domingo, 19 de janeiro de 2014

Diabos, Demônios, Satanás e a Palavra de Deus


Bispo Felismar Manoel (1)



"Sede fortalecidos no Senhor e na força do seu poder.
Revesti-vos de toda armadura de Deus, para poderdes ficar firmes contra as ciladas do Diabo;
porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes.
Portanto, tomai toda armadura de Deus, para que possais resistir no dia mau e, depois de terdes vencido tudo, permanecer inabaláveis.
Estais, pois firmes, cingindo-vos com a verdade e vestindo-vos da couraça da justiça.
Calçai os pés com a preparação do Evangelho da Paz;
embraçando sempre o escudo da fé, com o qual podereis apagar todos os dardos inflamados do Maligno.
Tomai também o capacete da salvação e a Espada do Espírito, que é a Palavra de Deus;
com toda oração e súplica, orando em todo tempo no Espírito e para isto vigiando com toda perseverança e súplica por todos os santos
e também por mim; para que me seja dada, no abrir da minha boca, a palavra, para, com intrepidez, fazer conhecido o mistério do evangelho,
pelo qual sou embaixador em cadeias, para que, em Cristo, eu seja ousado para falar, como me cumpre fazê-lo".

Paulo aos Efésios 6: 10-20.



Nos dias de hoje, se usa como sinônimos, as palavras diabos, demônios e satanás. Nas diversas versões da Bíblia, por vezes, os três vocábulos são usados se referindo ao espírito maligno, se referindo a satanás. É verdade que satanás sempre procura tirar proveito das situações onde se fazem presentes as ações dos diabos e dos demônios; entretanto, existem algumas diferenças entre esses dois conceitos.

Inicialmente vamos definir cada conceito a partir das suas origens na língua grega:

 diabolês, diabo em português; é um substantivo feminino, que expressa vários sentidos, como... desavença e inimizade; aversão e repugnância; medo e temor; acusação; calúnia.
Nos textos bíblicos é geralmente apresentado como um ente do mal que faz o "jogo ao contrário" do bem da pessoa, é um inimigo da salvação, é um caluniador.
Resumindo: Diabo é o que joga contra o nosso bem, valendo-se das nossas tendências naturais.

daimonion, demônio em português; é um substantivo neutro, que expressa os sentidos de divindade e poder divino; gênio, fantasma e espírito; fado, destino; mau espírito;
Nos textos bíblicos geralmente expressa o sentido de um ente espiritual que perturba a ordem da salvação em Cristo;
Resumindo: Demônio é um espírito desencarnado que tem afinidade com algum dos nossos modos de ser.

ãsatanaz, satanás em português; refere-se ao espírito do mal, o anjo decaído, que popularmente se denomina capeta, o ente espiritual opositor da salvação operada por Jesus Cristo, o Filho de Deus.
Resumindo: Satanás é o espírito do mal inimigo de Cristo e da nossa salvação.

Os demônios

O que se entende por demônios nas literaturas antigas, de um modo bem generalizado? Quando se fala em demônios está se referindo a espíritos desencarnados, podendo ser os elementais da natureza, ou os espíritos humanos.

Demônios como espíritos (elementais) da natureza

Os espíritos elementais da natureza são infra-humanos, ou seja, nunca foram humanos, portanto podem ser os elementais da água (ninfas e ondinas); os elementais da terra (gnomos e pigmeus); os elementais do fogo (salamandras); ou os elementais do ar (sílfides); todos estes elementais sendo considerados como componentes dinâmicos não materiais, criados pelo Autor da Vida para fazer funcionar cada componente da natureza, considerando a natureza também uma das criaturas de Deus.
Algumas culturas antigas e outras dos dias de hoje, acreditam que esses elementais assumem funções de gênios, sendo responsáveis por certos comportamentos humanos; estes elementais se personalizam na individualidade dos seres humanos, para acerbar certos tendências da pessoa; como exemplos pode-se citar os arquétipos de íncubos e súcubos das mitologias antigas, que se tornam os responsáveis pelos comportamentos homossexuais passivos e ativos, de forma desregrada. Outras culturas consideram estes elementais como divindades, a quem atribuem certas tarefas no governo da natureza e que podem individualizar-se nas relações com algumas pessoas, tornando-se seus principais protetores; como exemplos temos os arquétipos dos diferentes orixás nas culturas africanas, principalmente na cultura iorubá.

Demônios como espíritos humanos desencarnados

Entende-se também por demônios, os espíritos desencarnados que se manifestam como inteligências humanas extracorpóreas, incluindo aí as almas dos mortos, ou qualquer outra sorte de espíritos, sejam considerados bons ou maus pelos diferentes grupos de culturas humanas.

Nos escritos antigos fala-se de "bons demônios" e "maus demônios", podendo ser "divindades" ou "gênios", responsáveis por influenciarem ou produzirem induções comportamentais nos seres humanos encarnados, ou nos fenômenos naturais. Esses demônios interagem conosco, a partir de afinidades com alguns aspectos de afirmação dos nossos egos pessoais, ou por afinidades com algumas de nossas tendências.
É interessante notar que o Evangelho Alforriador de Jesus Cristo confere aos discípulos de Cristo, poder sobre todos os tipos de demônios.

Relações entre os humanos e os espíritos

Querer negar as possibilidades de influenciação recíproca entre seres humanos encarnados e espíritos desencarnados é uma bobagem, pois a vida nas diversas igrejas e outras instituições religiosas, provam essas inter-influenciações, na maioria das vezes prejudiciais a maturidade espiritual da pessoa e à sua libertação e crescimento espiritual em Cristo.
Nos relatos bíblicos do Velho Testamento é proibido a busca de dialogo com os espíritos dos "mortos" pelos humanos vivos na carne, e não encontramos no Novo Testamento, nenhuma autorização para organizar uma forma cultual de consulta aos espíritos dos mortos.

Assistência espiritual dos cristãos

O evangelho de Jesus nos traz a promessa de Jesus Cristo, de não nos deixar na orfandade da sua presença, pois que o Espírito Santo faria esta função de Paracleto (Assistente) para nos orientar em todas as coisas. Graças a Deus isto aconteceu ao completar os dez dias após a ascensão de Jesus Cristo aos céus, quando ele enviou o Espirito Santo sobre seus discípulos reunidos em Jerusalém; enquanto comunidades eclesiais, temos sido amparados e orientados pelo Espírito Divino em todas as regiões do planeta onde existe a presença da Igreja de Cristo, desde aquele Pentecostes memorável dez dias após a Ascensão de Cristo aos céus, não tendo necessidade nenhum cristão, em qualquer lugar, de consultar espíritos de mortos sobre as questões da vida.

Como pode um demônio nos influenciar?

Para esclarecer este assunto com mais propriedade, acho conveniente refletir um pouco sobre a formação do sistema neurológico do ser humano. O nosso sistema neural é composto por três complexos blocos, sendo cada um desses blocos construídos por Deus ao criar certos grupos de animais que formam o filo dos vertebrados (animais que tem ossos).
O primeiro bloco é comum também aos peixes, anfíbios e répteis; o segundo sobreposto ao primeiro, é comum nos mamíferos; e o terceiro sobreposto aos outros dois, é comum nos macacos, apresenta vestígios de sua existência nos fósseis dos hominidas extintos, e também está presente nos humanos.
Temos uma estrutura neural complexa, cuja função principal é nos adaptar ao meio onde vivemos; o cérebro faz trocas constantes de informações entre o meio ambiente e os comandos de como agir no meio onde se vive.

Como o cérebro funciona?

A célula básica funcional do cérebro é chamada de neurônio. Trata-se de uma célula animal especializada em transmitir informações através de baixas correntes elétricas, que faz a liberação de substâncias bioquímicas no terminal do neurônio, e que é captada por outro neurônio, propagando assim a informação; dependendo do tipo da substância química produzida, poderá manter a informação inicial, poderá inibir a informação inicial, ou moderar a informação recebida.

Cada comportamento humano, tanto no plano dos pensamentos, das emoções, dos sentimentos, dos afetos, das funções corporais, ou das ações socioculturais, envolvem um determinado número de neurônios, formando portanto o conjunto de neurônios envolvidos, um padrão neural comportamental.
Este conjunto de neurônios com atividades afins, funciona por meio de fluxos elétricos e ações bioquímicas e recebe o nome de "engrama neural comportamental", produzindo nas áreas cerebrais diversificados "campos eletromagnéticos" e vibrações em variadas frequências, podendo portanto, ser compreendidas, quer em comprimento de ondas, quer em frequências em Hertz (unidades de medidas).

Como ocorrem as interações entre espíritos e pessoas

As afinidades entre inteligências extracorpóreas (espíritos desencarnados) e inteligências endo-corpóreas (espíritos encarnados, os seres humanos), se fazem pela sintonia das vibrações frequênciais de cada um de nós (sintonia é vibrar na mesma faixa) com o determinado espírito.
Aquilo que somos de fato, em segredo, na nossa intimidade mais séria, influenciados pelos nossos desejos mais íntimos (mesmo que sejam ocultos), pelos nossos pensamentos, pelas nossas emoções, pelos nossos afetos e sentimentos, movimentam as nossas trocas entre neurônios e produzem os nossos campos eletromagnéticos, sobre os quais agem os espíritos desencarnados, em consequência das afinidades com essas nossas idiossincrasias (nossas subjetividades individuais, nosso jeito de ser), produzindo as suas interferências em nossas vidas (perturbação, encosto espiritual, indução espiritual ruim, obsessão espiritual).

