quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

3 - Memórias Pury – Gemúmae Pury - Pai Nosso Pury – Pantxarré Pury

 

Lembranças de minha aldeia rural / Gemúnae unhúm birruã ambó-goára (gaambó-goára).


Memórias da Aldeia Rural Pury de Fazenda dos Gregórios em Cruzeiro, Distrito de Tuiuitinga(**), Município de Guiricema, Zona da Mata, Estado de Minas Gerais, Brasil.


por Nhãmãnrure Stxutér Pury (*)

(Felismar Manoel)


(*) O texto pury está escrito conforme a pronúncia percebida, usando os recursos do português brasileiro; (**) O povo pury pronuncia TUIUITINGA (tuiu ou tuim = periquito - pássaro verde - , e itinga = lugar preferido por esses pássaros.



Pai Nosso na versão pury – Pantxarré Pury – Uma apropriação adaptativa das ideias cristãs populares pelos puris de segunda e terceira geração.



1.0 - Uma observação preliminar – Minha bisavó era gente originária da floresta, conhecida entre seu povo pelo nome de Perruã, que foi capturada pelos brancos invasores na infância, por fazendeiros portugueses nas florestas das margens do Rio Pombos, sendo batizada por seus algozes com um nome cristão, que ela nunca aceitou, passando a se identificar como Indira Pury, por observar que havia certo fascínio das gentes da fazenda por esse nome (de origem indiana creio), que traz o significado da beleza da água da chuva; ao atingir a puberdade foi dada em união ao escravo africano da fazenda, que também não aceitara seu nome cristão imposto pelo batismo, e referia a si próprio como Tongo Mina, tongo com o significado de homem honrado entre seu povo étnico mina da África.


1.1 - Com a libertação dos escravos, saíram dos domínios da fazenda de seus algozes, e moraram inicialmente nas cercanias do lugarejo chamado cidade de Pombas atualmente; dessa união o casal teve três filhos, surgindo a primeira geração pury da minha linhagem de ascendentes: Deco Pury, Maria Graciana (minha avó materna) e Juca Pury, todos sendo batizados no catolicismo da época, sendo criados entre duas posições culturais em conflito: uma cultura católica portuguesa brasileira que falava de bondade, mas que agia de modo desrespeitoso e descaridoso para com os povos originários das florestas e com os escravos e seus descendentes, e por outro lado, não tinha facilidades de praticar os valores étnicos e culturais, nem dos povos das florestas, nem dos povos africanos. Suas culturas étnicas eram sufocadas por estratégias dos invasores brancos, com respaldo do clero do catolicismo romano, que viviam à sombra dos poderosos poderes políticos e econômicos dos invasores dominadores.


1.2 - A minha vó materna Maria Graciana casou com um cidadão português de nome Juaquim Soares de Souza (Lima) – este se apaixonara pela medicina natural pury e se tornou homeopata pury sistematizando o seu repertório homeopático – e dessa união surgiu a segunda geração pury de minha ascendência, por seus filhos: Sonito Soares, Elmira Soares, Carolina Soares, Salvina Soares, Maria Soares (minha mãe) e Arquimedes Soares; esta segunda geração pury passou por uma educação e instrução piedosa, reverente aos valores espirituais, mas nefasta, pois negava valores e altaneiridade aos conteúdos do povo pury, considerando-os pessoas inferiores, simplistas e bobas, negando condições de sua manutenção e continuidade enquanto sujeitos étnicos, inclusive com denodado esforço de apagamento de seus falares e modos de vida.


1.3 - Minha mãe, Maria Soares , uma pury de segunda geração, portanto, teve seu primeiro casamento, e dele teve quatro filhos: Onesta, Nair, Omiro e Carlita, ficando viúva ainda jovem, casando-se em segundas núpcias com meu pai, Felicio Manoel Julinho, descendente de troncos italianos, (também viúvo com cinco filhos: Maria, Luzia, Alverina, Alvenira e José) e dessa segunda união nascendo mais seis filhos: Messias José, Joaquim, João, Edes, Felismar (eu) e Sudário, constituindo esta a terceira geração pury, na qual me incluo.


