quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Roteiro de Estudos para Saúde, Educação e Sociedade



Prof. Felismar Manoel, Unigranrio, Escola de Ciências da Saúde, Duque de Caxias, RJ,
2015.1


Unidade 1.0 – Organização da sociedade e seus modos de produção.
Segundo Oliveira (2004), os seres humanos necessitam de seus semelhantes para sobreviver. É vivendo em grupo que os indivíduos da espécie humana se tornam realmente humanos; é na vida em grupo que se educam, comunicam, criam símbolos, formas de expressão cultural, perpetuam a espécie e se realizam como indivíduos. O ser humano tem a capacidade natural para viver em sociedade, interagindo uns com os outros através dos processos de socialização, que podem ser de pessoa a pessoa, de pessoa a grupo e de grupo a grupo. Os indivíduos vivem normalmente em famílias (nuclear, parental, afetiva e social), formando as comunidades sociais de convivencia.
Os processos sociais podem ser associativos, através da cooperação, acomodação e assimilação entre pessoas; podendo também ser dissociativos, através da competição e do conflito.
A maneira pela qual a sociedade produz seus bens  e  serviços constitui o seu modo de produção, bem como o modo como os utiliza e distribui, sendo formado portanto, das forças produtivas mais as relações de produção.
O modo de produção é constituído de fatores dinâmicos, que mudam constantemente, sendo composto  pelas forças produtivas, que se modificam com o desenvolvimento dos métodos de trabalho, com os avanços tecnológicos e científicos, mais as relações de produção, estas também sujeitas a transformações.
È nesse processo de desenvolvimento que historicamente surgiu os  diversos modos de produção:
a)    Comunal primitivo – coleta  e  extrativismo, caça, pesca, etc.;
b)   Escravista – relações de domínio e sujeição, na qual o senhor era dono do escravo, considerado um objeto de produção;
c)    Asiático – a sociedade era subordinada ao Estado – os meios de produção e a força de trabalho pertenciam ao Estado, na pessoa do Imperador;
d)   Feudalismo – sociedade estruturada entre senhores e servos, onde as relações de produção se baseavam na propriedade do senhor sobre a terra e no trabalho agrícola do servo;
e)    Capitalismo – relações assalariadas de produção e propriedade privada dos meios de produção pela burguesia. O desenvolvimento da produção é movido pelo desejo do lucro. Etapas do capitalismo:
·          Pré-capitalismo – do século XI ao século XV;
·         Capitalismo comercial, ou mercantil – do século XV ao século XVIII;
·         Capitalismo industrial – do século XVIII ao século XX;
·         Capitalismo financeiro – a maior parte do século XX;
·         Sociedade pós  industrial – do século XX ao século XXI;

===è Com base no texto acima, faça uma análise e construa um mapa conceitual, fundamentando a sua compreensão sobre o assunto.
=è Reflita sobre... Socialismo, Globalização, Neoliberalismo, Exclusão Social...
Para ler mais:
Introdução à Sociologia, Reinaldo Dias. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2010
Introdução à Sociologia, Pérsio Santos de  Oliveira, 2004

Unidade 2.0    Educação, cultura e organização da sociedade
2.1 – A educação como instrumento de organização social
Educar comporta uma ideia de acompanhar um movimento, conduzir, ajuda-lo em sua manifestação, podendo assim ser de crescimento, ou desenvolvimento em qualquer área; é muito comum falar em educação com a ideia de acompanhar o movimento de  alguém na busca do conhecimento.
Em qualquer educação é preciso destacar as grandes perguntas sobre nossas possibilidades de conhecer. O conhecimento é uma aventura para a qual a educação deve fornecer o apoio indispensável.
Na atualidade necessitamos desenvolver teorias abertas, racionais, críticas, reflexivas, autocríticas, aptas a  se  auto reformar; necessitamos do enraizamento de um modelo que permita o conhecimento complexo.
A questão cognitiva tem importância antropológica, política, social e histórica. Para que haja um progresso na época atual, os homens e as mulheres não podem se permitir ser brinquedos inconscientes de suas ideias, mas principalmente das suas mentiras. A tarefa principal da educação é armar cada um para a busca constante e vital da lucidez como domínio próprio e na convivência social.
Para a educação do futuro, Edgar Morin (2004) propõe como segue:
I – Conhecer As Cegueiras do Conhecimento: o erro e a ilusão
A educação naturalmente trabalha o conhecimento; mas que conhecimento? O conhecimento apresenta erro e ilusão. É preciso estar atentos para os erros mentais, intelectuais, de raciocínio e das inadequações de modelos, as questões paradigmáticas.
É importante que na busca do conhecimento tenha atenção na possessão das ideias, esteja alerta na busca e aberto aos agradáveis inesperados que se pode descobrir. Esse conhecimento surpresa, que se descobre por acaso, é denominado serendipidade.  É preciso estar ciente das incertezas do conhecimento.
II – Conhecer os princípios do conhecimento pertinente
Todo conhecimento é contextualizado e isto deve ser levado em conta. Deve-se estar atento para as correlações entre o todo e as partes e entre as partes e o todo, pois é preciso uma vinculação com o conhecimento globalizante; considerar a multidimensionalidade do conhecimento complexo. Hoje, mais que antes, é necessário ter uma abertura para uma visão holística do ser humano.
III – Conhecer a condição humana
É preciso avaliar o enraizamento ou  desenraizamento do ser humano, em suas diversas condições: Estar atento aos aspectos das diversas condições do ser humano: condição cósmica, condição física, condição terrestre, condição humana, espiritual e social.
Ter presente a questão do que é verdadeiramente humano no ser humano: Sua unidualidade; a relação entre o cérebro, a mente e a cultura; o circuito entre razão, afeto,  pulsões e também a circularidade entre individuo, sociedade e espécie.
Considerar  a unidade na complexidade do ser humano, seus diversos aspectos em diferentes esferas; esfera individual, esfera social, diversidade cultural e pluralidade de indivíduos com suas identidades e subjetividades.
Considerar os diversos potenciais do ser humano como ser holístico, como verdadeiro Homo complexus.
IV – Conhecer a identidade terrena
Situar o ser humano na era planetária, entendendo as correlações entre as condutas e comportamentos dos terráqueos atuais e as ameaças que elas podem significar para a vida na terra. 
Conhecer o patrimônio recebido do século XX  com seus terríveis acenos de sofrimento e desventura: a herança de morte, quer por armas nucleares, quer por outros perigos, como o aumento do aquecimento no planeta; considerar a quase sentença de morte para a modernidade, se nada for feito de urgente e geral e de modo global. Refletir nas bases  de esperanças  que surgem e podem prosperar  com as correntes de conscientização e esforços positivos para livramento da destruição precoce da vida na terra.
É preciso que se firme a ideia de que somos filhos  da vida na terra, consolidando nossa identidade terrena.
V – Aprender a enfrentar as incertezas
Conhecer a incerteza histórica, tanto da história criadora, quanto da destruidora, para saber que vivemos em um mundo incerto.
Enfrentar as incertezas da realidade e do conhecimento bem como a ecologia da ação, que acena com algumas estratégias  significativas: as circularidades  risco e precaução, fins e meios, ação e contexto. Há uma imprevisibilidade em longo prazo que se nos apresenta como desafio a encontrar estratégias de enfrentamento para soluções viáveis.
VI – Aprender a compreensão
É preciso que se aprenda a discernir a correta compreensão, diluindo os seus obstáculos, como o egocentrismo (erro de pensar que só o eu importa), o etnocentrismo (erro de pensar que só minha cultura importa), o sociocentrismo (erro de pensar que só aminha sociedade importa) e o espírito redutor. É preciso compreender com a ética do bem pensar, buscando a introspecção que leve a consciência da complexidade humana, com abertura subjetiva em relação ao outro diverso de mim, com interiorização da tolerância em uma atmosfera de alteridade, inserindo sua compreensão em uma dimensão de ética e cultura planetária.
VII – Assumir a ética do gênero humano
Existe uma circularidade entre o individuo e sua sociedade que conduz a aprendizagem da democracia; há que considerar as subjetividades na complexidade do ser humano e a democracia como meio conciliador para o entrosamento; o melhor resultado como dialógica das relações democráticas; bem como considerar a adequação futura da democracia.
Existe uma circularidade entre o individuo e a espécie que conduz a aprendizagem da cidadania terrestre; há uma forte vocação da humanidade para o seu destino planetário, tendo a terra como o lar da humanidade, através de ações adequadas e responsáveis envolvendo as sociedades de forma global.

Como você imagina a questão do que aprender, do que ensinar para uma boa inserção na sociedade?
===è Reflita sobre isto e produza um texto com o seu ponto de vista.
 Para saber mais:
Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro, Edgar Morin. São Paulo / Brasília: Cortez/UNESCO, 2002;
Educação Popular - metamorfoses e veredas, Luiz Eduardo W Wanderley. São Paulo: Cortez, 2010

2,2 – As Culturas nas Comunidades
De um modo geral toda produção humana pode ser considerada cultura, por isso, na atual fase da humanidade não existe ninguém desprovido de cultura. Não vamos aqui discutir quando surgiu a cultura e nem quais foram as suas causas; estamos preocupados em refletir sobre as culturas das comunidades, como elas surgem e qual a sua importância quando internalizadas nas vidas das pessoas.
É claro que as culturas são  produções dos seres humanos; do ponto de vista da taxonomia, os seres humanos  são assim classificados:
 Reino animal, Filo dos vertebrados, Classe dos mamíferos,  Ordem dos primatas, Família dos hominídeos, Gênero Homo e Espécie sapiens sapiens – Há um certo vínculo com o processo evolutivo.
O gênero humano atual é admitido como resultante desta espécie sapiens sapiens, com um cérebro complexamente desenvolvido e adequado às exigências funcionais dos nossos padrões  contemporâneo de vida.
A cultura que interessa muito aos profissionais de saúde, é aquela que é internalizada pela própria pessoa, como certa e verdadeira na sua vida  e que é ativada pelas crenças pessoais, estimulando seus mecanismos biopsíquicos, podendo, portanto, alterar as funções dos seus padrões bioquímicos e seu sistema imunológico, tendo relação com o  processo saúde –x- doença.
Uma cultura desse tipo surge  de uma vida compartilhada em uma mesma localidade (mesmo prédio, mesmo condomínio, mesmo bairro, mesma religião, etc); embora influenciada pela cultura geral dominante, esta cultura comunitária surge como resultado da visão de mundo do grupo, que a traduz em forma de verdades, conceitos, explicações e valores em beneficio dos que ali convivem. Trata-se de uma cultura intra-orgânica, posto ser aquilo que a pessoa assume, sendo uma cultura que “está internalizada, dentro dele”.
Em virtude de ser esta cultura aceita e praticada como um valor, que gera um bem para o grupo, esse grupo vai elaborar normas de condutas e comportamentos ostensivos orientados para a boa convivência, tornando essa norma a sua moral (etnocêntrica), que posta em prática vai gerar um comportamento ético (ética da convicção), ambos influindo na vida coletiva, através da socialização da convivência e da ação das  instituições sociais, como a família, a escola, a igreja, os clubes, entre outros.