O ministério dos anjos de Deus

O ministério dos anjos de Deus ajudam os seres humanos que creem em Deus e cultivam o seu amor e reverência; mas as vezes nós humanos insistimos nos mesmos comportamentos, buscando a afirmação e satisfação dos nossos egos animais socioculturais, e colocando em segundo plano o ideal de construção do self espiritual cristão segundo o modelo de Cristo, facilitando, pelo mau uso do nosso livre arbítrio, as interferências espirituais nefastas a nossa espiritualidade em Cristo, conforme propõe o seu evangelho alforriador.

Dos espíritos verdadeiramente bons

Existem legiões de espíritos que compõem as testemunhas de Cristo, e estes se conjugam com os planos espirituais dos anjos de Deus em seu ministério a favor dos seres humanos.

Não faz parte do ministério dos anjos ajudar os humanos a organizar culto aos próprios anjos, culto aos espíritos, culto às almas dos mortos, culto aos santos, culto aos gênios, culto às divindades, culto aos demônios, culto a satanás; só existe como legítimo o culto de adoração, amor, serviço e reverência a Deus nas pessoas do Pai, do Cristo Filho e do Espírito Santo. O ministério dos anjos é constituído a favor dos humanos na sua relação com Deus em Cristo, conforme os planos de salvação oferecidos pelo Filho de Deus.

Na ordem angelical existe uma verdadeira hierarquia espiritual envolvida nos cumprimentos dos propósitos de Deus, tendo em ordem a criação, a manutenção, o funcionamento e a realização do propósito do universo. O nosso papel como cristãos é formar o Corpo de Cristo, pelo poder que ele concedeu de nos tornarmos filhos de Deus, construindo aqui na terra o seu Abençoado Reino, agindo como operários de sua messe, mas de acordo com o evangelho do reino, aguardando o dia nos fins dos séculos, quando ele virá para restaurar todas as coisas e assumir o seu Trono de Rei do Universo.

Afinal, como se discriminam os diabos, os demônios e satanás?

Para discernir este assunto à luz dos evangelhos de Jesus, vamos tomar o texto que relata as tentações de Jesus Cristo no deserto, logo após o seu batismo. A narrativa encontra-se em Mateus 4: 1-11; Marcos 1 :12-13; Lucas 4: 1-13. Estou tomando o texto de Mateus:

"Após sair das águas do batismo, foi Jesus levado pelo Espírito Santo ao deserto, para ser tentado pelo diabo.
E, depois de jejuar quarenta dias e quarenta noites, teve fome.
Então, o tentador, aproximando-se, lhe disse: Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães.
Jesus, porém, respondeu: Está escrito:
Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus.
Então, o diabo o levou à Cidade Santa, colocou-o sobre o pináculo do templo e lhe disse:
Se és o Filho de Deus, atira-te abaixo, porque está escrito:
Aos seus Anjos ordenará a teu respeito que te guardem;
e: Eles te susterão nas mãos, para não tropeçares nalguma pedra.
Respondeu-lhe Jesus: Também está escrito:
Não tentarás o Senhor, teu Deus.
Levou-o ainda o diabo a um monte muito alto, mostrou-lhe todos os reinos do mundo e a glória deles e lhe disse:
Todo isto te darei se, prostrado me adorares.
Então, Jesus lhe ordenou: Retira-te, satanás, porque está escrito:
Ao Senhor, teu Deus, adorarás, e só a ele darás culto.
Com isto, o deixou-o o diabo, e eis que vieram anjos e o serviram".

Tentação do diabo

O diabo age geralmente a partir de nossas pulsões do ego, valendo-se dos elementos habituais de contentamento da pessoa, mas que postos em prática contribuem contra os propósitos dos planos de salvação, ou que constitui um empecilho para a realização do self individual idealizado (é a vida segundo o modelo de Cristo).
O diabo poderá ser um ente elemental da natureza, que semeia em nossa consciência e nossos pensamentos, ideias falsas ou ímpetos naturais que contrariam os nossos propósitos de progresso pessoal. O diabo tem muita relação de afinidade com os nossos desejos da carne, com as nossas pulsões do ego, com as nossas tendências pessoais.
No texto exposto acima da narrativa evangélica, vemos que o tentador usou a pulsão da fome de Jesus, na intenção de levá-lo a romper com o seu propósito salvacional; tentou corromper os seus ideais divinos e transformar Jesus em um grande taumaturgo humano (ser humano que produz fatos maravilhosos), usando dos seus poderes de Ungido de Deus de modo errôneo. Se isto acontecesse seria um desvio de rota dos propósitos estabelecidos pelo Pai.
Vemos que nesse episódio, o diabo ousou usar até mesmo os textos das Escrituras Sagradas na tentativa de induzir ao erro o Filho de Deus feito Homem, com certeza sendo manipulado por satanás; entretanto, percebemos que Jesus usou com autoridade a Palavra de Deus para reagir contra as tentações do maligno.

Tentação dos demônios

Embora os diabos possam ser enquadrados no rol das tentações demoníacas, posto que se classificam também como entes espirituais desencarnados, há uma certa propriedade diferenciadora nos demônios, como espíritos humanos desencarnados que que tem certas afinidades com a pessoa:
  • poderá ter afinidades com os seus pensamentos e ideias, se situando no terreno das ideologias cultivadas, atendendo aos desejos do seu ponto de vista pessoal;
  • poderá se manifestar induzindo o ser humano nas suas justificativas pessoais, nos seus mecanismos de defesa, levando quase sempre a justificar os seus pontos de vistas;
  • as pessoas sob influências dos demônios, enquanto espíritos humanos desencarnados, quase sempre afirmam as suas posturas como próprias, tendo dificuldade para perceber que existem outros espíritos se alimentando das emoções que seu estilo pessoal possibilita para ambos.
Há uma necessidade destas pessoas se submeterem às autoridades pastorais e de direção espiritual, quando do tratamento para se libertarem, necessitando de jejuns, orações e reflexões assistidas pastoralmente sobre a palavra de Deus. Jesus Cristo conferiu poder aos seus discípulos contra todas as classes de demônios.

As investidas e o proveito tirado por satanás contra nós

Satanás é o agente do mal por excelência; é a figura mitológica utilizada para incorporar o papel dos anjos decaídos, que foram expulsos do céus da habitação divina e se tornou o inimigo dos propósitos da Santíssima Trindade, de salvar os seres humanos de boa vontade. Geralmente este espírito do mal tira proveito da invigilância do crente e da sua vida fora da santidade, em desacordo com o que Jesus Cristo propôs. Satanás induz toda as classes de demônios que se desalinham do ministério do anjos de Deus, exercendo sobre eles verdadeiro domínio em prejuízo da nossa verdadeira espiritualização em Cristo.
No texto exposto, sobre as tentações de Jesus Cristo, satanás usou de poderes de projeção da consciência extracorpórea, levando Jesus a uma altíssima montanha de onde fosse possível ver todos os reinos do mundo submetidos a satanás; de modo muito descarado, propôs dar tudo a Jesus se ele prostrado por terra o adorasse. Que petulância! Satanás propôs dar-lhe os seus reinos de submissão, logo a Jesus de Nazaré, a encarnação do Cristo Filho de Deus, portanto, o Rei de Todo o Universo. Jesus o derrotou usando a Espada do Espírito, a Palavra de Deus e o exorcizou para o seu próprio lugar.

Proveitos espirituais para nós a partir destas reflexões

O cristão não deve se submeter a nenhuma outra orientação divergente do evangelho. A bitola que orienta a nossa espiritualidade, a nossa própria vida, é aquela que está contida nos evangelhos, pois ela é procedente dos ensinamentos de Jesus de Nazaré, a encarnação do Filho de Deus. Jesus Cristo constitui o Embaixador do Céu, que veio à Terra para cuidar aqui dos interesses do Povo de Deus. João (3: 16), seu discípulo amado, registrou que ele veio para atender o amor do Pai pelo mundo, a fim de que, todo aquele que nele crer, não experimente a morte espiritual, mas possua a vida eterna.
Após este grande movimento da Santíssima Trindade a nosso favor, não temos o direito de negligenciar os ensinamentos de Jesus Cristo, em favor das mensagens truncadas apresentadas por diferentes visões e aparições, ou outras comunicações de espíritos que se dizem bons, santos, ou celestes, quando suas mensagens apresentarem outras ideias e doutrinas diversas do evangelho.
Na sua Primeira Carta, João (4: 1-6) orienta a fazer provas aos espíritos, dizendo que todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus; por outro lado ele afirma que, todo espírito que não confessa Jesus Cristo, não procede de Deus. Paulo também admoesta que, qualquer espírito que apresentar um evangelho diferente do evangelho de Jesus Cristo, deve ser exorcizado, pois neste caso ele não procede da parte de Deus (Gálatas 1:8).
Do ponto de vista individual o cristão deve ser cuidadoso e ter sempre presente que todas as suas pulsões carnais, tendências, desejos, caprichos, muito impositivos e descontrolados, podem estar atendendo a entes diabólicos da própria natureza; da mesma maneira, as ideias arraigadas, as ideologias exclusivistas e sem diálogos, os preconceitos, a intolerância com os diferentes, podem ser fontes de aprisionamento aos demônios com os quais podem ter afinidades diversas. É preciso cuidado, pois todos esses tipos de demônios são alvos fáceis para as manobras de satanás, para afastar o cristão da harmonia e comunhão com os membros da comunidade eclesial.
Cada cristão crente fiel, batizado em Cristo e no Espírito Santo é membro do Corpo de Cristo, constituindo o Povo de Deus na terra e participando da comunhão que há em Cristo e todos os santos, mantida e celebrada nos encontros cultuais de adoração a Deus nos templos. Satanás tem um profundo interesse em quebrar estes elos de verdadeira comunhão entre o Povo de Deus, afastando os membros do amor recíproco e da verdadeira comunhão que há entre Deus e seu povo reunido no amor de Cristo. Ore, jejue, estude a palavra de Deus, peça orientação aos pastores e diretores espirituais. A Segunda Carta de Pedro (5:8) inspira uma advertência aos irmãos, nas Orações das Completas no Diurnal Brasiliense: "irmãos sede sóbrios e vigiai, porque vosso adversário, o demônio, anda ao redor de vós, como um leão que ruge, procurando a quem devorar. Resisti-lhe, firmes na fé, sabendo que os vossos irmãos espalhados pelo mundo, sofrem as mesmas coisas". Mas Jesus Cristo já venceu esta luta por nós. Confiemos e vigiemos.