2.0 - Vale observar que, enquanto a segunda geração pury assimilava os valores da cultura e religião católica dos brancos invasores, tornando-se uma população “caipira”, de certa maneira dócil em seu apagamento das origens, constituía-se instrumento útil às manobras de hegemonia dos algoses brancos invasores – com surgimento de alguns raros jovens destemidos e prudentes conservadores da herança étnica pury, - já na terceira geração começou por surgir bom número de jovens, como um povo desconfiado das posições dos brancos invasores, e da massa popular que se formava em seu apoio e dependência; os resultados das estratégias adotadas pelo terceiro encontro de lideranças pury da região, (em 1903), começaram a surgir de modo efetivo, unindo esforços e apoios de alguns remanescentes dos povos originários como fontes de memórias e saberes (de modo prudente), mais outros da primeira e segunda geração, assumindo postos de serviços dos brancos (onde podiam trazer alguns benefícios à etnia), e valendo-se dessa posição “privilegiada”, fazer o que tivesse ao alcance em favor dos valores culturais e espirituais do povo pury originários das florestas. Foi assim que surgiu a versão do Pai Nosso Cristão, adaptados aos modos de ser pury, que abaixo resgato para nós.



3.0 - Pai Nosso

(versão nos falares pury da minha região)



1 - Deuá Lamã Dokóra!

Grande Espírito Dokóra!

Pantxarré unhúm okóra txaé.

Pai nosso no céu viver

2 – Tanú diémandjira,

Santificado seja o seu nome,

3 – Tiatapã diémapúia

Seja feita a sua vontade,

4 – Kará plêuake utxô, aloú kagrána okóra.

Aqui na terra, como no céu.



5 – Parrín panké ungepompá linaká operára,

Hoje nos dá o alimento de todos os dias,

6 – Tekuá karrón panaréten moiamá,

Perdoa (apazigua) nossas dívidas,

7 – Kará plêuake pantekuá karrón

Assim como perdoamos

8 – Terrón panké aréten mioamá,

Aqueles que nos devem,

9 – Pantekondé unhún kandé kaiuáne,

Nos guarde de cair(quebrar) nas trapaças,

10 – Makín pantakín unhúm ukandjeriká.

Mas nos livre das maldades e misérias.

11 – Gandeú taperéluá diédaitxé,

Porque de direito é seu tudo,

12 – Tamapú, kansú unhúm monekroión.

A honra, o poder e a glória.

Tekuára-sú! Tekua-sú!

Paz natural (diversas em harmonia)! Paz!



3.1 - Observação – Em alguns contextos ou contingências vivenciais, alguns pury tinham que irem à Missa (Mánge Uipangé), frequentar o catecismo (Arizar-txina) e às vezes tendo que confessar (Perembó) com o padre (Oaré-Terengambô). Por isto o interesse na versão construída conforme a consciência pury. Muitos padres não sabiam a língua dos pury e não percebiam a versão adaptada.


Nhãmãrrure Stxutér Pury (Felismar Manoel)




sábado, 9 de janeiro de 2021

2 - Memórias Pury – Gemúmae Pury - Dentes, instrumentos da saúde – Djêa tipímo

 

Lembranças de minha aldeia rural/Gemúnae unhúm birruã ambó-goára (gaambó-goára).


Memórias da Aldeia Rural Pury de Fazenda dos Gregórios em Cruzeiro, Distrito de Tuiuitinga, Município de Guiricema, Zona da Mata, Estado de Minas Gerais, Brasil.


por Nhãmãnrure Stxutér Pury (*)

(Felismar Manoel)


(*) O texto pury está escrito conforme a pronúncia percebida, usando os recursos do português brasileiro.



A Saúde da Boca – Tipímo-Txoré (Tipímo unhúm Txoré)

Dentes, instrumentos da saúde - Djêa Tipímo.