Existem alguns termos técnicos derivados da língua grega que categorizam alguns elementos citados no parágrafo acima;
Hethos = dinâmica da localidade de convivência que influencia seus moradores;
Ethos = costumes predominantemente praticados pela pessoas da localidade;
Cosmovisão = visão de mundo das pessoas que compartilham a convivência;
Cultura = conceitos, ideias, crenças, artes, ciências, etc. produzidos pelo grupo em consequência de sua visão de mundo local.
Moral etnocêntrica = Normas de condutas elaboradas pelo grupo de convivência e livremente internalizadas pelos seus componentes.
Ética da convicção = Padrões de comportamento observado pelo grupo, livremente adotado e compatível com as suas normas morais.

===è ...
Para ler mais;
Introdução à Sociologia, Reinaldo Dias. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2010
Cultura – um conceito antropológico, Roque de Barros Laraia,         Rio de Janeiro: Zahar, 2009
A Explicação Sociológica na Medicina Social, José Carlos de M. Pereira, São Paulo: UNESP, 2005

Unidade 3.0 – Determinantes sociais em saúde
3.1 – De acordo com a Teoria do Campo da Saúde de Lalonde
Tradicionalmente no Brasil os enfoques das questões de saúde, historicamente vem sendo praticados  de acordo com a visão flexneriana, que aborda a saúde após a instalação da doença. Neste caso considera  o hospital como o centro das práticas assistenciais; nesse caso trata-se de uma atividade de muito maior gasto financeiro.
Aqui vamos utilizar o ponto de vista de Lalonde, que fez uma abordagem do campo da saúde, ou seja, o lugar onde o processo saúde –x- doença  se desenvolve. Isto permite trabalhar a questão da saúde em todos os níveis, promoção, proteção, prevenção e tratamento das doenças,  prevenção e tratamento dos agravos e sequelas,  recuperação da saúde e assistência custodial para as doenças crônicas e progressivas.
Lalonde definiu assim o conceito de “campo da saúde”:
3.1 (A)  – Influência do ambiente na saúde.
Quando se avalia o ambiente do ponto de vista dos determinantes de saúde, deve-se considerar a topografia do terreno e sua dimensão em área, visando avaliar escoamento das águas de chuvas (se fluxo laminar, ou turbilhonar); a drenagem do solo, para condução de águas pluviais e esgotos; abastecimento de água potável; registrar se trata de zona urbana, rural, ou mista; natureza do solo (rochoso, pedregoso, arenoso, argiloso, manguezal, etc);  a questão da acessibilidade do ir e vir (barreiras arquitetônicas, animais soltos nas pistas, etc); o clima local predominante nas estações do ano; a qualidade dos espaço: tratamento de lixos, resíduos sólidos (lembrar que  resíduos contaminados possibilitam vetores biológicos espalhar contaminação); qualidade do ar (chaminés de fábricas, queimadas, resíduos de combustíveis de veículos); poluição sonora (sons muito alto); poluição visual ; iniquidades de convivência (insegurança, trocas de tiros, coisas que incomodam e que você não consegue descartar); vegetação local; tipos de moradias predominantes; outros.
3.2 (B) – Estilos de vida da população / Aspectos socioculturais e econômicos
O estilo de vida tem uma estreita relação com os hábitos e costumes socioculturais e econômicos de uma população, tais como: Prática de atividade física; esforços para evitar dependências como fumo, álcool, maconha, outras drogas, jogos viciantes; fuga do ócio, sedentarismo, vida sem sentido; fuga de  uma dieta rica em carboidratos simples, gorduras, sal; fuga de uma dieta pobre em fibras e alimentos integrais; pratica de higiene mental, lazer, meditação, vida prazerosa; outros.
3.3 (C)   – Organização dos serviços de saúde e sua interface com o processo saúde –x- doença
Os serviços de saúde devem dar conta de atender a população adequadamente, tanto nas baixas e medias complexidades, quanto nas altas complexidades, preferentemente a partir das comunidades e domicílios sanitários do individuo; quando isto não ocorre torna-se uma iniquidade para as condições de saúde da população.
3.4 (D) – Aspectos biológicos da saúde
Quando se fala aqui dos aspectos biológicos da saúde, não estamos focando os fatores próprios de cada indivíduo (fatores endógenos, intrínsecos das pessoas), nem as classes de riscos biológicos à saúde; estes serão abordados em disciplinas específicas durante cada curso. Estamos aqui nos limitando àqueles aspectos ou fatores que podem cultivar-se em nichos locais e que podem ser transmitidos por vetores animais.
Diversos vetores do reino animal, podem ter contatos com resíduos contaminados e levar essa contaminação para outros locais, produzindo infecções ou surto de doenças: formigas, moscas, mosquitos, baratas, ratos, aves, morcegos, são tipos de vetores de doenças de cunho biológico, que podem transitar em mais de um território levando agentes de contaminação e doenças para as populações. Nas localidades podem  existir nichos, ou alojamentos de fungos, bactérias, parasitas, ou assemelhados, que são fontes de infecções e infestações, podendo contaminar moradores, animais domésticos e outros vetores que espalham as infecções.
Os fatores biológicos intrínsecos aos animais e aos humanos, que constituem bases endógenas animais de doenças,  serão estudados quando do exame do individuo doente; certos fatores  biológicos  próprios de uma comunidade ou território,  podem constituir bases da geração de doenças do ser humano e dos animais,  sendo transmitidos  por  vetores animais.
Em outras disciplinas mais específicas, vocês estudarão estas questões, conhecendo as classes de riscos biológicos à saúde.
===è Estes itens apontados na unidade 3 e suas subunidades, poderão ser usados para a elaboração do projeto de pesquisa; grupos de três a cinco, farão as pesquisas em suas comunidades onde vivem, orientadas pelos professores, e poderão ao final do período fazer uma apresentação relatando a situação atual das comunidades e/ou  publicá-los, dependendo do nível de excelência.
Para saber mais:
Ecologia, Epidemiologia e Sociedade, Oswaldo P. Foratini. São Paulo, Artes Médicas, 2004
Conceito de Campo da Saúde – Uma Perspectiva Canadense. Portal da Unigranrio

Unidade 4.0 – Educação das relações étnicorraciais, identidade e gênero
4.1 –Etnorracialidade: A formação da identidade brasileira
Tratados Internacionais sobre  Direitos Humanos, definem que os povos têm o direito de suas afirmações étnicorraciais, pois elas  tem vínculos com suas respectivas identidades culturais e até mesmo com as singularidades dos indivíduos.
O brasileiro é um povo que traz variedades de  influências étnicorraciais e culturais, presentes em sua identidade cultural, conforme nos aponta  Darcy Ribeiro (2013).
Geralmente  pratica-se um reducionismo simplista, quando se  afirma que o Brasil foi descoberto pelos portugueses em 1500. É preciso ter consciência que o território brasileiro já era habitado por várias etnias indígenas e estas com suas culturas próprias, comunicando entre si com suas línguas próprias. Já havia entre os índios do Brasil, a língua  Tupi como tronco linguístico de compreensão  geral entre as principais etnias indígenas do Brasil, semelhante ao Guarani que era uma língua geral entre os nativos ali pelas bandas do Paraguai. Os missionários jesuítas aprenderam essas línguas, que foram ensinadas a outros para facilitar a catequese e  a comunicação entre o povos que aqui viviam.
Essa língua geral do Brasil, usando  elementos Tupi-Guarani, é conhecida pelo nome  Nhenhegatu (significa boa língua), sendo também conhecida  como Língua Brasílica e usada em nosso país até cerca de 1940, só caindo em desuso por essa época e depois no esquecimento, sendo hoje ignorada até pela população universitária.
A mestiçagem começou no Brasil inicialmente  pelo cruzamento dos homens brancos com as índias, já que não havia outras mulheres disponíveis. É importante saber que os índios adotam o princípio do cunhadismo, constituído pelo hábito de arranjar uma mulher índia para o estrangeiro e incorporá-lo à sua tribo. Desse  relacionamento  de brancos com índias surgiram  os mamelucos, também conhecidos como caboclos, melhor adaptado à vida na floresta. Essa população cresceu chegando a formar comunidades maiores que as comunidades dos índios. Mas qual era a sua identidade? Eram filhos de europeu, mas não eram europeus; eram filhos de indígenas, mas não eram índios, embora falassem o Nhenhengatu. Ai começa a surgir a necessidade da busca de identidade; Darcy Ribeiro denomina essa população de Brasilíndios.
A produção econômica do Brasil dessa época usava trabalho escravo da mão de obra indígena (no I século após o descobrimento), mas que tornou-se mais tarde difícil e insuficiente, surgindo logo a seguir a aquisição dos escravos africanos, durando o regime afro-escravista no Brasil cerca de três séculos.
Vieram da primeira leva africanos de cultura Sudanesa, os Yorubá, também conhecidos como Nagô; de cultura Dahomey, conhecidos com Gêge; e de cultura Fanti-Ashanti, conhecido como Minas. Da segunda leva vieram africanos da cultura Islâmica, os Peuhl, os Mandinga e os Haussa e da terceira leva os africanos da cultura Bantu, os Congo-angolês. Todos esses africanos suportaram terríveis sofrimentos na vida de escravidão, por isso muitos tentavam fugir para as florestas e criavam suas próprias comunidades denominadas Quilombos e seus moradores conhecidos como quilombolas, ainda existindo em nossa Pátria a população descendentes de alguns desses quilombos.
Semelhante ao cruzamento do branco com a índia que fez surgir os mamelucos, ou caboclos, também houve cruzamento do branco com as africanas surgindo os mulatos, bem como o cruzamento do negro com índia surgindo os curibocas. Esta população assim formada é denominada por Darcy Ribeiro como os Afro-Brasileiros e que constituem os principais responsáveis pela aprendizagem e divulgação da língua portuguesa  em nosso território.
Esses povos se tornavam numerosos, sendo suas comunidades maiores do que as comunidades indígenas e dos reinóis portugueses (europeus partidários ou servidores aos reis); por outro lado havia os filhos de casais de brancos portugueses nascidos no Brasil, estes denominados por Mazombos. Os mazombos também tinham crise de identidade, pois não eram bem aceitos pelos de Portugal, já que nascidos no Brasil, nem eram considerados brasileiros, posto que esta nacionalidade não tinha sido configurada ainda na alma dos povos aqui nascidos.
Este grande contingente de pessoas que então surgira no território brasileiro constituiu os Neobrasileiros, usando predominantemente a língua Nhenhengatu, embora os Afro-Brasileiros já usassem o Português também, que constituía sua língua de comunicação no ambiente de trabalho.
É claro que todos esses povos que aqui viviam buscavam uma identidade própria, pois nem eram portugueses, nem eram índios, nem eram africanos, havendo rejeição de parte a parte. Esses povos estabeleceram boas relações de convivência, sendo a parte Afro-Brasileira mais numerosa, que somada aos reinóis, facilitou a maior divulgação da língua Portuguesa, que acabou por ser o instrumento de constituição e consolidação da unidade e identidade cultural do brasileiro. Podemos considerar que hoje constituímos uma nova etnia, a etnia brasileira, restando consolidar nossa plena cidadania e comportamento de alteridade com as diferenças.
===è ...
Para ler mais:
O Povo Brasileiro, Darcy Ribeiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, Reimpressão 2013
Origens Africanas do Brasil Contemporâneo: Histórias, línguas, Culturas e Civilizações, K. Munanga. São Paulo: Global, 2009