Referências Bibliográficas

Bíblia Sagrada, Almeida Revista e Atualizada no Brasil, Sociedade Bíblica do Brasil, Barueri, São Paulo, 2009.

Dicionário Grego-Português e Português-Grego, Isidro Pereira, S. J. 5ª edição, Porto, Portugal, 1976.

Diurnal Brasiliense, Oficio de Completas. Manual de Oficio Divino do Catolicismo Salomonita, Caxias, Rio de Janeiro, Versão 2010.

Memorial de Antigas Culturas e Civilizações, Os Costumes dos Povos Antigos, Fontes Diversas em Latim, Grego, Francês e Espanhol. (Registros Pessoais Coletados de 1959 a 1972).






(1) - Professor Mestre Adjunto I da UNIGRANRIO; Doutor em Filosofia da Religião - SETESA/Não Capes; Mestre em Ciências da Motricidade Humana - UCB/Capes; Formação em Psicanálise Clínica - SFPC; Formação em Psicomotricidade Sistêmica - CEC; Formador-Didata em Terapia Psicomotora Analítico Clínica - TEPAC do CEBRASC; Especialista em Docência Superior - IBMR; Bacharel em Fisioterapia - IBMR; Bacharel em Filosofia - SETESA; Bacharel em Teologia - SETESA; Bispo Primaz do Catolicismo Evangélico Salomonita - ICAI-TS.

sábado, 4 de janeiro de 2014

Meditação e Saúde

Prof. Dr. Felismar Manoel (1)



Introdução


Infelizmente, no Brasil urbano mais que no Brasil rural, a meditação é vista sob um olhar preconceituoso, ou como coisa de pessoas extravagantes, párias, "matusquelas", tipos "estranhos no ninho"; e isto é uma pena, pois a meditação exerce ação fisiológica altamente significativa à saúde das pessoas.

Tenho convivência com a meditação indígena desde minha infância, junto aos nativos puris de terceira e quarta geração, já acostumados com a cultura dos colonizadores, mas que tiveram o cuidado de não abandonarem aquilo que lhes constituía um patrimônio próprio, nas regiões da zona da mata mineira, mais precisamente nas cercanias de Cruzeiro, no Município de Guiricema.

No ambiente do Catolicismo de Roma aprendi a meditação em temas religiosos e percebi que também esta modalidade produz os mesmos efeitos fisiológicos; quando me transferí para o Catolicismo Salomonita aprendi a meditação como método de obtenção da sinesis, para aprofundamento em questões de espiritualidade, tanto a nível individual, quanto grupal.

Foi nas comunidades esotéricas, tanto ocidentais quanto orientais, que aprendi de modo mais estruturado a meditação, e nestes ambientes, como forma de promoção e tratamento da saúde, visando a vida em plenitude; não a plenitude da eubiótica (dinâmica da vida perfeita idealizada), mas a plenitude da calibiótica (dinâmica da vida de boa qualidade que está ao nosso alcance). O treinamento do Qi Gong Taoista, na esfera da medicina chinesa, trouxe muito enriquecimento na minha prática da meditação.

Neste ensaio, não pretendo um recorte acadêmico rigoroso, que agrade aos paladinos do cartesianismo, pretendo apenas expor, para os leitores de boa vontade a simplicidade da prática da meditação diária, mostrando em linguagem simples os benefícios que ela nos traz.

A Meditação na Cultura Indígena


Sou herdeiro da cultura indígena puri de terceira geração, que convivia, compartilhava e servia aos fazendeiros italianos, e portanto, mesclada de valores dos colonizadores e circunstâncias do meio ambiente. Meus bisavós eram, Indira Puri, das margens do rio pombo, casada com Tongo Mina, africano que vivia naquela região mineira; deles surgiu em primeira geração a minha avó Maria Graciana, que casou com Juaquim Soares de Souza Lima, um português de Coimbra; desse casamento surgiu, na segunda geração, a minha mãe Maria Soares que casou com Felício Manoel Julinho, descendente de família italiana; dessa união matrimonial surgiu a terceira geração, na qual eu me incluo entre mais quatorze irmãos.

Nasci e cresci no meio rural em contato com os povos nativos da região, sendo todos vulgarmente chamados de puri, em consequência de ser a região de ocupação dos índios com esse nome. Desde criança, ao contrario de meus irmãos, tive interesse pela tradição cultural dos povos, o que me fez aproximar da vida clerical com a Igreja de Roma, único meio de expressão cultural formativo na região. Infelizmente discordei das orientações de Roma e me transferi para o Catolicismo Salomonita, onde consolidei minha formação, mais compatível com os ensinamentos dos evangelhos de Jesus de Nazaré, para mim a bússola segura para um mundo melhor e uma espiritualidade perfeita.

Foi no ambiente da cultura puri que aprendi a meditar desde criança. A meditação indígena utiliza-se como primeiro método para a meditação, o emprego dos sons de tambores e de flautas de taquaras, acompanhados da emissão de palavras sagradas; o seu objetivo é a expansão da consciência para a percepção de circunstâncias especiais que necessitam de orientações também especiais. Este estado de consciência expandida permite uma expressiva sensação de paz, de alargamento da compreensão e de bem estar geral.

Os povos puris utilizam também de outras técnicas para a prática da meditação, como a do fogo sagrado, as das fontes das águas, do inebriar dos vegetais e da própria revolução do tempo nas tempestades; entretanto, estes são detalhes que não nos interessa expor aqui.

Diferentes universidades e grupos culturais se voltam para o estudo e a prática desta herança indígena da meditação. Na USP existe um movimento na Escola de Saúde Pública, através de um antropólogo psicanalista, que está associando a prática da meditação com a promoção da saúde e a prevenção de enfermidades; existe também em São Paulo o Grupo da Plena Atenção usando as técnicas de meditação inspirada na cultura indígena; também em Amazonas movimento semelhante tem acontecido; na Austrália, uma faculdade criou o Centro Cultural Indígena e de Meditação, no qual está aliando a meditação a uma formação de cultura ecológica.

A meditação usada na cultura indígena é parte de seu patrimônio de recursos técnicos culturais para resolver problemas de ordem prática na comunidade, tratamento de desequilíbrios e promoção do bem estar da população.


A Meditação nos Ambientes Esotéricos


Existe algum preconceito social e religioso por parte das massas urbanas, com relação ao conceito de esotérico; e é uma pena, pois se trata de um afastamento por questões de ignorância do que seja o esoterismo.

Quando se fala em esoterismo, está se referindo a um sistema de semiótica na área da comunicação. Um bom exemplo desse sistema, é o conjunto de sinais que se usa no trânsito para orientar os condutores de veículos; estes devem saber que atitude tomar naqueles espaços onde está o indicativo do sinal de trânsito. Trata-se de um sistema esotérico, pois só os que conhecem aquela mensagem da placa de trânsito, sabem interpretar qual a conduta que se cobra do condutor de veículos para aquela área demarcada. No sistema esotérico utiliza-se também o exotérico, entendendo-se com esta palavra, tudo aquilo que é dito e que está no nível de compreensão de todos presentes, a nível de massa cultural.

Os mosteiros, escolas, centros e também os templos esotéricos, utilizam um processo semelhante ao dos condutores de veículos automotores, para transmitir os ensinamentos esotéricos, aqueles conteúdos que exigem um nível de cognição mais abstrata e simbólica.

Estes espaços se dedicam a preparar pessoas de boa vontade, que querem se dedicar a construir um mundo mais compreensivo e capaz de ajudar a manifestação e fluxo da vida, em paz, em fraternidade, em cidadania, em solidariedade. Estes espaços são formados cultural e tecnicamente, nas áreas da saúde, da educação, da espiritualidade, da convivência, da filosofia, da religião, e é um sistema que está aberto a qualquer grupo humano. Trata-se de um sistema que vai treinar pessoas e capacitá-las para levar os seus préstimos e ação colaborativa sempre que elas se fizerem necessários, sem se importar se o ser assistido compreende intrinsecamente o que ele está fazendo. Por isso vale-se de sinais, figuras, símbolos, monumentos, anagramas, ou quaisquer outros recursos de semiótica, que ao ser visto por quem foi treinado, vai saber como se comportar, ou o que fazer naquelas circunstâncias surgidas, para gerar um bem geral, ou maior.