Uma curiosidade – Quando um dente de leite de uma criança já estava mole, fácil para ser extraído, um adulto amarrava uma linha nele e pedia a criança para manter a linha esticada, enquanto isto, outra pessoa procurava provocar um susto na criança, que, com o impacto sentido, acabava por arrancar o dente de leite sem a criança nada de grave sentir, sendo que quando era o primeiro dente extraído, ele era jogado acima, sobre o telhado, ou outra cobertura, para que o rato o carregasse e então, o lamã (espírito) protetor dos dentes , trouxesse um outro dente novo para a criança nativa das florestas (indígena).


Desde bem cedo se cuidava da saúde dos dentes das crianças, pois o sistema de tratamento da saúde do povo pury considera os dentes como instrumentos para a saúde (Djêa tipímo), bem como a boca (txoré) e os lábios (txé, txéa), por isso, na época do frio, lavava-se às mãos, e com a polpa do dedo limpo, molhava-o no azeite com malva cheirosa e espalhava-o nos lábios para proteger.


O azeite da mamona era produzido pelo povo pury e era aquecido com folhas de malva cheirosa, ou com flor do algodoeiro, deixando esfriar, quando então se retirava as folhas ou flores, e guardava-o para uso na proteção com o unguento labial (buzunto txéa).


Com frequência lavava-se a boca, fazendo bochechos com água de hortelã e casca de juá vermelho ou amarelo. Quando se comia pequenos pássaros ou outros pequenos animais assados (os que não olham para o céu de Dokóra), se ficassem detritos da comida entre os dentes, usava-se o fio de guaxima para passar entre os dentes e retirar tais resíduos, sempre usando os bochechos com água de hortelã e juá. (A guaxima é um tipo de malvona muito comum nas regiões próximas as florestas, sendo utilizada suas fibras para confeccionar diversas peças de uso nas famílias pury).


Toda fase da lua crescente, desde os sete anos, os puris escovam seus dentes esfregando a casca do juá e depois usando uma pequena escova, tipo vassourinha, feita com um ramo descascado e macerado com pancadas de madeira, para separar suas fibras e no final enxágua a boca com bochechos de água ou chás de hortelã. Essa pequena escova ou vassoura para os dentes, é feita de um abundante e diversificado vegetal genericamente chamados de “vassouras”, ainda existente na minha atual região (não sei qual é a sua classificação botânica).


Usava-se também esfregar o pó de carvão vegetal com a polpa do dedo nos dentes, usando retalhos de bucha vegetal, para retirar as placas amareladas das superfícies dos dentes, sempre usando água corrente e enxaguando com a água de hortelã.


Diariamente, antes de dormir, o adulto pury examina a boca e os dentes com seu dedo, coloca água de hortelã e esfrega as gengivas, após cuidar de seus dentes. Não conheci cáries dentárias entre os nativos que vivenciavam só a cultura pury, mas outros com hábitos de comer os doces dos brancos, apareciam os dentes estragados, inclusive as dores dos dentes, que eram tratadas com fumaça do fumo de rolo queimado nos “pitos de barro” construídos de cerâmica pury, incidindo o fluxo da fumaça na região do dente estragado; quando havia as dores de dentes, sem dente estragado, se usava tomar o chá de cravo (tempero de cozinha).

A água de hortelã podia ser substituída pelo extrato alcoólico de hortelã, produzido no sistema de tratamento de saúde pury (Florália Pury), misturado com água.



segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

1 - Memórias Pury – Gemúmae Pury - Lembranças de minha aldeia rural/Gemúnae unhúm birruã ambó-goára (gaambó-goára).

 

Memórias da Aldeia Rural Pury de Fazenda dos Gregórios em Cruzeiro, Distrito de Tuiuitinga, Município de Guiricema, Zona da Mata, Estado de Minas Gerais, Brasil.


por Nhãmãnrure Stxutér Pury (*)

(Felismar Manoel)


(*) O texto pury está escrito conforme a pronúncia percebida, usando os recursos do português brasileiro.