4.2 – Alteridade, Identidade e Gênero
Alteridade é a capacidade de apreender o outro na plenitude da sua dignidade e singularidade, dos seus direitos e, sobretudo, da sua diferença. Quanto menos alteridade existe nas relações pessoais e sociais, mais preconceitos e conflitos ocorrem entre os povos.
Existe uma tendência geral no ser humano, em querer colonizar  o outro diferente de si,  partindo do princípio de que “eu sei e ensino” para ele, como se “eu fosse o espelho” no qual ele deveria olhar para ver a sua  própria imagem. É como se eu soubesse melhor e mais do que ele. É evidente que cada um de nós sabe algumas coisas, mas que também  os outros diferentes de nós sabem outras tantas coisas, e é graças a essa complementação que vivemos bem em sociedade.                            
Precisamos adotar a perspectiva da generosidade. Só existe generosidade na medida em que percebo o outro como outro é, com sua diferença em relação a mim. Então sou capaz de entrar em relação com ele pela via do amor, usando uma expressão evangélica; pela via do respeito, usando uma expressão ética; pela via do reconhecimento dos seus direitos, usando uma expressão jurídica; pela via do resgate da sua dignidade como ser humano, usando uma expressão moral. Isso supõe a via mais curta da comunicação humana, que é o diálogo e a capacidade de entender o outro a partir da sua experiência de vida e da sua interioridade. Isto é alteridade.
Identidade é o conjunto de caracteres próprios e exclusivos com os quais se podem diferenciar pessoas, animais, plantas e objetos inanimados uns dos outros, diante do conjunto das diversidades ou ante seus semelhantes.
Sua conceituação interessa a vários ramos do conhecimento (história, sociologia, antropologia, direito, psicologia, etc.), e tem diversas definições, conforme o enfoque que se lhe dê, podendo ainda haver uma identidade individual ou coletiva, falsa ou verdadeira, presumida ou ideal, perdida ou resgatada.

Identidade ainda pode ser uma construção legal, traduzida em sinais e documentos, que acompanham os indivíduos.
Existem diversos conceitos de identidade: Para a sociologia identidade é o compartilhar de várias ideias e ideais de um determinado grupo;
para a Antropologia, Identidade consiste na soma nunca concluída de um aglomerado de signos, referências e influências que definem o entendimento relacional de determinada entidade, humana ou não-humana, percebida por contraste, ou seja, pela diferença ante as outras, por si ou por outrem.  A ideia de identidade está  relacionada a  alteridade, sendo  necessário existir o outro e seus caracteres para definir por comparação e diferença com os caracteres pelos quais me identifico.
Para a psicologia identidade é o conjunto de singularidades próprias do indivíduo, com as quais ele se identifica e se constrói como sujeito, para sustentar suas idiossincrasias.
Para a Medicina legal identidade consiste numa série de exames feitos no vivo ou no morto, onde se apuram, no ser humano, a raça, sexo, estatura, idade, dentição, peso e conformação corpórea, sinais particulares (má-formações, cicatrizes, tipo sanguíneo, feições faciais, etc.).
Na Filosofia a identidade constitui objeto de cogitações por variados pensadores e correntes filosóficas, e seu conceito varia, portanto, de acordo com os mesmos.
Para o Direito, a Identidade constitui-se num conjunto de caracteres que, delimitados legalmente, tornam a pessoa ou um bem individuado e particularizado, diferenciando-o dos demais, e como tal sujeito a direitos e/ou deveres.
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Gênero  faz referência à identidade adotada ou atribuída a uma pessoa, homem ou mulher, de acordo com seus genitais, sua psicologia ou seu papel na sociedade. Ainda que gênero seja usado como sinônimo de sexo para a maioria das pessoas, nas ciências sociais e na psicologia  gênero se refere às diferenças sociais, (conhecidas nas ciências biológicas como papel de gênero).
Historicamente, o feminismo posicionou os papéis de gênero como construídos socialmente, independente de qualquer base biológica. Pessoas cuja identidade de gênero difere do gênero designado de acordo com os genitais são normalmente identificadas como transexuais ou transgêneras.
No Brasil o conceito de gênero foi introduzido por pesquisadoras norte-americanas, que utilizavam a categoria gender para abordar as “origens exclusivamente sociais das identidades subjetivas de homens e mulheres”.
O feminismo tem mostrado, através de estudos sociológicos e antropológicos, que as explicações de ordem natural são, na verdade, uma formulação ideológica, utilizada para justificar e legitimar os comportamentos sociais de homens e mulheres em determinada sociedade.
Gênero serve, dessa forma, para determinar tudo que é social, cultural e historicamente definido e não é sinônimo de sexo. É mutável, pois está em constante processo de ressignificação devido às interações concretas entre indivíduos do sexo feminino e masculino.

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Para ler mais:
Introdução à Sociologia, Reineldo Dias. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2010
Educação , Raça e Gênero: Relações Imersas na Alteridade, Nilma Lino Gomes, Cadernos Pagu, 1996
Gênero, Identidade, Diferença, Sandra Regina Goulart Almeida, UFMG - A L E T R I A - 2 0 0 2  Disponível em: http://www.letras.ufmg.br/poslit


Unidade 5.0  – Dimensões da Gestão do Cuidado em Saúde

Gestão do cuidado em saúde pode ser definida como a disponibilização das tecnologias de saúde, conforme as necessidades singulares de cada pessoa, em diferentes momentos da sua vida, objetivando o seu bem estar, segurança e autonomia para seguir com uma vida produtiva e feliz. 
Podemos entender a gestão do cuidado em saúde sendo realizada em seis dimensões, como segue:
I – Dimensão individual da gestão do cuidado em saúde – assume o cuidar de si, significando o cuidar de cada um de nós sobre nós mesmos, o modo como levamos a vida, fazendo escolhas, se conscientizando sobre as consequências dos nossos comportamentos sobre nós mesmos.
Em saúde coletiva considera-se estar sadio como sinônimo de autonomia; estar sadio é estar capacitado para produzir novas normatividades diante das adversidades da vida, produzir novos modos de viver; pois enquanto estivermos vivos estaremos fazendo escolhas produzindo o nosso modo de viver.
Essa dimensão individual do cuidado envolve o estar  atualizado sobre os conceitos de indivíduo e de autonomia: é como ser de autonomia que o individuo constroi sua subjetividade, com certa constância, influenciado pelos diversos contextos de sua vida, como ser de abertura entre o organismo e seu meio, vinculados às regras da vida que definem nossos eus.
II – Dimensão familiar da gestão do cuidado em saúde – envolve a família, os ciclos de amigos, os vizinhos. É uma gestão localizada no mundo da vida, mesmo quando das dificuldades e contradições; existem complexidades nos laços familiares, sobrecargas de trabalho para os cuidadores, exigências constantes para a realização do cuidado. Há uma certa colonização institucional em consequência dos programas de desospitalização, atendimento domiciliar, devendo assumir maior importância com o envelhecimento da população.
III – Dimensão profissional do cuidado em saúde -  se dá no encontro entre os diversos profissionais e usuários em saúde. Trata-se de um encontro privado em espaços protegidos, fora de qualquer olhar externo de controle. Três são os elementos principais o que regem: a) competência técnica dos profissionais em seus núcleos profissionais específicos; b) postura ética do profissinal – mobilizar tudo  que sabe e tudo o que pode fazer em suas condições reais de trabalho, para atender da melhor forma possivel – c) capacidade de construir vínculos com os que precisam de cuidados.
IV – Dimensão organizacional do cuidado em saúde – equipe e gerente -  se realiza nos serviços de saúde, marcada pela divisão técnica e social do trabalho, evidenciando novos elementos, tais como: a) trabalho em equipe; b) atividades de coordenação e comunicação em saúde; C) função gerencial proporiamente dita – trabalho, centralidade, organização do processo de trabalho, definição de fluxos e regras de atendimento, adoção de de dispositivos compartilhados por todos os profissionais (agendas, protocolos únicos, reuniões de equipes, planejamento, avaliação,, etc) .
A gestão organizacional do cuidado em saúde depende da ação cooperativa de vários atores, a ser conseguida em territórios marcados com frequência  pelo dissenso, pela diferença, pelas disputas, pela assimetria de poder.
V – Dimensão sistêmica da gestão do cuidado em saúde – constroi conexões formais regulares e regulamentadas entre os serviços de saúde, compondo redes ou linhas de cuidados buscando construir a  integralidade do cuidado. Historicamente concebida como uma pirâmide, constituida por serviços de complexidade crescente, interligados entre si, através de processos formais de referência/contrareferência, que deveriam resultar em fluxos ascendentes / descendentes ordenados e racionalizados por usuários.                        Assim:    o modo como constroem itinerários terapêuticos     que escapam à racionalidade pretendida pelos gestores;           a transversalidade que o trabalho médico produz ainda no sistema de saúde, apesar  das estrategias disciplinadoras a que são submetidos;                                                                       as várias portas de entrada para o sistema, principalmente no pronto-atendimento , que desafia a própria ideia de porta de entrada.                                                                                       Tudo   isso tem obrigado gestores e pesquisadores a adotarem conceitos mais flexiveis: redes de cuidados construidas a partir dos usuários, trabalhadores e gestores.
A despeito desta complexidade e multiplicidade de atores e movimentos, aqueles que se ocupam de cargo de direção nos sistemas locais de saúde, tem uma grande responsabilidade na gestão sistêmica do cuidado em saúde.
VI – Dimensão societária da gestão do cuidado em saúde – o Estado e a Sociedade Civil – como em cada sociedade se produzem as políticas públicas em geral e particularmente a saúde; como é pensado o papel do  Estado em suas estratégias para a garantia dos trabalhadores que implementarão as políticas  sociais.
Esta é a dimensão mais ampla da gestão do cuidado, sendo nela que se aprecia como cada sociedade produz cidadania, direito à vida e acesso a tudo que contribua para uma vida melhor.
Nessa dimensão ocorre o encontro da sociedade civil desigual com o Estado, e a disputa de diferentes projetos societários que oferecerão melhores ou piores condições de vida para amplos extratos da população.
====è ....
Para Ler Mais:

Apontamentos teórico-conceituais sobre processos avaliativos considerando as múltiplas dimensões da gestão do cuidado em saúde,  Luiz Carlos Oliveira Cecilio.  Interface   Comunicação Saúde Educação v. 15 n. 37, p. 589-99. Abr./jun. 2011 


Unidade 6.0 – Território e Territorialidade

6.1 – Aspectos de proteção e riscos presentes no ambiente que estão relacionados ao processo saúde –x- doença

Território e territorialidade são conceitos de geografia política e etologia, que traz grande importância para as questões de saúde. O território é uma área demarcada por fronteiras conhecidas, como os municípios, os estados, as nações.

Existem territórios rurais, urbanos e mistos; grande parte de nossas questões de saúde se encontram nos territórios urbanos, nas cidades, que no Brasil se dividem em distritos, compostos por áreas rurais, urbanizadas e mistas.

Esses territórios se diferenciam entre si, como expressão da desigualdade sócio-espacial, resultante da lógica que preside a organização da sociedade e a produção do seu espaço.

Em função da divisão social do trabalho, a cidade é antes de tudo uma concentração de pessoas exercendo atividades concorrentes ou complementares, podendo surgir uma disputa de usos: uso produtivo do espaço da cidade, que depende  das características do processo de reprodução do capital e uso residencial, com os serviços essenciais, onde ocorre a reprodução da vida social.

No território da cidade poderá surgir uma contradição entre os interesses do cidadão e das grandes empresas, e na prática, a decisão nessa disputa tem na maioria das vezes, acontecido em favor das empresas. O cidadão tem direito a moradia  digna garantido pela Constituição Federal, não sendo, entretanto, atendido neste quesito toda a população, proliferando em consequência a sub moradia, a sub habitabilidade, nos mocambos e favelas.

O lugar onde o indivíduo vive é fundamental para aquisição de  seu valor, como produtor, consumidor, cidadão, entre outros. O lugar onde se vive compõe o ambiente com seus fatores interferentes no processo saúde –x- doença; é aí que ele construirá a sua cultura de convivência, incorporando os valores da visão de mundo do grupo; é aí que subsistirão os fatores ambientais interferentes no seu processo de saúde –x- doença; é aí que surgirão hábitos e costumes socioculturais e econômicos que manifestarão nos seus estilos de vida.

O conceito de territorialidade  refere-se às relações de poder delimitadas espacialmente e operando sobre um referencial. As empresas, e os mais diversos agentes sociais, desenvolvem suas próprias estratégias de apropriação do território, suas territorialidades, frequentemente justapostas sobre o mesmo espaço social, podendo gerar conflitos.

Do ponto de vista etológico, a territorialidade sustenta os costumes de certos vetores, que embora localizados em nichos territoriais delimitados por fronteiras, ultrapassam essas fronteiras podendo ser agentes propagadores de enfermidades em outros territórios.

Pode também surgir o territorialismo, em que o controle territorial pode ser um imperativo para os grupos sociais, com fechamento do espaço social, com recusa de acesso ao outro, como exemplos temos o territorialismo das elites econômicas, com agentes de segurança, muros, cercas eletrificadas, circuitos internos de TV, etc

Ainda se deve pensar na desterritorialização, com desapropriação do espaço social; lugares são desconectados dos circuitos integradores da sociedade capitalista, como mercado de trabalho, consumo e cidadania, multiplicando os aglomerados  de exclusão. Em muitos desses lugares se sobrepõem os vários territórios e redes: narcotráfico, presídios conectados por centrais telefônicas clandestinas, gangues, torcidas agressivas organizadas etc.. O aglomerado de exclusão é sempre um território  contestado.

===è Estas informações sobre território e territorialidade, também devem ser consideradas quando da elaboração dos projetos de pesquisas nas comunidades.

Para ler mais:

A contribuição do conceito de território para uma gestão socialmente justa da cidade. Carlos Alberto José de Carvalho  - Ciclo de Atividades com as Subprefeituras. Portal Unigranrio


Unidade 7.0  – Ética e Bioética

7.1 – Aspectos da Moral Social e Ética Humana

Já conhecemos as morais etnocêntricas e as éticas relacionadas com as nossas convicções (sub-unidade 2.2). Essa é uma moral e ética de cunho pessoal, comunitário,  nem sempre possível no viver da coletividade social  multicultural.

Necessitamos da moral social e ética humana que permeiam a nossa vida coletiva no meio social; elas, em uma sociedade multicultural, como é no caso a sociedade brasileira, surgem dos pontos diversos que são comuns às varias culturas comunitárias e que são consensualmente aceitas pela maioria da população.

A moral social e a ética humana derivam do consenso social e orientam o comportamento das pessoas e a elaboração das leis nacionais.

No mundo imerso na globalização, quer da economia, quer das ciências e tecnologias, nosso comportamento, nosso agir público e privado, tendem a se adequar a uma moral é ética de maior aceitação universal. É preciso  que não nos enclausuremos apenas em nossos valores da vida comunitária, religiosa, filosófica, ou ideológica; é necessário que nos abramos para os valores universais que visam o bem da humanidade, o bem da vida planetária

7.2  – Origem e Principios da Bioética Principíalista

No mundo da ciência e da tecnologia, ao qual estamos sendo incorporados como profissionais da saúde, área atualmente grandemente envolvida com as altas tecnologias, iremos atuar nas fileiras das práticas assistenciais, nas pesquisas científicas e tecnológicas, exigindo de nós uma nova postura, mais cuidadosa, acurada e responsável; geralmente os filósofos se ocupam destas reflexões.

Existe um filósofo contemporâneo, Hans Jonas, que desenvolveu  uma séria reflexão  ética sobre o “princípio responsabilidade”, que tem recebido com entusiasmo a acolhida das áreas científicas e tecnológicas, devido a sua harmonização com as preocupações bioéticas, que estão presente universalmente nas ações que se relacionam com os seres humanos e a vida no planeta terra, quer seja no plano assistencial, ou das pesquisas científicas e tecnológicas,

Hans Jonas desenvolveu as suas reflexões sobre um imperativo categórico, “age de tal forma que, os efeitos da tua ação sejam compatíveis com a permanência da vida humana autêntica sobre a terra”.

As reflexões de Hans Jonas sobre a ética da responsabilidade é perfeitamente compatível com a bioética principialista adotada pelo Conselho Nacional de Saúde do Ministério da Saúde do Brasil – CNS/MS, que rege a CONEP (Comissão Nacional de Ética em Pesquisa) e os CEPs (Comitês de ética em Pesquisas) existentes nas  diversas instituições pelo Brasil a fora.

A dinâmica da bioética que conhecemos atualmente, teve  sua origem a partir das preocupações de um clínico cancerologista nos Estados Unidos em 1970, chamado Van Rensselaer Potter, e que teve acolhida praticamente em todas as partes do mundo da ciência e tecnologia, motivando a criação de diversas sociedades, predominantemente vigorando a bioética baseada em quatro princípios.

É de acordo com estes princípios que se organiza o CEP-Unigranrio, que avalia o perfil ético dos projetos de pesquisa aqui na Unigranrio. A Sociedade Brasileira de Bioética, alinhada à Sociedade Internacional de Bioética e outras congêneres de diversos países, postulam os princípios da Bioética Principialista, embora existam outras abordagens.

A Bioética Brasileira compatibilizada na Resolução 466/2012 do CNS/MS, se harmoniza com os seguintes princípios orientadores do nosso agir na assistência aos seres humanos e nas pesquisas científicas e tecnológicas:
·         Respeitar  a autonomia da pessoa;
·         Praticar Justiça e equidade nas nossas ações ;
·         Agir com beneficência predominantemente;
·         Não maleficiência nas ações.

===è ....