Na grande maioria das vezes, o treinamento para se obter uma atitude de paz, de tranquilidade, de vida plena, começa com o ato da imaginação, fortalecido pela reta intenção e desejo de fazer o bem, que irá gerar o estado de bem que se procura. O sistema esotérico é interessante, porque cada pessoa que o aprende e apreende, vai usá-lo de acordo com o seu arsenal potencial, podendo, portanto se adequar a qualquer pessoa capacitada, bastando inicialmente ter boa vontade e uma vida virtuosa, podendo ser aplicado em qualquer circunstância.

Infelizmente, nos dias de hoje, a meditação está virando mais uma mercadoria em nossa sociedade neoliberal consumista. Existem pessoas que transformam as instruções em "pacotes de informações" para venda, sem se importar com o acompanhamento e assistência, para que o seu exercício seja ético, dirigido por um aceitável padrão de vida comportamental, cidadania e moralidade. A comercialização faz correr o risco da perda de garantia destas qualidades. Fiquem vigilantes.


Fundamentos Científicos da Meditação


Os avanços das neurociências na época atual, tem permitido alargar o nosso conhecimento sobre o cérebro e as atividades cerebrais. Sabemos que as atividades do cérebro emitem ondas que podem ser medidas, e geralmente essas medições orientam intervenções profissionais, tanto na saúde quanto na educação.

Normalmente se considera quatro tipos de ondas, pela ordem das atividades, se classificando como segue:

* A onda beta: com frequência de 14 a 30 ciclos por segundo, é aquela das nossas atividades de pensamento conceitual, do nosso dia a dia;

* A onda alfa : com frequência de 08 a 13 ciclos por segundo, é aquela do relaxamento profundo, em alerta, com mente e pensamento esvaziado ao máximo possível;

* A onda theta : com frequência de 04 a 07 ciclos por segundo, é aquela do sono com sonhos (com movimento dos olhos);

* A onda delta : com frequência de 0,5 a 03 ciclos por segundo, é aquela do sono profundo sem sonhos (sem movimento dos olhos).

A prática da meditação no interesse da saúde , bem estar e qualidade de vida, se situa no nível da onda alfa, sendo em torno dela que vou fazer algumas reflexões.

Hemisférios Cerebrais Especializados

Inicialmente vamos desfazer uma confusão frequente nos ambientes de saúde e educação, no que consiste às ideias de "dominância hemisférica" e "lateralidade funcional corporal".

O neocórtex, quer dizer o cérebro dos primatas humanos é dividido em duas metades bastante parecidas denominadas de "hemisférios", e de um modo bem generalizado, se considera que o hemisfério dominante é aquele que controla a linguagem humana. Sabe-se que a maioria das pessoas tem o controle da linguagem fonética no hemisfério esquerdo.

A situação não é tão simples, pois sabe-se que a fala humana é acompanhada das inflexões, que comportam aspectos emocionais, afetivos, racionais, entre outros. Na prática, observa-se pessoas com certas características comportamentais que as distinguem de outras, como tendência para as ciências logico-matemáticas, enquanto outras se distinguem por uma tendência mais aberta às coisas do universo como um todo, por uma característica mais panorâmica da vida. Quando se observa estas distinções, está se cogitando de hemisfério dominante; aqui neste ensaio não interessa ter domínio desse assunto, precisa-se saber apenas que qualquer um de nós tem um hemisfério cerebral dominante.

Com relação a lateralidade funcional corporal, que muito se confunde com hemisfericidade dominante, refere-se ao predomínio de iniciativas e controle de execução de atividades corporais, que se iniciam pelo lado direito, ou pelo lado esquerdo, em qualquer um de nós. Estes estudos são aprofundados em psiconeuromiocinética, ou psicomotricidade.

Para nosso raciocínio sobre a meditação, precisamos saber que, qualquer um de nós sempre teremos nossas ações iniciadas predominantemente sob o comando de um hemisfério cerebral, mas que sempre funcionará envolvendo todos as áreas cerebrais, e portanto, também o outro hemisfério contra lateral estará em atividade.

A Sincronização da Frequência Alfa (a)

Quando uma pessoa começa o exercício da meditação, ela estará começando sua atividade cerebral a partir do seu hemisfério dominante; ela estará em uma disciplina de controle respiratório, postura, atenção, intenção, imaginação e tudo isto aliado a consciência corporal e do ser. A busca pacífica desse estado, leva o seu hemisfério dominante a entrar na frequência alfa; ao insistir na continuidade do treinamento, o outro hemisfério cerebral também passa para a frequência alfa de modo sincronizado.

Efeitos Fisiológicos Observados

Quando se consegue a sincronização alfa observa-se o relaxamento corporal profundo, em consequência das mudanças bioquímicas produzidas corporalmente na pessoa:

Diminuição da adrenalina circulante; diminuição do cortisol; redução da ansiedade e do estresse; sensação de bem estar e paz; melhora da cognição; entre outros.

Quando a meditação torna-se uma disciplina diária, em ambiente adequado, tempo adequado, controle adequado, poderá baixar os níveis de frequências em direção a delta (d), favorecendo o desenvolvimento da criatividade.

As meditações temáticas, objetivando a obtenção da sínesis (sintonia com conhecimentos), requer direcionamento e assistência de alguém treinado e responsável. Elas são praticadas nos mosteiros e centros de pesquisas em saúde e educação em várias partes do mundo.

A Meditação na Saúde e Educação

A meditação poderá ser praticada em busca do equilíbrio da atenção, da cognição, da conação (esforço consciente, formação da vontade e da atenção) e da afetividade.

Com sua prática geralmente se obtém melhoras na concentração e no relaxamento, no controle dos sentimentos, na quietude mental, na criatividade, na paciência e no equilíbrio pessoal.
Na saúde a meditação produz sensação de bem estar, regulação do sistema imunológico, regulação hormonal para o controle do estado de alerta, do estresse e da ansiedade.

A meditação tem sido indicada para o controle da depressão, da hipertensão arterial, da hiperatividade, dos transtornos alimentares, dos transtornos do sono e da bipolaridade.

Referências Bibliográficas


Manoel, Felismar. Apostilas de Meditação Vitalizante. Rio de Janeiro: Centro Brasileiro de Calibiótica, 2011

Manoel Felismar. Treinamento da Energia Vital. Rio de Janeiro: Centro Brasileiro de Calibiótica, 2008

Manoel, Felismar. Apontamentos de Psiconeuroimunologia para Sala de Aula. Rio de Janeiro: Centro Brasileiro de Calibiótica, 2006

Yu, Lu K'uan (Luk, Charles). Yoga Taoista - Alquimia e Inmortalidad. Madrid: Altalena, 1982

Zohar, Danah. O Ser Quântico. Rio de Janeiro: Best Seller, 2012

----------------------------------------------------------------------------------------(1) - Professor Mestre Adjunto I da UNIGRANRIO; Doutor em Filosofia da Religião - SETESA/Não Capes; Mestre em Ciências da Motricidade Humana - UCB/Capes; Formação em Psicanálise Clínica - SFPC; Formação em Psicomotricidade Sistêmica - CEC; Formador-Didata em Terapia Psicomotora Analítico Clínica - TEPAC do CEBRASC; Especialista em Docência Superior - IBMR; Bacharel em Fisioterapia - IBMR; Bacharel em Filosofia - SETESA; Bacharel em Teologia - SETESA; Bispo Primaz do Catolicismo Evangélico Salomonita - ICAI-TS.

sábado, 19 de outubro de 2013

Memorial do Bispo Felismar Manoel


1 Dados Pessoais

Nome: Felismar Manoel, sexo masculino, estado civil solteiro.
Endereço: Estrada das Amendoeiras, 248 (Capivari) Chácaras
Rio Petrópolis, Duque de Caxias, RJ
CEP 25.243-420
felismarmanoel@gmail.com
Caixa Postal, 76080 Duque de Caxias
CEP 25.070-971

2 Titulação Acadêmica

Doutorado: Ciências da Religião, Área de Concentração: Filosofia da
Religião, Tese: A Sedução e a Razão como Subsídios para a
Fé de Abraão Prof. Orientador: Pe. Dr. Francisco Alves
Correia, Seminário Teológico Santo André- SETESA RJ
Mestrado: Ciência da Motricidade Humana, Dissertação: A Questão
Relacional em Terapia Física sob o Enfoque da Ecologia
do Desenvolvimento Humano Prof. Orientador: Prof.
Dr. Marco Antonio Guimarães da Silva, Universidade
Castelo Branco - UCB RJ
Lato Sensu: Especialização em Docência Superior, Instituto Brasileiro
de Medicina de Reabilitação - IBMR RJ
Especialização: Formação em Psicanálise Clínica com Supervisão
Didática, Sociedade Fluminense de Psicanálise Clínica, RJ
Especialização: Formação em Psicomotricidade Sistêmica com
Supervisão Didática, Centro de Estudos da Criança -
CEC RJ
Bacharelado em Fisioterapia: Instituto Brasileiro de Medicina de
Reabilitação - IBMR, RJ
Bacharelado em Filosofia: Seminário Teológico Santo André -
SETESA RJ
Bacharelado em Teologia: Seminário Teológico Santo André
SETESA, RJ
Ordens Sacras: Episcopado em 30/11/1975 das mãos de Dom Manoel
Ceia Laranjeira;
Presbiterado em 28/10/1965 das mãos de Dom Benedito
Pereira Lima;
Diaconado em 24/08/1965 das mãos de Dom Manoel Ceia
Laranjeira.
Sociedades e Associações: Membro das: Sociedade Brasileira de
Bioética; Associação Brasileira de Ensino em Fisioterapia;
Sociedade Brasileira de Psicomotricidade; Sociedade
Brasileira de Neurociências e Cognição; Sociedade
Fluminense de Psicanálise Clínica.