Estratégias Aprovadas no Terceiro Encontro de Lideranças Puris da Zona da Mata, em Goianá (ou com goianáe)



Conforme a sabedoria dos mais velhos (Trirronára leká Tarréa iu Antáre), eram construídas nossas memórias de identidade e caráter, para nutrir e sustentar nossos ideais no mundo de Dokóra, protegidos por Tupã. Assim, cumpre-me narrar:


Txina Pury foi o Opê-Antár de minha Aldeia Rural(Ambó-Goára); ele nasceu cerca do ano 1848, pertencente a mesma Aldeia Florestal (Tistxoré-Goára) de minha bisavó Perruã Pury (Indira Pury – nome adotado quando capturada), que viveram na região de Rio Pombas. Seus clãs familiares eram do Vale das Ervas Curativas (Dotapá Muúm unhúm Sponge-ndondea), mais ou menos na região de Ervália, que desceram o fluxo do Rio dos Bagres, fugindo da perseguição dos brancos colonizadores por aquelas bandas; habitaram por todas as margens do Rio dos Bagres, indo até o Rio Xopotó e daí ao Rio Pombas.


Todas essas regiões eram moradias dos puris, dos coroados e dos coropós, parentes originados em passado muito distante, dos indígenas goitacazes, dos quais se separaram por desavenças internas, por rixas, por desentendimentos entre famílias intra-étnicas, optando por construírem seus próprios destinos, embora mantendo muita proximidade entre puris e coroados, os quais conviviam e se auxiliavam mutuamente, tendo havido, entretanto, certo desentendimento entre puris e coroados nas aldeias do Rio Pombas, após a chegada dos invasores colonizadores nessa região específica, mas cultivando amizades e apoios com outras aldeias, com congraçamento constante entre puris e coroados da região de Ubá, Guidoval, Visconde do Rio Branco, São Geraldo, Guiricema, Miraí e comunidades das cercanias, todas elas participantes do terceiro encontro de lideranças puris, quando buscavam planejar estratégias de enfrentamento contra as adversidades surgidas pela convivência com os brancos invasores.


Em busca de estratégias para enfrentamento contra as agressões dos invasores dos territórios, o Povo Pury realizou encontros de lideranças das aldeias, tendo dois desses encontros falhados em seus propósitos, porque houve penetração de puri do mal (puri bugre) que delatou os objetivos, motivando agressões ao nosso povo. Cerca de 1903, aconteceu o terceiro encontro dessas lideranças puris, com a participação do povo de Miraí, Muriaé, Guiricema, Visconde de Rio Branco, Guidoval, São Geraldo, Ubá e Ervália, desta vez com Goianá, sem a presença de bugres, não sabendo ao certo, se foi gente goianá (amigo dos estrangeiros), ou a localidade Goianá.


Desse encontro ficou decidido montar estratégias para introduzir os jovens puris nas escolas formadoras dos brancos, para que adquirissem suas expertises e as utilizassem nos postos de serviços dos brancos, no sentido de proteger os indígenas puris e de outras etnias. Ficou assim decidido:

1 – Que se organizem as aldeias rurais (ambó-goárae), mais abertas, acolhendo comunidades de famílias puris da região, mesmo dispersas, mas com fidelidade aos costumes puris;

2 – As crianças (sámbe) sejam instruídas pelas mães (inhãe), os Preceptores (Opê-Tarréa); os jovens e os adultos procurem sempre ouvir o conselho dos mais velhos (Tarreára) para as tomadas de decisões; que todos privilegiem as decisões do Opê-Antár de cada aldeia;

3 – Que cada aldeia se dedique a desenvolver de modo específico a alguma expertise da sabedoria pury, visando influenciar os brancos invasores e outros não indígenas, procurando preencher as lacunas de suas necessidades ou vulnerabilidades.