Para ler mais:

Princípios de Ética Biomédica, Tom L. Beauchamp; James F Childress. São Paulo: Loyola, 2011
O Princípio Responsabilidade de Hans Jonas: Um Princípio Ético para os Novos Tempos. Cláudia Battestin, Gomercindo Ghiggi. Thaumazein, Ano III, número 06, Santa Maria (Outubro de 2010), pp. 69-85.
MANOEL, Felismar. Roteiro de Estudos de Saúde, Educação, Sociedade. Blog do Professor Felismar (www.professorfelismar.blogspot.com). Duque de Caxias RJ: Unigranrio, 2014
                             






 

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Meditação Relaxante

Prof. Dr. Felismar Manoel


A prática da meditação é um importante recurso terapêutico para se usar no combate ao estresse e  a ansiedade, se obtendo através dela a diminuição dos níveis de cortisol e adrenalina no sangue, resultando em consequência o  relaxamento muscular, o aumento da resistência elétrica da pele e dos níveis de defesas orgânicas, melhorando  o vigor biopsiquico, os níveis de concentração mental e a criatividade.

Atividades Cerebrais e Ondas Eletromagnéticas

A prática da meditação tem relação com as atividades cerebrais, e estas produzem ondas eletromagnéticas  pela atividade elétrica das células. Elas podem ser medidas com aparelhos eletrônicos como o Eletroencéfalograma ou EEG. As freqüências dessas ondas elétricas são medidas em ciclos por segundo ou HZ(Hertz). As ondas cerebrais mudam de freqüência baseadas na atividade elétrica dos neurônios e estão relacionadas com mudanças de estados de consciência (concentração, relaxamento, meditação, etc.)

Você tem a sua própria característica de atividade das ondas cerebrais. Ela tem um padrão e um ritmo - e incorpora as freqüências BetaAlfaTeta, e Delta em vários níveis através das atividades diárias à medida que o cérebro as modula para se adequar à determinadas tarefas.

a) Ondas Beta: A faixa de ondas Beta está entre 13 30 HZ. -  Atenção, Concentração, Cognição
Você está bem desperto e alerta. Sua mente está concentrada, e você está pronto para trabalhos que requerem atenção total.

b) Ondas Alfa: A faixa de ondas Alfa está entre 7-12 HZ.  Relaxamento, Visualização, Meditação

Quando você está relaxado, sua atividade cerebral baixa do rápido padrão Beta para as ondas Alfa mais lentas. Sua consciência interna expande. Sua energia criativa começa a fluir e a ansiedade desaparece. Você experimenta uma sensação de paz e bem-estar.  Em Alfa, nós acessamos mais facilmente nossa capacidade dormente - ela funciona como um portal para estados de consciência mais profundos.

c) Ondas Teta. A faixa das ondas Teta está entre 4-7 HZ. Meditação Intuição, Criatividade, Memória

O aprofundamento do estado de relaxamento, introduz a pessoa no misterioso estado Teta onde a atividade cerebral baixa quase ao ponto do sono. Teta é o estado cerebral no qual incríveis capacidades mentais ocorrem. O estado Teta propicia flashes de imagens do inconsciente, criatividade e acesso a memórias a muito tempo esquecidas. Teta leva a estados profundos de meditação, podendo sentir a mente expandir além dos limites do  corpo.


Em Teta, nós estamos como num "sonho acordado", ficamos receptivos a informações que estão além do nosso estado normal de consciência, ativando estados mentais extra-sensoriais. 

d)  Onda Delta.  A faixa  Delta está entre  0.1 - 4 HZ. Consciência expandida, Cura e Recuperação, Sono

Delta é a mais baixa de todas as freqüências de ondas cerebrais. Está associada com o sono profundo, algumas frequências na faixa Delta liberam o hormônio do crescimento humano( HGH ) que é muito benéfico para a regeneração celular e a cura. Delta é a onda cerebral para o acesso ao inconsciente, onde a intuição pode aflorar facilmente.

Dominância Cerebral Hemisférica

Acredita-se que os estilos comportamentais das pessoas dependem das  dominâncias dos hemisférios cerebrais. Pode-se afirmar, baseando principalmente nos estudos e teorias de Ned Hermann, que o hemisfério esquerdo tem uma função analítica, pois ele analisa, critica, quantifica, toma medidas preventivas, planeja, organiza; já o hemisfério direito tem um função criativa, pois é ele que imagina, sonha, cria, corre riscos, quebra regras, fala muito, chora muito também, emociona-se.

Mecanismos da meditação

Quando se medita o hemisfério dominante sai da frequência beta e desce ao nível da frequência alfa; este estado meditativo sendo mantido por alguns minutos, estabelece sincronização em alfa com o outro hemisfério cerebral. Esta frequência sincronizada em alfa nos dois hemisférios, produz o relaxamento corporal, aumenta a resistência elétrica da pele e reduz os níveis de cortisol e adrenalina no sangue.
A frequência habitual da meditação, por cerca de trinta a cinquenta minutos diários, leva o cérebro a descer a sua frequência ao nível teta, produzindo um relaxamento profundo e melhorando várias funções mentais, podendo ter momentos de frequência delta, que facilita o desenvolvimento da criatividade.

Como Praticar a Meditação Relaxante

Procure estar confortavelmente sentado, com a coluna em ângulo de 90 graus; pratique três incursões respiratórias profundas, prendendo o ar por alguns segundos e então espirando com os lábios entreabertos, como se assobiasse; reduza agora a sua respiração suavemente, ao nível da necessidade da manutenção da vida.
Esvazie a sua mente de qualquer pensamento, não se preocupando com nada; feche os olhos e se mantenha com a respiração suave e a mente vazia. Se algum pensamento vier à sua mente, desligue-o e retorne à mente vazia, apenas ao sentar quieto. Se mantenha assim por 10 minutos, por 20, por 30, por 40, por 50 minutos. Depois deste tempo, restabeleça a sua respiração ao nível normal, abra os olhos, se movimente, e cultive um pensamento de gratidão à vida, por poder ter meditado.
À medida que você se habituar com a prática da meditação, você fará a meditação com mais facilidade e logo cedo começará a perceber a melhora no seu bem estar pessoal.

Referências Bibliográficas:
Existem muitas publicações sobre meditação, mas o modelo exposto acima faz parte da minha experiência de vida e é usado nas comunidades das quais tenho participado. Pode-se ler também  Ned Hermann The Creative Brain – 1982  Dyamond, A.L. – The principle of the Dominants and Hemisphere Interaction.

domingo, 19 de janeiro de 2014

Diabos, Demônios, Satanás e a Palavra de Deus


Bispo Felismar Manoel (1)



"Sede fortalecidos no Senhor e na força do seu poder.
Revesti-vos de toda armadura de Deus, para poderdes ficar firmes contra as ciladas do Diabo;
porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes.
Portanto, tomai toda armadura de Deus, para que possais resistir no dia mau e, depois de terdes vencido tudo, permanecer inabaláveis.
Estais, pois firmes, cingindo-vos com a verdade e vestindo-vos da couraça da justiça.
Calçai os pés com a preparação do Evangelho da Paz;
embraçando sempre o escudo da fé, com o qual podereis apagar todos os dardos inflamados do Maligno.
Tomai também o capacete da salvação e a Espada do Espírito, que é a Palavra de Deus;
com toda oração e súplica, orando em todo tempo no Espírito e para isto vigiando com toda perseverança e súplica por todos os santos
e também por mim; para que me seja dada, no abrir da minha boca, a palavra, para, com intrepidez, fazer conhecido o mistério do evangelho,
pelo qual sou embaixador em cadeias, para que, em Cristo, eu seja ousado para falar, como me cumpre fazê-lo".

Paulo aos Efésios 6: 10-20.



Nos dias de hoje, se usa como sinônimos, as palavras diabos, demônios e satanás. Nas diversas versões da Bíblia, por vezes, os três vocábulos são usados se referindo ao espírito maligno, se referindo a satanás. É verdade que satanás sempre procura tirar proveito das situações onde se fazem presentes as ações dos diabos e dos demônios; entretanto, existem algumas diferenças entre esses dois conceitos.

Inicialmente vamos definir cada conceito a partir das suas origens na língua grega:

 diabolês, diabo em português; é um substantivo feminino, que expressa vários sentidos, como... desavença e inimizade; aversão e repugnância; medo e temor; acusação; calúnia.
Nos textos bíblicos é geralmente apresentado como um ente do mal que faz o "jogo ao contrário" do bem da pessoa, é um inimigo da salvação, é um caluniador.
Resumindo: Diabo é o que joga contra o nosso bem, valendo-se das nossas tendências naturais.

daimonion, demônio em português; é um substantivo neutro, que expressa os sentidos de divindade e poder divino; gênio, fantasma e espírito; fado, destino; mau espírito;
Nos textos bíblicos geralmente expressa o sentido de um ente espiritual que perturba a ordem da salvação em Cristo;
Resumindo: Demônio é um espírito desencarnado que tem afinidade com algum dos nossos modos de ser.

ãsatanaz, satanás em português; refere-se ao espírito do mal, o anjo decaído, que popularmente se denomina capeta, o ente espiritual opositor da salvação operada por Jesus Cristo, o Filho de Deus.
Resumindo: Satanás é o espírito do mal inimigo de Cristo e da nossa salvação.

Os demônios

O que se entende por demônios nas literaturas antigas, de um modo bem generalizado? Quando se fala em demônios está se referindo a espíritos desencarnados, podendo ser os elementais da natureza, ou os espíritos humanos.

Demônios como espíritos (elementais) da natureza

Os espíritos elementais da natureza são infra-humanos, ou seja, nunca foram humanos, portanto podem ser os elementais da água (ninfas e ondinas); os elementais da terra (gnomos e pigmeus); os elementais do fogo (salamandras); ou os elementais do ar (sílfides); todos estes elementais sendo considerados como componentes dinâmicos não materiais, criados pelo Autor da Vida para fazer funcionar cada componente da natureza, considerando a natureza também uma das criaturas de Deus.
Algumas culturas antigas e outras dos dias de hoje, acreditam que esses elementais assumem funções de gênios, sendo responsáveis por certos comportamentos humanos; estes elementais se personalizam na individualidade dos seres humanos, para acerbar certos tendências da pessoa; como exemplos pode-se citar os arquétipos de íncubos e súcubos das mitologias antigas, que se tornam os responsáveis pelos comportamentos homossexuais passivos e ativos, de forma desregrada. Outras culturas consideram estes elementais como divindades, a quem atribuem certas tarefas no governo da natureza e que podem individualizar-se nas relações com algumas pessoas, tornando-se seus principais protetores; como exemplos temos os arquétipos dos diferentes orixás nas culturas africanas, principalmente na cultura iorubá.