3 Minhas Origens Étnicas

Sou Felismar Manoel, nascido em 18 de abril de 1939, em uma fazenda (Fazenda dos Gregórios) na localidade de Cruzeiro, no Município de Guiricema, (Zona da Mata) no Estado de Minas gerais.

Trata-se de uma região povoada predominantemente pelo povo puri, já na terceira geração de nativos em contato com os colonizadores e bastante miscigenados. Do lado materno tenho um bisavô africano conhecido como "Tongo Mina", casado como minha bisavó índia, conhecida como "Indira Puri"; tenho portanto uma avó "cafuza", de nome Maria Graciana, que casou com meu avô, um português chamado Joaquim Soares de Souza Lima, de Coimbra.

Desse casamento nasceu minha mãe Maria Soares (e mais três irmãs e um irmão), que viúva com quatro filhos do primeiro casamento (Onesta, Omiro, Nair e Carlita), casou com Felício Manoel Julinho, também viúvo, com cinco filhos do primeiro casamento (Maria, Luzia, José, Alverina e Alcenira). Felício Manoel Julinho é um nome abrasileirado nos cartórios do Brasil, filho de uma família italiana, sendo seu pai Giovani Emanuel Giulini, nome abrasileirado como João Manoel Julinho nos cartórios do Brasil, de Calábria, e mãe Maria Barbieri, de Gênova.

A nova família resultante do casamento dos dois viúvos, resultou em uma nova família com mais seis filhos, pela ordem: Messias, Joaquim, João, Edes, Felismar e Sudário, sendo agregados mais quatro irmãos por razões de solidariedade social (não me lembro dos seus nomes em razão de ser eu muito criança quando convivi com eles). Assim, esta família agora enriquecida com os filhos dos casamentos anteriores, o casamento dos dois viúvos, mais os agregados, formava uma comunidade de dezenove irmãos, morando na mesma fazenda durante um certo tempo.

4 Experiências da Infância

Minha infância foi muito bem vivida para os padrões cognitivos da vida rural, embora eu tenha vivenciado alguns problemas, que de certa maneira interferiram em meu desenvolvimento e aprendizados:
* Na fase do engatinhamento pelos amplos cômodos da fazenda, descuidaram de mim e eu me dirigi para a escadaria de acesso a sala de visitas da fazenda, rolando escada abaixo até o jardim de entrada, em uma altura de cerca de dez metros, com perda de sentido por algumas horas e vômitos de sangue, causando muita preocupação, sensação de culpa pela mãe, sendo tratado pela medicina homeopática dos "tratadores puri" e feito promessa para "Nossa Senhora", um costume popular local;
* Na infância e até os doze anos, fui portador de um acentuado estrabismo divergente do olho esquerdo, sem nenhum treinamento ou tratamento até os 12 anos, razão que me levou a não ter visão útil nesse olho, ficando portanto com visão monocular e em consequência, percepção do mundo de modo plano, como em desenho, sem visão estereoscópica, sem formar a consciência da tridimensionalidade do mundo material concreto;
* Esse fato acima me levou a ter dificuldade de aprendizagem nas classes iniciais, sendo detectado pela professora nas aulas de desenho, levando-a a me proporcionar o aprendizado e internalização dos conceitos das formas e detalhes através do tato manual. Esta atividade psicomotora possibilitou-me um salto no meu desenvolvimento intelectual, o que me levou a ser aluno com excelentes resultados no aprendizado a partir daí, apesar da deficiência visual;
* Tive uma infância rica de estímulos, experiências e brincadeiras, principalmente junto à natureza: andar, correr, subir em árvores, escalar ribanceiras, pular de ribanceiras com guarda-chuva aberto, dar saltos com apoio e projeção em bambu, nadar, tomar banhos nos rios e nas cachoeiras, visitar as minas (olhos d'água, córregos, lagoas, pedreiras, cavernas, etc), os penhascos, as montanhas, as florestas, conhecer os pássaros e bichos. Tudo isso me oportunizou uma estreita convivência com os nativos e aprender o modo puri de explicar a vida, sendo que essa cultura puri influenciou na formação do meu caráter e principalmente a minha identificação com os valores do povo nativo. Foi assim, que na minha adolescência construí a minha identidade cultural, adotando também o apelido indígena "Nhãmanrúri Schuteh" (Córrego tranquilo, córrego bonito). Fui treinado na cultura indígena, em técnicas de expansão da consciência e desdobramento mental psico-anímico, participando de muitas experiências junto à natureza.


5 Estudos Fundamentais

Estudei o curso fundamental comum (1º, 2º e 3º ano ) na escola primária da região rural, sendo que um certo tempo as aulas aconteceram na própria fazenda (a professora, Maria da Glória Lessa, por questões políticas, perdeu o prédio onde morava e dava aulas, tendo que ancorar-se na fazenda de meu pai).

Quando terminei o 3º ano primário, o meu pai teve que abandonar o prédio da fazenda, pois seus genros herdeiros exigiram que ele a abandonasse para o prédio ser demolido e vendido o seu madeiramento; sendo assim, fomos morar em uma casa velha no terreno de um dos seus genros herdeiros, em troca de um antigo relógio de parede e de uma máquina (singer) de costura, de pedal, (quando meu pai enviuvou, ele fez o testamento e partilha dos seus bens e propriedades e não o modificou após o novo casamento, assim, os filhos do segundo casamento não partilharam da herança).

Por essa ocasião, de extrema pobreza, fui estudar o 4º ano primário no Grupo Escolar Coronel Luiz Coutinho, da Cidade de Guiricema, tendo que caminhar à pé, sete quilômetros de ida e volta todos os dias de aulas. Me formei nessa modalidade em 1953 e comecei a estudar latim, grego e artigos de religião com os padres franciscanos, na Comunidade Franciscana da Matriz da cidade de Guiricema e na Capela do Cruzeiro, região onde morava. Tornei-me muito devotado e zeloso com as práticas das virtudes cristãs, inclusive tornando-me líder na comunidade católica da localidade.

Nessa época comecei a me dar conta das desigualdades sociais e econômicas, inclusive as diferenças de oportunidades para as pessoas, desenvolvendo em mim um desejo de encontrar meios de resolver esse problema, formando uma convivência mais igualitária e fraterna.

6 Atividades Pastorais

Um episódio importante aconteceu na minha vida devocional nessa época: Fazia um trabalho de visitas as casas das famílias nos meses de maio, com a imagem da Virgem Maria e em dezembro e janeiro, com a imagem do Menino Jesus. Arrumávamos presépios nas residências e nas capelas, assim, consegui comprar uma imagem do Menino Jesus para colocar no meu presépio e levei-a para o Frei Cornélio benzê-la; quando ele a devolveu-me após a sua benção, ela caiu no chão e virou vários pedacinhos; ele ficou muito triste com o ocorrido e para compensar-me, deu-me uma Bíblia de presente, já que não tinha outra imagem do Menino Jesus.

Ao ganhar a Bíblia a minha primeira curiosidade foi encontrar os livros que continham os ensinamentos de Jesus, e assim, comecei a estudar os quatro evangelhos e fui buscar também onde se encontrava os Dez Mandamentos da Lei de Deus; tive uma reação preocupante, inquietante, questionadora: porque a igreja católica romana ensinava cultuar as imagens, se o segundo mandamento claramente proíbe esse culto? Fui falar com o Frei Cornélio, falei também com o Frei Lino e com o Frei Metódio de Haas; esse último me demonstrou sinceridade nas argumentações e preocupação pastoral com meu estado de inquietude e começou a dialogar comigo, apresentando-me a história de São Francisco, seu esforço de reformar a igreja dos desvios que às vezes ocorrem, mas do ideal de reformar a partir de dentro; convenci-me que queria ser franciscano e como já era adulto, pensou-se no "Seminário para as Vocações Tardias". Afoitamente, renunciei aos bens familiares e me decidir seguir o ideal franciscano, tal como Francisco de Assis o fizera (não tinha ainda consciência que não era herdeiro de nada).

7 Experiência Franciscana

Ao ser eu avaliado para o seminário, constatou em mim uma dificuldade; pois eu não tinha a visão do olho esquerdo, que na época era considerada a "visão canônica"; assim, eu só poderia ser um Frade Leigo, como o fora Francisco. Continuei me preparando com os frades nas comunidades, passando por Visconde do Rio Branco, Santos Dumont e Belo Horizonte, até quando consegui ser aceito no Convento Santo Antônio, em Divinópolis, MG. Infelizmente ao lá chegar e ter um pouco de vida conventual, perceberam que eu tinha queixas de saúde (verminose", resultante das condições ambientais da vida rural, que foi confundido com doença de fígado), sendo eu descartado, tendo que voltar para casa.