4 -Observo eu, que falharam em duas estratégias não cogitadas, assim colaborando para o agravamento da situação dos indígenas puris:

a) – Não se pontuou nenhuma defesa de posse local, nem requereu e delimitação do território aos puris.

b) – Não se pensou em manutenção e domínio dos falares e fazeres puris, mesmo em situações adversas, para que se continuasse a pensar em puri, visto que a linguagem oportuniza a prática do pensar.


Eu fui protagonista, interagindo em três aldeias rurais: a da minha própria moradia de Fazenda dos Gregórios, em Cruzeiro; a de Tuiuitinga(*); e a do Pé da Serra de Tuiuitinga. - (*) Em língua pury os “pássaros verdes” da família periquitos são chamados TUIU ou TUIM, e “localidade preferida”, é chamada de ITINGA, por isso se atribui que o nome TUIUITINGA seja porque essa localidade era a mais preferida por esses pássaros – Essas três aldeias rurais se dedicaram ao desenvolvimento de expertises da sabedoria pury, conforme as decisões aprovadas no terceiro encontro de lideranças pury. Assim:


a) A minha Aldeia Rural (Ambó-Goára) da Fazenda dos Gregórios se dedicou ao desenvolvimento da medicina pury, na qual recebi treinamento, cuidando do cultivo das plantas curativas e preparo dos remédios a partir das ervas e alguns resíduos animais, produzindo os extratos alcoólicos, as botijas e tsanas de bambus apropriadas, bem como seu escalonamento em diluições adequadas até o terceiro nível de fortalecimento, instruindo aos populares como usar os banhos florais e folhais para os estágios emocionais alterados geradores de doenças, e aos curadores (opê-ndondea), a interpretação dos estados de enfermidades e o uso adequado das soluções para tratamento;


b)A Aldeia Rural de Tuiuitinga que eu às vezes visitava, que se dedicou a treinamento de jovens inteligentes e audazes, para a partir do domínio de conhecimento de suas expertises técnicas, aprendidas em suas escolas e treinamentos, dialogarem com tais especialistas brancos, em possível pé de igualdade, sobre nossos saberes pury. Disto resultou fixar moradia em Tuiuitinga, tratadores de doenças (txarré-ndondea), tratadores de animais (txarré-txamae), medidores de terra/solo térreo (kuruíndô-atxéa), conhecedores do solo/adequação do solo ao cultivo (opê-atxéa);


c) A Aldeia Rural do Pé da Serra de Tuiuitinga, onde fui professor municipal das crianças, aldeia essa que se dedicou a promover experiências com as plantações agrícolas, visando adequação de plantas a qual tipo de solo, bem como formas de armazenamento seguro da produção de grãos, para seu uso adequado no tempo que necessitasse, surgindo diversas técnicas de conservação contra bichos;


d) Constava ainda, mas eu não visitei, a Aldeia Rural de Guidoval, voltada a produção dos artesanatos pury; em Ervália uma Aldeia Rural dedicada a selecionar o cultivo de plantas curativas de doenças e “malidades” que atacassem a população. Informavam ainda que em Miraí, Muriaé, Manhumirim e outras regiões do estado do Espírito Santo, estavam se dedicando a divulgar nossos instrumentos musicais puris, como flautas, tambores, chocalhos e violas, inclusive divulgando a plantação de taquaras e tabocas. Não visitei esses locais para conferir.


Tenu-arri Dokóra que me permitiu essas experiências de vida! Tenu-arri Tupã por ter me protegido durante esses meus 82 anos de existência aqui na Utxô. Sua benção Dokóra/Ksapernhé-tinxú Dokóra! Sua benção Tupã/Ksapernhé-tinxú Tupã! - Nhãmãnrrure Stxutér Pury/Felismar Manoel – Duque de Caxias, RJ. 28/12/2020.







quinta-feira, 29 de outubro de 2020

As Pukitanas Pury

 

Ho Puky! O Grito de Afirmação Étnica de um Povo

Nhãmãrrure Stxutér / Felimar Manoel



 “As Pukitanas Pury”. Assim era conhecida pela população, o grito de afirmação étnica pury; à medida que foram desestruturadas as organizações das aldeias pury rurais, ainda se conservou por algum tempo, nas regiões cercanas de Cruzeiro (a vila), Pé da Serra de Tuiuitinga e na Sede Distrital de Tuiuitinga, os costumes das festas e festivais pury, com suas danças, suas comilanças e seus cantos.