Demônios como espíritos humanos desencarnados

Entende-se também por demônios, os espíritos desencarnados que se manifestam como inteligências humanas extracorpóreas, incluindo aí as almas dos mortos, ou qualquer outra sorte de espíritos, sejam considerados bons ou maus pelos diferentes grupos de culturas humanas.

Nos escritos antigos fala-se de "bons demônios" e "maus demônios", podendo ser "divindades" ou "gênios", responsáveis por influenciarem ou produzirem induções comportamentais nos seres humanos encarnados, ou nos fenômenos naturais. Esses demônios interagem conosco, a partir de afinidades com alguns aspectos de afirmação dos nossos egos pessoais, ou por afinidades com algumas de nossas tendências.
É interessante notar que o Evangelho Alforriador de Jesus Cristo confere aos discípulos de Cristo, poder sobre todos os tipos de demônios.

Relações entre os humanos e os espíritos

Querer negar as possibilidades de influenciação recíproca entre seres humanos encarnados e espíritos desencarnados é uma bobagem, pois a vida nas diversas igrejas e outras instituições religiosas, provam essas inter-influenciações, na maioria das vezes prejudiciais a maturidade espiritual da pessoa e à sua libertação e crescimento espiritual em Cristo.
Nos relatos bíblicos do Velho Testamento é proibido a busca de dialogo com os espíritos dos "mortos" pelos humanos vivos na carne, e não encontramos no Novo Testamento, nenhuma autorização para organizar uma forma cultual de consulta aos espíritos dos mortos.

Assistência espiritual dos cristãos

O evangelho de Jesus nos traz a promessa de Jesus Cristo, de não nos deixar na orfandade da sua presença, pois que o Espírito Santo faria esta função de Paracleto (Assistente) para nos orientar em todas as coisas. Graças a Deus isto aconteceu ao completar os dez dias após a ascensão de Jesus Cristo aos céus, quando ele enviou o Espirito Santo sobre seus discípulos reunidos em Jerusalém; enquanto comunidades eclesiais, temos sido amparados e orientados pelo Espírito Divino em todas as regiões do planeta onde existe a presença da Igreja de Cristo, desde aquele Pentecostes memorável dez dias após a Ascensão de Cristo aos céus, não tendo necessidade nenhum cristão, em qualquer lugar, de consultar espíritos de mortos sobre as questões da vida.

Como pode um demônio nos influenciar?

Para esclarecer este assunto com mais propriedade, acho conveniente refletir um pouco sobre a formação do sistema neurológico do ser humano. O nosso sistema neural é composto por três complexos blocos, sendo cada um desses blocos construídos por Deus ao criar certos grupos de animais que formam o filo dos vertebrados (animais que tem ossos).
O primeiro bloco é comum também aos peixes, anfíbios e répteis; o segundo sobreposto ao primeiro, é comum nos mamíferos; e o terceiro sobreposto aos outros dois, é comum nos macacos, apresenta vestígios de sua existência nos fósseis dos hominidas extintos, e também está presente nos humanos.
Temos uma estrutura neural complexa, cuja função principal é nos adaptar ao meio onde vivemos; o cérebro faz trocas constantes de informações entre o meio ambiente e os comandos de como agir no meio onde se vive.

Como o cérebro funciona?

A célula básica funcional do cérebro é chamada de neurônio. Trata-se de uma célula animal especializada em transmitir informações através de baixas correntes elétricas, que faz a liberação de substâncias bioquímicas no terminal do neurônio, e que é captada por outro neurônio, propagando assim a informação; dependendo do tipo da substância química produzida, poderá manter a informação inicial, poderá inibir a informação inicial, ou moderar a informação recebida.

Cada comportamento humano, tanto no plano dos pensamentos, das emoções, dos sentimentos, dos afetos, das funções corporais, ou das ações socioculturais, envolvem um determinado número de neurônios, formando portanto o conjunto de neurônios envolvidos, um padrão neural comportamental.
Este conjunto de neurônios com atividades afins, funciona por meio de fluxos elétricos e ações bioquímicas e recebe o nome de "engrama neural comportamental", produzindo nas áreas cerebrais diversificados "campos eletromagnéticos" e vibrações em variadas frequências, podendo portanto, ser compreendidas, quer em comprimento de ondas, quer em frequências em Hertz (unidades de medidas).

Como ocorrem as interações entre espíritos e pessoas

As afinidades entre inteligências extracorpóreas (espíritos desencarnados) e inteligências endo-corpóreas (espíritos encarnados, os seres humanos), se fazem pela sintonia das vibrações frequênciais de cada um de nós (sintonia é vibrar na mesma faixa) com o determinado espírito.
Aquilo que somos de fato, em segredo, na nossa intimidade mais séria, influenciados pelos nossos desejos mais íntimos (mesmo que sejam ocultos), pelos nossos pensamentos, pelas nossas emoções, pelos nossos afetos e sentimentos, movimentam as nossas trocas entre neurônios e produzem os nossos campos eletromagnéticos, sobre os quais agem os espíritos desencarnados, em consequência das afinidades com essas nossas idiossincrasias (nossas subjetividades individuais, nosso jeito de ser), produzindo as suas interferências em nossas vidas (perturbação, encosto espiritual, indução espiritual ruim, obsessão espiritual).

O ministério dos anjos de Deus

O ministério dos anjos de Deus ajudam os seres humanos que creem em Deus e cultivam o seu amor e reverência; mas as vezes nós humanos insistimos nos mesmos comportamentos, buscando a afirmação e satisfação dos nossos egos animais socioculturais, e colocando em segundo plano o ideal de construção do self espiritual cristão segundo o modelo de Cristo, facilitando, pelo mau uso do nosso livre arbítrio, as interferências espirituais nefastas a nossa espiritualidade em Cristo, conforme propõe o seu evangelho alforriador.

Dos espíritos verdadeiramente bons

Existem legiões de espíritos que compõem as testemunhas de Cristo, e estes se conjugam com os planos espirituais dos anjos de Deus em seu ministério a favor dos seres humanos.

Não faz parte do ministério dos anjos ajudar os humanos a organizar culto aos próprios anjos, culto aos espíritos, culto às almas dos mortos, culto aos santos, culto aos gênios, culto às divindades, culto aos demônios, culto a satanás; só existe como legítimo o culto de adoração, amor, serviço e reverência a Deus nas pessoas do Pai, do Cristo Filho e do Espírito Santo. O ministério dos anjos é constituído a favor dos humanos na sua relação com Deus em Cristo, conforme os planos de salvação oferecidos pelo Filho de Deus.

Na ordem angelical existe uma verdadeira hierarquia espiritual envolvida nos cumprimentos dos propósitos de Deus, tendo em ordem a criação, a manutenção, o funcionamento e a realização do propósito do universo. O nosso papel como cristãos é formar o Corpo de Cristo, pelo poder que ele concedeu de nos tornarmos filhos de Deus, construindo aqui na terra o seu Abençoado Reino, agindo como operários de sua messe, mas de acordo com o evangelho do reino, aguardando o dia nos fins dos séculos, quando ele virá para restaurar todas as coisas e assumir o seu Trono de Rei do Universo.

Afinal, como se discriminam os diabos, os demônios e satanás?

Para discernir este assunto à luz dos evangelhos de Jesus, vamos tomar o texto que relata as tentações de Jesus Cristo no deserto, logo após o seu batismo. A narrativa encontra-se em Mateus 4: 1-11; Marcos 1 :12-13; Lucas 4: 1-13. Estou tomando o texto de Mateus:

"Após sair das águas do batismo, foi Jesus levado pelo Espírito Santo ao deserto, para ser tentado pelo diabo.
E, depois de jejuar quarenta dias e quarenta noites, teve fome.
Então, o tentador, aproximando-se, lhe disse: Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães.
Jesus, porém, respondeu: Está escrito:
Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus.
Então, o diabo o levou à Cidade Santa, colocou-o sobre o pináculo do templo e lhe disse:
Se és o Filho de Deus, atira-te abaixo, porque está escrito:
Aos seus Anjos ordenará a teu respeito que te guardem;
e: Eles te susterão nas mãos, para não tropeçares nalguma pedra.
Respondeu-lhe Jesus: Também está escrito:
Não tentarás o Senhor, teu Deus.
Levou-o ainda o diabo a um monte muito alto, mostrou-lhe todos os reinos do mundo e a glória deles e lhe disse:
Todo isto te darei se, prostrado me adorares.
Então, Jesus lhe ordenou: Retira-te, satanás, porque está escrito:
Ao Senhor, teu Deus, adorarás, e só a ele darás culto.
Com isto, o deixou-o o diabo, e eis que vieram anjos e o serviram".

Tentação do diabo

O diabo age geralmente a partir de nossas pulsões do ego, valendo-se dos elementos habituais de contentamento da pessoa, mas que postos em prática contribuem contra os propósitos dos planos de salvação, ou que constitui um empecilho para a realização do self individual idealizado (é a vida segundo o modelo de Cristo).
O diabo poderá ser um ente elemental da natureza, que semeia em nossa consciência e nossos pensamentos, ideias falsas ou ímpetos naturais que contrariam os nossos propósitos de progresso pessoal. O diabo tem muita relação de afinidade com os nossos desejos da carne, com as nossas pulsões do ego, com as nossas tendências pessoais.
No texto exposto acima da narrativa evangélica, vemos que o tentador usou a pulsão da fome de Jesus, na intenção de levá-lo a romper com o seu propósito salvacional; tentou corromper os seus ideais divinos e transformar Jesus em um grande taumaturgo humano (ser humano que produz fatos maravilhosos), usando dos seus poderes de Ungido de Deus de modo errôneo. Se isto acontecesse seria um desvio de rota dos propósitos estabelecidos pelo Pai.
Vemos que nesse episódio, o diabo ousou usar até mesmo os textos das Escrituras Sagradas na tentativa de induzir ao erro o Filho de Deus feito Homem, com certeza sendo manipulado por satanás; entretanto, percebemos que Jesus usou com autoridade a Palavra de Deus para reagir contra as tentações do maligno.