8 Professor de Escola Primária

Não desisti de ser um religioso, apesar de ter sido descartado pelas questões de saúde; continuei me preparando com os padres e em todas as oportunidades que apareciam. Fui dar aulas, montando a Escola Nossa Senhora de Lourdes, uma escola missionária, na comunidade da região, que funcionou com excelentes resultados por algum tempo, sendo eu então nomeado pela Prefeitura de Guiricema para ser professor da Escola Felício da Silva, em uma fazenda, ao pé da Serra de Tuiuitinga (uma região com forte domínio da cultura indígena puri), onde lecionei por algum tempo, o curso fundamental comum. Infelizmente as dificuldades econômicas, a falta de meios de subsistência de toda a família, fez com que tivéssemos que nos deslocar para o Rio de Janeiro, para a casa de parentes, a fim de buscar novas alternativas de sobrevivência.

9 Experiência no Operariado

No Estado do Rio de Janeiro, ficamos um pouco em Heliópolis (Xavante), em Belford Roxo, Município de Nova Iguaçu, RJ (na época), onde pude treinar datilografia, para facilitar no emprego, conseguindo me registrar como Professor de Datilografia, mas sem sucesso estável para apoiar a família do ponto de vista econômico. Fomos então para o Km 42 da Estrada Rio São Paulo (antiga), em Seropédica, estreitando laços com a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, principalmente com a "Fazenda Patioba", onde havia um internato feminino de Formação Pedagógica, na qual fui ajudar o Padre Capelão.

Por essa época, tive a oportunidade de viajar nos trens elétricos da Central do Brasil, tanto nos ramais de Campo Grande, como no de Nova Iguaçu, isto no horário de grande fluxo de passageiros, transportando o operariado carioca; perceber como vive um operário assalariado, suas dificuldades, suas lutas, e principalmente sem perder o humor e a alegria, mudou a minha perspectiva de vida, fazendo eu desistir da formação pedagógica e ir "buscar a experiência de ser um operário", o que consegui com a ajuda de uma religiosa vicentina, a Irmã Maria Luiza, indo trabalhar no Hospital Nossa Senhora da Saúde (Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro), na Gambôa, Rio de Janeiro, a partir de julho de 1960.

Minha estada como servidor no Hospital da Gambôa, como era chamado popularmente, foi muito enriquecedora: as equipes de servidores, junto ao corpo clínico e as irmãs, vivíamos como se fôssemos uma família; comecei como servente, desenvolvendo interesse e dedicação tornei-me atendente dos ambulatórios por um certo tempo, passando a técnico (prático) de exames de metabolismo basal, eletrocardiograma e em arquivos e estatísticas nosológicas.
Por questões de desentendimento com a irmã superiora do hospital, após sete anos de serviço no local, fui transferido para a Sede da Santa Casa, indo trabalhar no Departamento de Engenharia, na Secretaria Geral da Santa Casa de Misericórdia, no Centro do Rio de Janeiro. Foi muito rica a minha estadia na Secretaria Geral, pois tive oportunidade de ser treinado em diversas modalidades de serviços: além de servir no setor de engenharia, servi também no Departamento do Contencioso, no Departamento de Pessoal, na Administração do Cemitério São João Batista, em média por três anos, mais ou menos em cada setor, indo depois servir no Laboratório Industrial Farmacêutico, setor onde permaneci por mais de quinze anos, pois oportunizou-me desenvolver várias atividades, indo da administração, cálculos de custos, controle de qualidade (controles de esterilidade e pirogênio de produtos injetáveis), controle mercadológico e análise econômica. Neste setor pude aplicar meus conhecimentos de biotecnologia adquiridos em vários cursos avulsos que fazia. Fui Assistente Administrativo da Chefia Técnica até minha aposentadoria, creio em 1991.

10 Nova Visão do Cristianismo

Vinha procurando uma Igreja Cristã, que por fidelidade ao ensinamento de Cristo, desenvolvesse uma pastoral solidária a essa gente desde 1959, logo após a minha chegada ao Rio de Janeiro; convenci-me que não devia ser missionário lá na Africa, ou na Amazônia, como foram meus sonhos iniciais, mas que era necessário eu revisar minha formação teológico-pastoral, para tornar-me um missionário para as realidades urbanas; confesso que inicialmente, foi muito difícil para mim, pois não consegui sufocar "o índio" que continuo sendo, pelo modo de inserção no mundo de Deus, do qual me considero parte, em igualdade de condições com as outras criaturas de Deus, fazendo parte da natureza todos nós.

Visitei várias Igrejas Protestantes, Evangélicas, Ordens Místicas, Terreiros, Centros Espíritas, todos os gêneros de religiões que eu encontrava no Rio de Janeiro; em 1957 eu tivera contato, através da Província Franciscana Santa Cruz, da Holanda, com expressiva documentação da Igreja Católica Livre no Brasil, principalmente os escritos de Dom Salomão Ferraz e de Dom Manoel Ceia Laranjeira, e agora estando no Rio de Janeiro, me dispus a procurá-los, o que consegui, através do Escritório Pastoral de Dom Manoel, instalado na Avenida Rio Branco, no centro do Rio de Janeiro.

Em 1959/1960, tive o privilégio de participar dos trabalhos das comunidades do Rio de Janeiro, na Diocese São José. Dom Manoel desenvolvia trabalhos com Escritório Episcopal, no Centro do Rio de Janeiro; residência no Bairro de Fátima, com encontros e palestras; e com residência, capela episcopal e o Seminário Teológico Santo André - SETESA, em Bangu. Tive a oportunidade de receber respostas às minhas inquietudes lá do passado, de quando tive contato com a Bíblia pelas primeiras vezes; Dom Salomão Ferraz era um expositor caridoso, um pastor solene, enquanto Dom Manoel era um pai, cuidadoso com os filhos, repetidor da mesma lição quantas vezes fosse necessário; com esses dois eu consolidei a minha conversão verdadeira ao Cristo de Deus, foi através deles que eu pude vivenciar a experiência pessoal com Deus e os irmãos, no amor de Cristo, de modo consciente e pleno.

11 Reformulação Filosófico-Teológica

Refiz a minha formação filosófico-teológica, fazendo os bacharelados de filosofia e de teologia no SETESA, onde tive uma outra forma de estudar, muito mais ativa, participativa, vivenciada; não havia o "culto da cátedra", o que havia era o caminho da procura de soluções e a celebração quando se encontrava as respostas; não havia a aula magistral, mas o grupo de procura de respostas para os questionamentos, os professores tutores que auxiliavam apontando fontes, ajudando nos termos e temas difíceis e os preceptores nas comunidades, nos auxiliando na prática do que foi aprendido. No curso de filosofia a maior área de concentração foi em comportamento humano, notadamente em psicologia e antropologia, pois era a área de meu maior interesse.

Durante o curso de filosofia me dei conta que eu devia definir meus estado de vida, se celibatário, ou casado, já que o catolicismo salomonita permite as duas opções e eu não tivera experiências sexuais anteriores.
Comecei a namorar, conhecer as mulheres, frequentar lugares que facilitavam os encontros românticos. De comum acordo com as parceiras, por três vezes, tentamos experiências de vida íntima para ver se dava certo, para testar a minha adequação à formação de um lar: fui muito bem nos aspectos sexuais da relação, mas um desastre na quesito de sustentação afetiva de uma família, pois eu só lembrava que tinha uma responsabilidade a cumprir no lar, quando terminava de resolver os problemas de ajuda e solidariedade sociais que eu encontrava na rua e nas comunidades. Decidi que eu não era educado adequadamente para o lar, não estando disposto a mudar de comportamento e resolvi assumir a vida de solteiro dedicada ao bem comum, já que não tinha nenhuma inquietação de ordem sexual ou afetiva, podendo levar uma vida cristã virtuosa sem ser puritano, nem promíscuo.

12 Pesquisas Antropológicas

Eu fui um aluno empolgado, e aproveitando meu treinamento antropológico, durante o período que fazia a formação e ao mesmo tempo trabalhava na Santa Casa de Misericórdia para ganhar o meu sustento, como um operário comum, eu desenvolvi várias pesquisas de campo, com o apoio de meu bispo Dom Manoel, para dar subsídios às implantações de trabalhos da pastoral urbana, geralmente nas questões das minorias, excluídos e discriminados:

a) Desenvolvi pesquisas com os moradores de ruas do centro do Rio de Janeiro;
b) Pesquisas com prostitutas, homossexuais menores e michês nas áreas da Central do Brasil e nos seus ramais de Campo Grande e Nova Iguaçu, na Praça Tiradentes e Cinelândia no Rio de Janeiro;
c) Pesquisas com as religiões de bases populares, como umbanda, candomblé, espiritismo, esoterismo, neo-pentecostalismo e outros, buscando conhecer principalmente o senso de apoio comunitário entre eles, bem como analisar os fenômenos psico-anímicos existentes nessas comunidades e sua utilidade prática para os grupos religiosos.

Todas essas pesquisas foram bastante difíceis, pois todas foram pesquisas de modo participante, convivendo com a realidade pesquisada; talvez o mais difícil tenha sido a experiência de ser "morador de rua", cujo planejamento era vivenciar por quinze dias, mas que tive que reduzir apenas para uma semana. Estas pesquisas sempre antecediam as criações de Ações Pastorais por parte do Catolicismo Salomonita sob o pastorado de Dom Manoel Ceia Laranjeira.