Quando durante os cantos e canções se pronunciava o “Ho Puky”, todos os puris dispersos e presentes na multidão, emitiam seus gritos de afirmação étnica, em um uníssono ondulante e agudo. Beleza de se ouvir! Quem nos dera ouvir de novo! Pois cantantes de “ho puky” já os temos novamente entre nós. O grito de afirmação étnica pode ser interpretado como um ondulante alarido de todos os puris, em uníssono, em grito agudo, característico de nossa etnia. Infelizmente não consigo mais reproduzí-lo, em virtude de ter sido acometido de uma neuropatia idiopática que me produziu um desvio labial esquerdo, que não mais me permite assobiar (assoviar), ou fazer o alarido agudo de nossa afirmação étnica, que o povo denomina de “grito de guerra”.


Em 1957, em Cruzeiro, por ocasião da “dança dos caboclinhos”, em homenagem a São Sebastião, dentro da capela da vila, quando meu opê-tarré, que dirigia a roda de dança, quando ele bradou o Ho Puky, quase não mais se percebeu, além de mim, o nosso grito de afirmação, e isto por dois motivos, conforme foi possível constatar:

* alguns silenciaram por medo de perseguições, e outros, emudeceram o seus gritos, porque já começavam a assimilar a versão dos inimigos, a versão dos bugres, de que ser pury, ou ser índio, era ua condição inferior, de atraso intelectual, ou fraca inteligência. Foi muito triste constatar, mas não o suficiente para eu desistir.


Continuei me afirmando pury, com consciência e ufania de o poder ser, como aprendi com minha inhã (mãe), meu opê-tarré (instrutor) e nosso opê antár (chefe ancião da aldeia). Um apelo aos artesãos dos saberes puris e cantantes de nossas canções do agora: Cantem e dancem embalados por nossas canções e resgatem por nossas canções, a nossa afirmação étnica, produzindo o entusiasta alarido, agudo e ondulante de nosso Ho Puky! Tenu-arrí!


segunda-feira, 19 de outubro de 2020

VOCAÇÃO SACERDOTAL EM PARADOXO

 

Abuna Philoseleos / Felismar Manoel

Mosteiro Compaixão Sagrada

Ancianato Monasterial
19/10/2020


Nos dias atuais tenho percebido um certo paradoxo nas vocações sacerdotais surgidas, sejam no grau presbiteral ou no grau episcopal, pois os candidatos a tais gráus de Ordem, se apresentam com bastante pressa para que se marque as cerimônias de ordenação, mas, por outro lado, oferecem uma sistemática resistencia a se investirem na formação adequada, seja do ponto de vista intelectual, filosófico, ou teológico; apresentam sentido esmerado na aquisição de indumentárias e vestes litúrgicas, quase sempre preferindo as mais pomposas.


Afirma um antigo adágio que “não é o hábito que faz o monge", mas aqui, nesse presente contexto, o que tem sido verificado é o contrário, pois existem clérigos suntuosos e ricamente vestidos, mas que não são capazes de sustentar quase nenhuma reflexão filosófico-teológica com bases fundamentadas na exegese e hermenêutica bíblica , quer em eclesiologia, teologia do culto, teologia pastoral, ou mesmo vida espiritual cristã; os principais doxas denominacionais são ignorados, comprometendo até mesmo os artigos de religião que fornecem bases às identidades de suas denominações.