Tentação dos demônios

Embora os diabos possam ser enquadrados no rol das tentações demoníacas, posto que se classificam também como entes espirituais desencarnados, há uma certa propriedade diferenciadora nos demônios, como espíritos humanos desencarnados que que tem certas afinidades com a pessoa:
  • poderá ter afinidades com os seus pensamentos e ideias, se situando no terreno das ideologias cultivadas, atendendo aos desejos do seu ponto de vista pessoal;
  • poderá se manifestar induzindo o ser humano nas suas justificativas pessoais, nos seus mecanismos de defesa, levando quase sempre a justificar os seus pontos de vistas;
  • as pessoas sob influências dos demônios, enquanto espíritos humanos desencarnados, quase sempre afirmam as suas posturas como próprias, tendo dificuldade para perceber que existem outros espíritos se alimentando das emoções que seu estilo pessoal possibilita para ambos.
Há uma necessidade destas pessoas se submeterem às autoridades pastorais e de direção espiritual, quando do tratamento para se libertarem, necessitando de jejuns, orações e reflexões assistidas pastoralmente sobre a palavra de Deus. Jesus Cristo conferiu poder aos seus discípulos contra todas as classes de demônios.

As investidas e o proveito tirado por satanás contra nós

Satanás é o agente do mal por excelência; é a figura mitológica utilizada para incorporar o papel dos anjos decaídos, que foram expulsos do céus da habitação divina e se tornou o inimigo dos propósitos da Santíssima Trindade, de salvar os seres humanos de boa vontade. Geralmente este espírito do mal tira proveito da invigilância do crente e da sua vida fora da santidade, em desacordo com o que Jesus Cristo propôs. Satanás induz toda as classes de demônios que se desalinham do ministério do anjos de Deus, exercendo sobre eles verdadeiro domínio em prejuízo da nossa verdadeira espiritualização em Cristo.
No texto exposto, sobre as tentações de Jesus Cristo, satanás usou de poderes de projeção da consciência extracorpórea, levando Jesus a uma altíssima montanha de onde fosse possível ver todos os reinos do mundo submetidos a satanás; de modo muito descarado, propôs dar tudo a Jesus se ele prostrado por terra o adorasse. Que petulância! Satanás propôs dar-lhe os seus reinos de submissão, logo a Jesus de Nazaré, a encarnação do Cristo Filho de Deus, portanto, o Rei de Todo o Universo. Jesus o derrotou usando a Espada do Espírito, a Palavra de Deus e o exorcizou para o seu próprio lugar.

Proveitos espirituais para nós a partir destas reflexões

O cristão não deve se submeter a nenhuma outra orientação divergente do evangelho. A bitola que orienta a nossa espiritualidade, a nossa própria vida, é aquela que está contida nos evangelhos, pois ela é procedente dos ensinamentos de Jesus de Nazaré, a encarnação do Filho de Deus. Jesus Cristo constitui o Embaixador do Céu, que veio à Terra para cuidar aqui dos interesses do Povo de Deus. João (3: 16), seu discípulo amado, registrou que ele veio para atender o amor do Pai pelo mundo, a fim de que, todo aquele que nele crer, não experimente a morte espiritual, mas possua a vida eterna.
Após este grande movimento da Santíssima Trindade a nosso favor, não temos o direito de negligenciar os ensinamentos de Jesus Cristo, em favor das mensagens truncadas apresentadas por diferentes visões e aparições, ou outras comunicações de espíritos que se dizem bons, santos, ou celestes, quando suas mensagens apresentarem outras ideias e doutrinas diversas do evangelho.
Na sua Primeira Carta, João (4: 1-6) orienta a fazer provas aos espíritos, dizendo que todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus; por outro lado ele afirma que, todo espírito que não confessa Jesus Cristo, não procede de Deus. Paulo também admoesta que, qualquer espírito que apresentar um evangelho diferente do evangelho de Jesus Cristo, deve ser exorcizado, pois neste caso ele não procede da parte de Deus (Gálatas 1:8).
Do ponto de vista individual o cristão deve ser cuidadoso e ter sempre presente que todas as suas pulsões carnais, tendências, desejos, caprichos, muito impositivos e descontrolados, podem estar atendendo a entes diabólicos da própria natureza; da mesma maneira, as ideias arraigadas, as ideologias exclusivistas e sem diálogos, os preconceitos, a intolerância com os diferentes, podem ser fontes de aprisionamento aos demônios com os quais podem ter afinidades diversas. É preciso cuidado, pois todos esses tipos de demônios são alvos fáceis para as manobras de satanás, para afastar o cristão da harmonia e comunhão com os membros da comunidade eclesial.
Cada cristão crente fiel, batizado em Cristo e no Espírito Santo é membro do Corpo de Cristo, constituindo o Povo de Deus na terra e participando da comunhão que há em Cristo e todos os santos, mantida e celebrada nos encontros cultuais de adoração a Deus nos templos. Satanás tem um profundo interesse em quebrar estes elos de verdadeira comunhão entre o Povo de Deus, afastando os membros do amor recíproco e da verdadeira comunhão que há entre Deus e seu povo reunido no amor de Cristo. Ore, jejue, estude a palavra de Deus, peça orientação aos pastores e diretores espirituais. A Segunda Carta de Pedro (5:8) inspira uma advertência aos irmãos, nas Orações das Completas no Diurnal Brasiliense: "irmãos sede sóbrios e vigiai, porque vosso adversário, o demônio, anda ao redor de vós, como um leão que ruge, procurando a quem devorar. Resisti-lhe, firmes na fé, sabendo que os vossos irmãos espalhados pelo mundo, sofrem as mesmas coisas". Mas Jesus Cristo já venceu esta luta por nós. Confiemos e vigiemos.



Referências Bibliográficas

Bíblia Sagrada, Almeida Revista e Atualizada no Brasil, Sociedade Bíblica do Brasil, Barueri, São Paulo, 2009.

Dicionário Grego-Português e Português-Grego, Isidro Pereira, S. J. 5ª edição, Porto, Portugal, 1976.

Diurnal Brasiliense, Oficio de Completas. Manual de Oficio Divino do Catolicismo Salomonita, Caxias, Rio de Janeiro, Versão 2010.

Memorial de Antigas Culturas e Civilizações, Os Costumes dos Povos Antigos, Fontes Diversas em Latim, Grego, Francês e Espanhol. (Registros Pessoais Coletados de 1959 a 1972).






(1) - Professor Mestre Adjunto I da UNIGRANRIO; Doutor em Filosofia da Religião - SETESA/Não Capes; Mestre em Ciências da Motricidade Humana - UCB/Capes; Formação em Psicanálise Clínica - SFPC; Formação em Psicomotricidade Sistêmica - CEC; Formador-Didata em Terapia Psicomotora Analítico Clínica - TEPAC do CEBRASC; Especialista em Docência Superior - IBMR; Bacharel em Fisioterapia - IBMR; Bacharel em Filosofia - SETESA; Bacharel em Teologia - SETESA; Bispo Primaz do Catolicismo Evangélico Salomonita - ICAI-TS.

sábado, 4 de janeiro de 2014

Meditação e Saúde

Prof. Dr. Felismar Manoel (1)



Introdução


Infelizmente, no Brasil urbano mais que no Brasil rural, a meditação é vista sob um olhar preconceituoso, ou como coisa de pessoas extravagantes, párias, "matusquelas", tipos "estranhos no ninho"; e isto é uma pena, pois a meditação exerce ação fisiológica altamente significativa à saúde das pessoas.

Tenho convivência com a meditação indígena desde minha infância, junto aos nativos puris de terceira e quarta geração, já acostumados com a cultura dos colonizadores, mas que tiveram o cuidado de não abandonarem aquilo que lhes constituía um patrimônio próprio, nas regiões da zona da mata mineira, mais precisamente nas cercanias de Cruzeiro, no Município de Guiricema.

No ambiente do Catolicismo de Roma aprendi a meditação em temas religiosos e percebi que também esta modalidade produz os mesmos efeitos fisiológicos; quando me transferí para o Catolicismo Salomonita aprendi a meditação como método de obtenção da sinesis, para aprofundamento em questões de espiritualidade, tanto a nível individual, quanto grupal.

Foi nas comunidades esotéricas, tanto ocidentais quanto orientais, que aprendi de modo mais estruturado a meditação, e nestes ambientes, como forma de promoção e tratamento da saúde, visando a vida em plenitude; não a plenitude da eubiótica (dinâmica da vida perfeita idealizada), mas a plenitude da calibiótica (dinâmica da vida de boa qualidade que está ao nosso alcance). O treinamento do Qi Gong Taoista, na esfera da medicina chinesa, trouxe muito enriquecimento na minha prática da meditação.

Neste ensaio, não pretendo um recorte acadêmico rigoroso, que agrade aos paladinos do cartesianismo, pretendo apenas expor, para os leitores de boa vontade a simplicidade da prática da meditação diária, mostrando em linguagem simples os benefícios que ela nos traz.

A Meditação na Cultura Indígena


Sou herdeiro da cultura indígena puri de terceira geração, que convivia, compartilhava e servia aos fazendeiros italianos, e portanto, mesclada de valores dos colonizadores e circunstâncias do meio ambiente. Meus bisavós eram, Indira Puri, das margens do rio pombo, casada com Tongo Mina, africano que vivia naquela região mineira; deles surgiu em primeira geração a minha avó Maria Graciana, que casou com Juaquim Soares de Souza Lima, um português de Coimbra; desse casamento surgiu, na segunda geração, a minha mãe Maria Soares que casou com Felício Manoel Julinho, descendente de família italiana; dessa união matrimonial surgiu a terceira geração, na qual eu me incluo entre mais quatorze irmãos.

Nasci e cresci no meio rural em contato com os povos nativos da região, sendo todos vulgarmente chamados de puri, em consequência de ser a região de ocupação dos índios com esse nome. Desde criança, ao contrario de meus irmãos, tive interesse pela tradição cultural dos povos, o que me fez aproximar da vida clerical com a Igreja de Roma, único meio de expressão cultural formativo na região. Infelizmente discordei das orientações de Roma e me transferi para o Catolicismo Salomonita, onde consolidei minha formação, mais compatível com os ensinamentos dos evangelhos de Jesus de Nazaré, para mim a bússola segura para um mundo melhor e uma espiritualidade perfeita.