13 Cursos Parciais Avulsos

Sempre que surgia oportunidades nessa época, eu fazia pequenos cursos, buscando me instrumentalizar mais, seja em línguas, como esperanto, espanhol, italiano e em técnicas na área da saúde, como técnico de laboratório, oficial de farmácia, biotecnologia, ou coisas parecidas.

14 Frustação com o Ecumenismo de Roma

Durante a minha formação no Bacharelado de Filosofia, Dom Salomão Ferraz estreitou laços com a Igreja de Roma, acreditando no discurso ecumênico do Papa João XXIII, sendo recebido na Igreja de Roma e reconhecidas suas Ordens de diácono, presbítero e bispo; muitos do clero tinham medo dessa aproximação com Roma e alguns, como eu, não aderimos a tal união e continuamos juntos com Dom Manoel Ceia Laranjeira, no puro ideário da Igreja Católica Livre, tal como foi concebida no Concílio de 1936 em São Paulo.

15 Recepção das Sagradas Ordens

Em 1965 fui encaminhado à Congregação dos Missionários de Cristo Sacerdote Eterno, para preceptoria e para receber as Ordens Sacras do Diaconado (Dom Manoel Ceia Laranjeira foi o Bispo ordenante em 24/08/1965 na comemoração de São Bartolomeu apóstolo) e do Presbiterado (Dom Benedito Pereira Lima foi o Bispo ordenante em 28/10/1965, na comemoração dos Santos Simeão e Judas Tadeu apóstolos) . Também nessa congregação bateu a "febre" da união com a Igreja de Roma; colocaram o meu "dossiê" no pacote pró-Roma, sem meu consentimento (isto motivou um grande descontentamento).

16 Restauração do Catolicismo Evangélico Salomonita

Em 1965 Dom Salomão Ferraz percebeu o equívoco que foi a sua adesão à Igreja de Roma e nos orientou na reorganização plena do trabalho nos moldes da inicial Igreja Livre. Reunimos em Concílio em 1965/1966, sob o Báculo de Dom Manoel Ceia Laranjeira, e foi restaurado o trabalho anterior, mudando o nome para Igreja Católica Apostólica Independente no Brasil - ICAIB, retomando o nosso trabalho, como na fase pré-romana. Dom Salomão Ferraz continuou dentro da Jurisdição Episcopal da Igreja Papal, como Superior da Ordem de Santo André e nos dando orientação enquanto viveu.

17 Missões Itinerantes no Grande Rio

Nas Missões itinerantes tive a oportunidade de estreitar relações com várias Igrejas Evangélicas, sendo de notável experiência o compartilhamento de ações pastorais com o Reverendo Pastor José de Souza Herdi e sua esposa (Igreja Batista), casal que muito me influenciou na busca do doutorado em teologia.
Participei de várias missões itinerantes nas áreas de pobreza dentro da Região do Grande Rio, plantando igrejas e experiências comunitárias, com excelente êxito (no bairro Juscelino, no Jardim das Palmeiras, em Moquetá, em Engenheiro Pedreira (Município de Nova Iguaçu) e em Vila Rosali e São Mateus (Município de São João de Meriti). Infelizmente a falta de formação teológica e pastoral dos clérigos que assumiram para continuar com esses trabalhos, faziam com que as comunidades não se consolidassem. (A dinâmica da Igreja Católica Brasileira ordenando muitos padres sem formação especial criava problemas para nossa Igreja, pois eles desistiam da Igreja Brasileira e nos procurava, sendo admitidos por Dom Manoel por questões de piedade e acolhimento pastoral; mas esses clérigos eram resistentes a fazerem a formação pastoral complementar).

18 Doutoramento em Ciência da Religião

Em 1968 retomei os estudos no SETESA em busca do Doutorado em Ciências da Religião, para fazer face aos ataques da Igreja de Roma contra nós, com toda a sorte de injustiça e descaridade que se pode imaginar; encontrei como meu Orientador o Pe. Prof. Dr. Francisco Alves Correia - Titulado Doutor pela Universidade Gregoriana de Roma; dediquei-me a Área de Concentração em Filosofia da Religião e trabalhei com os autores da chamada "Morte de Deus" defendendo a Tese de que a Verdadeira Fé se vale de Base Racional, usando o exemplo de Abraão, que no primeiro momento foi motivado pela sedução de ser pai, e somente no segundo momento, ele teve a certeza, de que, quem solicitava o sacrifício de seus filho, era poderoso o suficiente para providenciar uma solução satisfatória ao seu dilema.

Em 1972 consegui concluir o meu Doutorado e enfrentei dificuldades para isto; como meus estudos básicos não eram formais e sim por provas do nível de suficiência na entrada do bacharelado de filosofia, os membros do clero exigiram que eu fizesse prova novamente em um dos seminários menores da ICAIB, o que me levou a prestar exames no Seminário São Luiz Gonzaga, dos Padres Operários de Jesus, sob a Superintendência Geral de Pe. Lapércio Eudes Moreira. Graças a Deus foi fácil fazer tais exames, pois o nível era compatível com o que eu tinha estudado antes.
Antes de receber a Diplomação e Título de Doutor, tive que submeter o conteúdo da minha tese aos pares do clero e à comunidade para ver se alguma contradição idiodóxica estava sendo sustentada no meu trabalho. Tudo estava conforme e então eu recebi a Láurea de Livre-Docência no ambiente eclesial, das mãos de Dom Manoel Ceia Laranjeira.
Estava agora titulado e poderia enfrentar as intrigas do Clero Romano em pé de igualdade, sendo bem verdade que, os ataques romanos diminuíram com o reconhecimento das Ordens Episcopais de Dom Salomão pelo Papa João XXIII.

19 Lidando com a Falta de Identidade Eclesial

Neste período houve muita dispersão do clero de Ordens avulsas, organizadas a partir da liberalidade ordenatória da Igreja Brasileira, e que por vezes Dom Manoel recebia no seio da nossa Igreja. Isto levou a presença da falta de uniformidade no seio da ICAIB, cujas celebrações pareciam com as da Igreja de Roma. Dom Lapércio, agora Bispo, liderava uma idéia contrária aos ideais evangélicos do Catolicismo Livre e Independente iniciais que ele tinha jurado seguir, iniciando um movimento em direção a uma apostasia, se distanciando da profissão de fé e compromissos assumidos, nunca usando o Ritual Brasiliense e adotando uma formação superficial do clero; criou um ritual próprio para a missa, que levava vinte minutos de celebração, embora muito teatral nas rubricas.

20 No Cabido da Sé Patriarcal

Dom Manoel Ceia Laranjeira organizou o Cabido da Sé Patriarcal e colou "vínculo perpétuo" a dois Cônegos, sendo Raimundo Olegário Portela Cônego Defensor da Sagrada Liturgia e eu, Felismar Manoel, Cônego Guardião e Instrutor da Fé. Em várias situações nesses tempos, nós do Cabido tínhamos que adotar estratégias de infiltração nos ambientes para conhecer o que se tramava contra os ideais do Catolicismo Alforriador, característico da Igreja Católica Livre, que denominamos hoje de Catolicismo Salomonita.

21 Experiência como Reitor de Seminário

Por razões pastorais tive que criar e ser o Reitor do Seminário Teológico Regente Feijó, para dar formação complementar aos elementos do clero que aceitasse fazê-la, tal a superficialidade da formação que era adotada por alguns bispos; embora eu recebesse total apoio do Patriarca Dom Manoel Ceia Laranjeira, eu sofria boicote de grande parte dos próprios bispos da época. Fui o criador e Reitor desse Seminário, por mais ou menos oito anos; para sua manutenção eu criei a Academia Liberal de Hierologia; adotamos as pedagogias ativas em contato com as realidades que se desejava transformar; consideramos a população do entorno das comunidades eclesiais como o Povo de Deus que Caminha, os "Caminhantes", pois constata-se que todos desejavam um mundo melhor para si e para os seus, o que a Igreja denomina de "Reino de Deus"; adotamos os Professores Tutores para dinamizar o aprender a buscar soluções, do ponto de vista prático e acadêmico, e Preceptores para assistir a execução prática das ações pastorais, à semelhança do SETESA, Seminário Oficial da Igreja Livre; enquanto os novos padres eram neófitos na jornada, adotamos os encontros de Supervisão Pastoral de casos. Graças a Deus se conseguiu fidelidade e seriedade de alguns e os levianos acabaram por se debandarem por conta própria.

22 Repúblicas de Irmandade Social

Seguindo a tendência agregadora da minha família, adotei acolher nas minhas residências urbanas, os párias dispersos de suas famílias, que vinham do interior do pais ou das periferias urbanas, formando "repúblicas" de testemunho cristão e de cidadania; foram experiências positivas, resultando na agregação de alguns como "irmãos afetivos", (meio irmãos, meio filhos) por solidariedade cristã e social, lembrando aqui de três nomes: Genivaldo Ferreira da Silva, com quem ombreei trabalhos de alcance social na zona da Leopoldina: Raildo dos Santos, que em vez de irmão foi um verdadeiro filho, já falecido precocemente e Antonio Carlos Azevedo, este último ainda partilhando o vínculo de irmandade afetiva e social me apoiando nos trabalhos atuais da comunidade onde moro.