É preciso fortalecer o foco e conscientizar os candidatos às Ordens Sacras, sobre a questão da responsabilidade de um pastor e sacerdote, que orienta e assiste às suas respectivas comunidades, nas quais existem pessoas com graus diversos de problemas, que buscam orientações com tais lideranças religiosas, mas que são possivelmente bem mais instruídas que os referidos clérigos reitores de suas comunidades religiosas; geralmente se tornam clérigos muito bem vestidos liturgicamente, mas quase vazios de intelectualidade e humanidade.

É preciso que todos se conscientizem, que os vocacionados devem passar por um período de testagem na sustentação dos seus ideais de busca pela experiência ministerial cristã, pois esse ministério exige responsabilidade para com a vida de outras poessoas; passado esse período probatório vocacional, passa-se para o estágio de formação propedêutica, quando se aprende e testa o ajustamento do caráter e temperamento para a vida espiritual religiosa e clerical, de acordo com o carisma de sua instituição; uma vez aprovado no estágio propedêutico, passa-se a formação formal humana, intelectual e acadêmica, com certas bases filosóficas, para uma razoável arte de pensar quaisquer questoes; segue-se também, uma razoável formação teológica, que fundamente a vivência de espiritualidade religiosa, litúrgica, comunidade e social. A partir desses pressupostos, justifica-se as ordenações sagradas, para as diaconisas, diaconos e presbíteros (padres, efemeritas e pastores, deixando claro que, a função episcopal, deve ser decidida pelas instituições eclesiásticas, por isto aconselhável que seja consagrado por dois ou três bispos, embora seja válida a ordenação conforme as rubricas feita por um só bispo, quando as circunstâncias assim o exigir.


Existem superiores de ordens ou congregações religiosas, ou mesmo campos missionários, que exigem suas administrações e governos por um presbítero consagrados na ordem episcopal, para assumirem de modo progressivo o pastoreio pleno de suas comunidades, quer como Superior Episcopal sobre pessoas e coisas de uma Ordem ou Congregação, como Abade Episcopal sobre pessoas e coisas entre os muros de uma instituição, ou como Arcipreste Episcopal sobre pessoas e coisas em um campo missionário.



Não creio ser conveniente continuarmos ordenando padres e sagrando na ordem episcopal, candidatos sem passar pela propedêutica apropriada, preceptoria comprovacional e estágios tutoriais atestatórios de espiritualidade efetiva e de um aceitável padrão de vida eclesial junto às comunidades.



Temos um enfrentamento dificil, mas o vejo como caminho para termos clérigos agiornados com nossas realidades e propostas próprias de nossas instituições.



Que Deus nos ajude.
Abuna Felismar Manoel.



quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Minha Experiência com o Conceito de Família

Dom Felismar Manoel
Frater da Ordem dos Irmãos Salomonitas
Fisioterapeuta Clinico com Aprofundamento em Saúde da Família.



Nasci em uma região de nativos de origem PURY, sendo eu mesmo um descendente de terceira geração, onde o conceito de família é muito ampliado, pois no meio indígena o conceito de família é parental e a ela pode se incorporar novos elementos pelo princípio do cunhadismo.

Sou bisneto de Indira Pury com Tongo Mina, portanto uma india autêntica com um africano genuíno, escravo em terras de Brasil. Minha avó Maria Graciana, filha desse casal, contraiu casamento com um português, Juaquim Soares de Souza Lima, e uma de suas filhas, Maria Soares casou com um descendente italiano, Felicio Manoel Julinho, que foram os meus pais.

Sou filho de uma família já no conceito ampliado, pois meu pai era viúvo com cinco filhos e minha mãe também viúva com quatro filhos; do casamento dos dois viúvos nasceram mais seis filhos, sendo eu o penúltimo a nascer e tendo por adoção na forma de agregação mais quatro irmãos. Nossa família era muito bem querida na região e nós, apesar de dezenove irmãos, nos considerávamos verdadeira família, junto aos nossos pais e avós. Nesse ambiente formei meu conceito de família, de modo pacífico, sem nenhuma contestação.