Foi no ambiente da cultura puri que aprendi a meditar desde criança. A meditação indígena utiliza-se como primeiro método para a meditação, o emprego dos sons de tambores e de flautas de taquaras, acompanhados da emissão de palavras sagradas; o seu objetivo é a expansão da consciência para a percepção de circunstâncias especiais que necessitam de orientações também especiais. Este estado de consciência expandida permite uma expressiva sensação de paz, de alargamento da compreensão e de bem estar geral.

Os povos puris utilizam também de outras técnicas para a prática da meditação, como a do fogo sagrado, as das fontes das águas, do inebriar dos vegetais e da própria revolução do tempo nas tempestades; entretanto, estes são detalhes que não nos interessa expor aqui.

Diferentes universidades e grupos culturais se voltam para o estudo e a prática desta herança indígena da meditação. Na USP existe um movimento na Escola de Saúde Pública, através de um antropólogo psicanalista, que está associando a prática da meditação com a promoção da saúde e a prevenção de enfermidades; existe também em São Paulo o Grupo da Plena Atenção usando as técnicas de meditação inspirada na cultura indígena; também em Amazonas movimento semelhante tem acontecido; na Austrália, uma faculdade criou o Centro Cultural Indígena e de Meditação, no qual está aliando a meditação a uma formação de cultura ecológica.

A meditação usada na cultura indígena é parte de seu patrimônio de recursos técnicos culturais para resolver problemas de ordem prática na comunidade, tratamento de desequilíbrios e promoção do bem estar da população.


A Meditação nos Ambientes Esotéricos


Existe algum preconceito social e religioso por parte das massas urbanas, com relação ao conceito de esotérico; e é uma pena, pois se trata de um afastamento por questões de ignorância do que seja o esoterismo.

Quando se fala em esoterismo, está se referindo a um sistema de semiótica na área da comunicação. Um bom exemplo desse sistema, é o conjunto de sinais que se usa no trânsito para orientar os condutores de veículos; estes devem saber que atitude tomar naqueles espaços onde está o indicativo do sinal de trânsito. Trata-se de um sistema esotérico, pois só os que conhecem aquela mensagem da placa de trânsito, sabem interpretar qual a conduta que se cobra do condutor de veículos para aquela área demarcada. No sistema esotérico utiliza-se também o exotérico, entendendo-se com esta palavra, tudo aquilo que é dito e que está no nível de compreensão de todos presentes, a nível de massa cultural.

Os mosteiros, escolas, centros e também os templos esotéricos, utilizam um processo semelhante ao dos condutores de veículos automotores, para transmitir os ensinamentos esotéricos, aqueles conteúdos que exigem um nível de cognição mais abstrata e simbólica.

Estes espaços se dedicam a preparar pessoas de boa vontade, que querem se dedicar a construir um mundo mais compreensivo e capaz de ajudar a manifestação e fluxo da vida, em paz, em fraternidade, em cidadania, em solidariedade. Estes espaços são formados cultural e tecnicamente, nas áreas da saúde, da educação, da espiritualidade, da convivência, da filosofia, da religião, e é um sistema que está aberto a qualquer grupo humano. Trata-se de um sistema que vai treinar pessoas e capacitá-las para levar os seus préstimos e ação colaborativa sempre que elas se fizerem necessários, sem se importar se o ser assistido compreende intrinsecamente o que ele está fazendo. Por isso vale-se de sinais, figuras, símbolos, monumentos, anagramas, ou quaisquer outros recursos de semiótica, que ao ser visto por quem foi treinado, vai saber como se comportar, ou o que fazer naquelas circunstâncias surgidas, para gerar um bem geral, ou maior.

Na grande maioria das vezes, o treinamento para se obter uma atitude de paz, de tranquilidade, de vida plena, começa com o ato da imaginação, fortalecido pela reta intenção e desejo de fazer o bem, que irá gerar o estado de bem que se procura. O sistema esotérico é interessante, porque cada pessoa que o aprende e apreende, vai usá-lo de acordo com o seu arsenal potencial, podendo, portanto se adequar a qualquer pessoa capacitada, bastando inicialmente ter boa vontade e uma vida virtuosa, podendo ser aplicado em qualquer circunstância.

Infelizmente, nos dias de hoje, a meditação está virando mais uma mercadoria em nossa sociedade neoliberal consumista. Existem pessoas que transformam as instruções em "pacotes de informações" para venda, sem se importar com o acompanhamento e assistência, para que o seu exercício seja ético, dirigido por um aceitável padrão de vida comportamental, cidadania e moralidade. A comercialização faz correr o risco da perda de garantia destas qualidades. Fiquem vigilantes.


Fundamentos Científicos da Meditação


Os avanços das neurociências na época atual, tem permitido alargar o nosso conhecimento sobre o cérebro e as atividades cerebrais. Sabemos que as atividades do cérebro emitem ondas que podem ser medidas, e geralmente essas medições orientam intervenções profissionais, tanto na saúde quanto na educação.

Normalmente se considera quatro tipos de ondas, pela ordem das atividades, se classificando como segue:

* A onda beta: com frequência de 14 a 30 ciclos por segundo, é aquela das nossas atividades de pensamento conceitual, do nosso dia a dia;

* A onda alfa : com frequência de 08 a 13 ciclos por segundo, é aquela do relaxamento profundo, em alerta, com mente e pensamento esvaziado ao máximo possível;

* A onda theta : com frequência de 04 a 07 ciclos por segundo, é aquela do sono com sonhos (com movimento dos olhos);

* A onda delta : com frequência de 0,5 a 03 ciclos por segundo, é aquela do sono profundo sem sonhos (sem movimento dos olhos).

A prática da meditação no interesse da saúde , bem estar e qualidade de vida, se situa no nível da onda alfa, sendo em torno dela que vou fazer algumas reflexões.

Hemisférios Cerebrais Especializados

Inicialmente vamos desfazer uma confusão frequente nos ambientes de saúde e educação, no que consiste às ideias de "dominância hemisférica" e "lateralidade funcional corporal".

O neocórtex, quer dizer o cérebro dos primatas humanos é dividido em duas metades bastante parecidas denominadas de "hemisférios", e de um modo bem generalizado, se considera que o hemisfério dominante é aquele que controla a linguagem humana. Sabe-se que a maioria das pessoas tem o controle da linguagem fonética no hemisfério esquerdo.

A situação não é tão simples, pois sabe-se que a fala humana é acompanhada das inflexões, que comportam aspectos emocionais, afetivos, racionais, entre outros. Na prática, observa-se pessoas com certas características comportamentais que as distinguem de outras, como tendência para as ciências logico-matemáticas, enquanto outras se distinguem por uma tendência mais aberta às coisas do universo como um todo, por uma característica mais panorâmica da vida. Quando se observa estas distinções, está se cogitando de hemisfério dominante; aqui neste ensaio não interessa ter domínio desse assunto, precisa-se saber apenas que qualquer um de nós tem um hemisfério cerebral dominante.

Com relação a lateralidade funcional corporal, que muito se confunde com hemisfericidade dominante, refere-se ao predomínio de iniciativas e controle de execução de atividades corporais, que se iniciam pelo lado direito, ou pelo lado esquerdo, em qualquer um de nós. Estes estudos são aprofundados em psiconeuromiocinética, ou psicomotricidade.

Para nosso raciocínio sobre a meditação, precisamos saber que, qualquer um de nós sempre teremos nossas ações iniciadas predominantemente sob o comando de um hemisfério cerebral, mas que sempre funcionará envolvendo todos as áreas cerebrais, e portanto, também o outro hemisfério contra lateral estará em atividade.

A Sincronização da Frequência Alfa (a)

Quando uma pessoa começa o exercício da meditação, ela estará começando sua atividade cerebral a partir do seu hemisfério dominante; ela estará em uma disciplina de controle respiratório, postura, atenção, intenção, imaginação e tudo isto aliado a consciência corporal e do ser. A busca pacífica desse estado, leva o seu hemisfério dominante a entrar na frequência alfa; ao insistir na continuidade do treinamento, o outro hemisfério cerebral também passa para a frequência alfa de modo sincronizado.

Efeitos Fisiológicos Observados

Quando se consegue a sincronização alfa observa-se o relaxamento corporal profundo, em consequência das mudanças bioquímicas produzidas corporalmente na pessoa:

Diminuição da adrenalina circulante; diminuição do cortisol; redução da ansiedade e do estresse; sensação de bem estar e paz; melhora da cognição; entre outros.

Quando a meditação torna-se uma disciplina diária, em ambiente adequado, tempo adequado, controle adequado, poderá baixar os níveis de frequências em direção a delta (d), favorecendo o desenvolvimento da criatividade.

As meditações temáticas, objetivando a obtenção da sínesis (sintonia com conhecimentos), requer direcionamento e assistência de alguém treinado e responsável. Elas são praticadas nos mosteiros e centros de pesquisas em saúde e educação em várias partes do mundo.

A Meditação na Saúde e Educação

A meditação poderá ser praticada em busca do equilíbrio da atenção, da cognição, da conação (esforço consciente, formação da vontade e da atenção) e da afetividade.

Com sua prática geralmente se obtém melhoras na concentração e no relaxamento, no controle dos sentimentos, na quietude mental, na criatividade, na paciência e no equilíbrio pessoal.
Na saúde a meditação produz sensação de bem estar, regulação do sistema imunológico, regulação hormonal para o controle do estado de alerta, do estresse e da ansiedade.

A meditação tem sido indicada para o controle da depressão, da hipertensão arterial, da hiperatividade, dos transtornos alimentares, dos transtornos do sono e da bipolaridade.

Referências Bibliográficas


Manoel, Felismar. Apostilas de Meditação Vitalizante. Rio de Janeiro: Centro Brasileiro de Calibiótica, 2011

Manoel Felismar. Treinamento da Energia Vital. Rio de Janeiro: Centro Brasileiro de Calibiótica, 2008

Manoel, Felismar. Apontamentos de Psiconeuroimunologia para Sala de Aula. Rio de Janeiro: Centro Brasileiro de Calibiótica, 2006

Yu, Lu K'uan (Luk, Charles). Yoga Taoista - Alquimia e Inmortalidad. Madrid: Altalena, 1982

Zohar, Danah. O Ser Quântico. Rio de Janeiro: Best Seller, 2012

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