23 Consagração Episcopal

Em 1975, Dom Manoel Ceia Laranjeira nomeou-me (in pectore) como Bispo Auxiliar do Patriarcado, tendo eu sofrido uma ligeira pressão do clero em consequência de não constar em meu nome o "Soares" de minha mãe; alegaram que eu era filho ilegítimo por não usar o nome da mãe, tendo eu que fazer juntada de documentos comprobatórios do casamento de meus pais; por fim aceitaram e me aprovaram, sendo eu consagrado Bispo pelas mãos de Dom Manoel Ceia Laranjeira aos 30 de novembro de 1975, na comemoração de Santo André apóstolo.

24 Experiência na Clínica Pastoral

Em consequência dos resultados das pesquisas de campo que foram efetuadas, conseguimos montar na Lapa, na Rua Joaquim Silva, Rio de Janeiro, um Gabinete de Clínica Pastoral, oferecendo às pessoas apoio terapêutico e pastoral para restaurar as dignidades de suas vidas. Todos os primeiros domingos de cada mês, tínhamos uma Adelfotéia, (encontros de irmãos que crêem em Deus), onde todos estreitavam laços de amizade, consolidava-se o clima de alteridade e terminávamos pela celebração de um Ágape Fraterno.
Nessa época eu trabalhava na Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro (à Rua Santa Luzia), morava com minha mãe e um irmão no município de Nova Iguaçu, e além da Pastoral Terapêutica comecei uma inculturação com um grupo de espiritualistas que buscavam atributos cristãos em sua ordem, cuja base se estabelecia na Rua das Marrecas.

25 Perseguição do Cardeal Eugênio Sales

Houve um episódio inusitado com relação à minha Sagração Episcopal, pois em virtude da "Revista da Santa Casa" ter noticiado a minha ordenação episcopal, publicando as fotos, o Cardeal Romano do Rio de Janeiro, Dom Eugênio de Araújo Sales, em represália, obrigou a Santa Casa ou a me demitir do emprego (tinha mais de quinze anos de emprego na firma), ou a cessar a publicação da revista; o que levou a Santa Casa a transformar a Revista em "Boletim da Santa Casa de Misericórdia" e eu permanecido no emprego, onde fiquei até a minha aposentadoria. "É o suave meio de sua Eminência, "cardine pró romanus imperius", praticar a caridade cristã em nome do ecumenismo, que alardeiam ser partidários".

26 Formação na área da Saúde

Com a morte de minha mãe, meu irmão foi morar próximo à sua filha em Nova Iguaçu e eu fui morar no Rio de Janeiro, na Rua Sousa Bandeira, no Bairro da Saúde. Em preparação para cursar área de saúde, voltei às instituições de ensino do Rio de Janeiro, para lograr certificação das escolas oficiais de primeiro e segundo grau, já que minhas certificações anteriores eram por exames de suficiências, sendo fácil em razão dos conhecimentos que já possuía, tendo que buscar reforço em física, química e matemática, mas logrando sucesso em meus exames no Colégio Bezerra de Araújo.
Voltei à universidade e fui cursar o Bacharelado de Fisioterapia no Instituto Brasileiro de Medicina de Reabilitação, onde cursei também (parcialmente) o Bacharelado de Psicomotricidade, e onde fiz a Especialização Lato Sensu na área pedagógica.

27 Professor Universitário

Assumi como Professor Universitário nos Cursos de Fisioterapia e Psicologia, na Faculdade de Ciências Médicas e Paramédicas fluminense, localizadas em Nilópolis, Estado do Rio de Janeiro, onde lecionei por quatorze anos, sendo também uma experiência enriquecedora a convivência com alunos, professores e os diretores.

28 Lidando com a Apostasia Eclesial

Através de manobras "palacianas" Dom Lapércio induziu-nos a todos, inclusive a mim, alijando por exclusão o clero do nordeste brasileiro (Diocese de Salvador, Bahia) e conseguiu colocar Dom Manoel como Patriarca Emérito e assumiu o Patriarcado, montando toda uma estrutura que facilitasse sua substituição através de eleição por um clero estrangeiro, desconhecido da vida comunitária, clerical e espiritual do Brasil.

Um antigo elemento da casa de Dom Lapércio, dele se desligou e se insinuou como clérigo "coitadinho", sendo abrigado por Dom Manoel, dado o seu espírito paternal acolhedor; logo ele se apoderou das chaves da Capela Patriarcal, da residência de Dom Manoel e dos arquivos da ICAIB. Fui eu designado por Dom Lapércio para negociar a saída de tal clérigo dos ambientes sagrados, sendo recebido pelo mesmo com ameaças e um revólver nas mãos. Desisti de fazer pressão e pedi que fosse comunicado o fato a polícia, Nessa época Dom Manoel estava já com avançada demência senil (acelerada pela tristeza de ter sido afastado como "Patriarca Emérito" e pela morte de Dona Nair, sua esposa), recebendo apenas a minha visita semanal como elemento do clero, pois ele não mais confiava nos demais. Dom Manoel acabou falecendo e sendo sepultado no Cemitério de Campo Grande, RJ, não tendo a sua família comunicado a sua morte aos membros do clero.

Após a morte de Dom Manoel, tal clérigo "invasor", atuante em seus domínios, ateou fogo em todos os arquivos e mobiliário da igreja e falsificou documentos vendendo o imóvel, que aliás era um comodato cedido à igreja pelo Juiz, pois o imóvel estava em inventário. Com esse incêndio perdemos todos os arquivos da Igreja, incluindo nossos relatórios de pesquisas, teses e outros documentos.

29 Melhor Capacitação para a Docência Superior

Aposentei-me da Santa Casa de Misericórdia e a partir de 1994 fui morar e trabalhar em projeto comunitário em uma área carente, na localidade de Capivari, Duque de Caxias, Rio de Janeiro. Infelizmente os proventos da aposentadoria foram diminuindo descompassadamente diferente da correção dos salário dos trabalhadores, o que forçou-me a voltar a trabalhar.
Em busca de melhor qualificação voltei a universidade e cursei o Mestrado em Motricidade Humana, trabalhando em minha Dissertação a "Questão Relacional em Terapia Física" sob o enfoque da Ecologia do Desenvolvimento Humano, sob a Orientação do Prof. Dr. Marco Antônio Guimarães da Silva.
Como me dediquei à Fisioterapia Psicomotora Clínica, busquei aprimoramento fazendo curso de Formação em Psicanálise Clínica na Sociedade Fluminense de Psicanálise Clínica e de Formação em Psicomotricidade Sistêmica no CEC, com a Profª Drª Rosa Prista.
No campo da fisioterapia psicomotora clínica tenho atuado mais com adolescentes e adultos, lidando com os problemas cognitivos, de adaptação circunstancial e com os comportamentos e vivências existenciais.

30 Experiências Atuais

Atuo como professor e terapeuta didata nas formações em Terapia Psicomotora Analítico-Clínica no CEBRASC, à Rua Francisco Eugênio, 180, sobrado, em São Cristovão, Rio de Janeiro, RJ.
Atuo também como Diretor de Ensino dos Cursos de Formação Pastoral do Seminário Teológico Santo André - SETESA, anexo ao Mosteiro Compaixão Sagrada, à Estrada das Amendoeiras, 248, Capivari, Duque de Caxias, RJ.

Mantenho publicações rotineiras em dois blogs, com dois artigos semanais:
< www.alforriacrista.blogspot.com > de natureza religiosa; e
< www.professorfelismar.blogspot.com > de natureza científica.

Assumi como Professor Adjunto Mestre I na Universidade Unigranrio, desde agosto de 2000, estando atuando como Líder do Grupo de Pesquisa GEFISIO - Unigranrio; em salas de aulas para medicina, enfermagem, fisioterapia, nutrição, odontologia e outros; em assistência terapêutica e orientação pedagógica de alunos com dificuldades de adaptação e baixo rendimento acadêmico; em iniciação científica e em projetos de pesquisas; como parecerista de projetos de pesquisas no Comitê de Ética em Pesquisa da Unigranrio - CEP- Unigranrio; como membro das Comissões de Biossegurança e de Resíduos de Saúde da Unigranrio; como membro do NDE do Curso de Fisioterapia; e participando de grupos de estudos e de trabalhos de interesse da Escola de Saúde da Unigranrio.

Por decisão da Assembleia Geral da I Convenção Católica Independente de Tradição Salomoniana - I COCI-TS de Feira de Santana, Bahia, assumi como Bispo Primaz do Catolicismo Salomonita no Brasil desde agosto de 2010, resgatando o Seminário Teológico Santo André - SETESA, cuja sede em instalação está situada em Caxias, RJ, onde tenho residência, no bairro Capivari (Chácaras Rio Petrópolis), anexo ao Mosteiro Compaixão Sagrada. Deve-se notar, que todas essas referências ostentam caráter de habitações populares de comunidades do proletariado da Área do Grande Rio. Nossa função principal é servir e não ser servido.

31 À Guisa de Conclusão

Agradeço a Deus, à vida e à sociedade organizada em Estado, a oportunidade de cumprir o propósito de Jesus Cristo na construção do reino de Deus na terra. Agradeço ao Catolicismo Evangélico Salomonita na figura de seu clero e crentes fieis, a oportunidade de tomar-me como operário da messe do Senhor e de fazer-me um membro consciente do Corpo Místico de Cristo nestes cinquenta e três anos de ministério cristão. Agradeço aos meus clientes e alunos a oportunidade de partilharmos conhecimentos terapêuticos e acadêmicos neste anos de assistência terapêutica e docência superior. Se tivesse que reiniciar agora, faria tudo novamente da mesma forma.


Felismar Manoel - Bispo, Prof. Dr.