere-se a drenagem de águas e esgotos com bitolagens progressivas das tubulações, calçamento, asfaltamento, etc); habitação adequada à dignidade da pessoa humana; renda suficiente para a sustentabilidade da vida; trabalho dignificante; alimentação adequada; meio ambiente equilibrado (É bom que haja conscientização dos fatores antrópicos comprometedores do equilíbrio ambiental, que podem ser evitados); bens e serviços essenciais acessíveis; espaços de convivência sociocultural disponíveis; espaços para atividade física e lazer disponíveis; segurança civil; transporte para o ir e vir; livre expressão filosófico-religiosa e ideológica, entre outros.

III - Bases para Implantação das Linhas Pastorais. O ser humano é uma entidade complexa, devendo ser respeitada essa complexidade, quando do nossos projetos de intervenções:

1 – Qualquer linha de intervenção deve considerar o ser humano em sua totalidade, em sua integralidade. É muito difícil uma abordagem verdadeiramente holística, no sentido grego do termo, mas é possível desejar aproximar o mais que for possível desta totalidade, para o que adotamos o termo pró holística;

2 – Ao implementar as ações busque envolvimento sinérgico de outras forças vivas da comunidade ou do Municipio;

3 – É necessário o envolvimento e a participação da comunidade, por isso é recomendado adotar os encontros de discussões com seus membros para o necessário empoderamento, visando torná-los sujeitos do processo de transformação da realidade local, verdadeiros atores daquele cenário onde vivem – pode-se aproveitar as datas comemorativas, os eventos sociais, etc;

4 – Outro ponto importante é a participação social, através de parcerias, de preferência, da região onde as ações se desenvolvem;

5 – Na distribuição dos beneficios das ações tém-se que ser equitativos, não podendo privilegiar apenas os que são simpatizantes ou adeptos do seu credo;

6 – Para a implementação das ações é conveniente, diria mesmo essencial, que haja múltiplos envolvimentos estratégicos, para que tais ações se consolidem, não como modismo, mas como ação transformadora da realidade;

7 – Para que não seja modismo, é necessário que as ações implementadas sejam sustentadas ao longo do tempo, para que possam envolver as bases do imaginário das pessoas da comunidade, desde as crianças, adolescentes e adultos.

IV - Roteiro para os Projetos ou Programas de Intervenção nas Comunidades:

É interessante notar que qualquer projeto ou programa de intervenção, tem necessariamente que envolver o processo educacional, embora permeie outros eixos de pertinência.
Falamos tanto da educação formal, quanto da educação informal. Para isso adotamos um Roteiro para a Montagem dos Projetos ou Programas de Intervenções.
Este Projeto ou Programa de Intervenção é perpassado por diferentes Eixos de Pertinências, conforme as áreas da realidade que se quer transformar:

1 – Área de Intervenção - (focar os problemas que se quer resolver, aclarando os diferentes eixos de pertinência que serão considerados: saúde, trabalho, educação, moradia, segurança, transporte, etc);
2 – Beneficiários ou Público Alvo que se quer atingir, considerando cada eixo de pertinência;
3 – Objetivos Gerais – Poderá ser aclarado por eixos de pertinência, ou genericamente.
Objetivos Específicos – O ideal é que os objetivos Específicos sejam aclarados por cada eixo de pertinência;
4 – Justificativas – (referir-se à importância das intervenções, ações, ou projetos, com relação aos problemas identificados em cada eixo de pertinência);
5 – Programação das atividades – (apresentar a programação das atividades a serem implantadas, por eixos de pertinência, preferentemente mediante cronograma das ações, mesmo que tenha flexibilidade para adaptações e mudanças);
6 – Descrição das Metodologias de Ações – (os métodos de ação devem ser apresentados por cada eixo de pertinência);
7 – Órgãos participantes – (aqui são aclarados os parceiros que estão comprometidos ou envolvidos em nossa empreitada pastoral, podendo ser por eixos de pertinência);
8 – Programação Orçamentária – (a programação orçamentária deve ser efetuada minuciosamente, mesmo que com recursos da própria ICAI-TS, pois o orçamento facilita o controle dos custos, a prestação de contas e favorece a análise de parceiros sociais. Para nós na ICAI-TS, quase sempre montamos os nossos projetos com a boa vontade de servir, COM A CARA E A CORAGEM, como se diz popularmente);
9 – Administração do Projeto ou Programa de Intervenção – (indicar quem gerenciará a execução e desenvolvimento do projeto ou programa, por eixos de pertinência);
10 – Metodologias de Acompanhamento dos Projetos e Programas – (é necessário avaliar a execução das diferentes etapas das execuções de projetos e programas, por isso se define a metodologia para avaliar o controle do processo de desenvolvimento, bem como para avaliar o impacto que a implantação dos projetos ou programas produzem nas comunidades, isto poderá ser feito por cada eixo de pertinência).

Observação – Aqui, quando se fala em Programas, está se referindo ao aspecto de empreitada pastoral guarda-chuva, que abriga diferentes projetos e ações, geralmente de longa duração.
Quando se fala em projetos, são empreitadas mais focais, tanto de pesquisas prévias, quanto de intervenção direta para transformação de alguma realidade local, com menor tempo de duração e geralmente abrigados em um programa maior.

Referências Norteadores :

Cartas Internacionais de Saúde e Modelos para Implantação de programas e Projetos Comunitários seguindo as influências da Fundação Getúlio Vargas..

Felismar Manoel – Implantação de Linhas Pastorais transformadoras da realidade para a construção de um mundo melhor – Capivari (Vila Coqueirinho), Duque de Caxias, abril de 1994.

------------------------------------------------------------------------------------------------------
(1) - Professor Mestre Adjunto I da UNIGRANRIO; Doutor em Filosofia da Religião - SETESA/Não Capes; Mestre em Ciências da Motricidade Humana - UCB/Capes; Formação em Psicanálise Clínica - SFPC; Formação em Psicomotricidade Sistêmica - CEC; Formador-Didata em Terapia Psicomotora Analítico Clínica - TEPAC do CEBRASC; Especialista em Docência Superior - IBMR; Bacharel em Fisioterapia - IBMR; Bacharel em Filosofia - SETESA; Bacharel em Teologia - SETESA; Bispo Primaz do Catolicismo Evangélico Salomonita - ICAI-TS.