Muito cedo me envolvi nos trabalhos missionários e fui acolhido entre os Franciscanos, na Ordem dos Frades Menores, onde aprendi a cultivar também um outro conceito de família idealista, a “Família Franciscana”, me transferindo mais tarde para a “Família Salomonita”, em virtude de seus elos mais abertos à alteridade cristã, onde milito desde 1959.

No Seminário, no meu curso de filosofia, minha área de concentração foi em comportamento humano, o que me levou a aprofundar nos estudos de antropologia e psicologia, e no curso de teologia, meu aprofundamento se deu em teologia fundamental e pastoral, me levando a estudar no meu doutorado, o pensamento dos que se colocavam contrários ao pensamento cristão, fazendo o strictu senso em filosofia da religião.

No campo teórico, foi tudo tranquilo, mas as coisas mudaram quando fui para o campo do testemunho missionário da convivência com as realidades sofridas das massas, pois fui trabalhar com missões urbanas, enfrentando as duras realidades dos povos de ruas e das periferias dos centros urbanos, fui conviver com eles, estreando-me vez por outra como um deles. É claro que, como antropólogo, o conceito de família nuclear, o pai, a mãe e os filhos, estava presente na minha consciência, mas só ele, não dava conta de acolher os numerosos casos de testemunho familiar que eu encontrava.

Tive a oportunidade de ajudar na gestão de um Lar de Menores em São Mateus, São João de Meriti, Rio de Janeiro, onde se recebia crianças abandonadas, que às vezes, não se sabia, quem eram seus progenitores e que se tornavam filhos e filhas daquele lar fraternal; ali cresciam, se formavam, aprendiam a enfrentar a vida e ali era realmente o lar da sua família.

Junto aos muitos párias nas cidades grandes, tive a oportunidade de conviver com os lares para moças e rapazes, onde geralmente esses irmãos e irmãs encontravam verdadeiras famílias para conviver, e por trás de seus anonimatos, dos seus lares de origem, se escondiam verdadeiras histórias de sofrimentos, incompreensões, ausência de ternura e aconchego.

Nas ruas dos grandes centros urbanos e também nas periferias, encontrei inúmeras famílias de sadia convivência, muitas das vezes ou uma família do pai e seus filhos, ou da mãe e seus filhos, como também encontrei famílias homoafaetivas, masculinas e femininas, cuja convivência em apoio social, afetivo, econômico, eram com certeza, de clima muito saudável para os envolvidos e para as comunidades do entorno.

Foi quando resolvi me tornar terapeuta, buscando um outro instrumento que eu pudesse usar no trato com todos, tanto para o empoderamento de um conviver saudável, como para ajudar a sarar as “feridas” que uma vida mal compreendida pode gerar. Fiz um aprofundamento psicanálise clínica e em fisioterapia em saúde da família, e percebi uma grande ampliação no conceito de família que precisamos ter, no trato com a população.

A Constituição de 1988 consagrou espaço definitório e de acolhimento a novas formas de famílias, e hoje, nós terapeutas, pastores, ministros diversos ao prestar nossa assistência a população, não temos como fazer, se nos afastarmos do espírito de compreensão dos organismos internacionais e nacionais, quando compreendem família no seu conceito ampliado, para as políticas de saúde das populações, entendendo saúde como o completo bem estar emocional, físico, mental, social e espiritual. 

As redes de missionários do bem, de pregadores, de ministros das religiões, muito podem contribuir para esse novo olhar que o mundo oferece para o conceito de família, a partir da união estável. É sempre bom lembrar, que a lei me permite que eu forme a minha família do meu modo especial, do meu jeito singular, mas que existem outras pessoas com outras singularidades, e também elas, são pessoas, com o mesmo grau de direito à cidadania que eu, podendo formar suas famílias de outros modos, sob o amparo das leis.

O ideal religioso cristão de uma família nuclear, formada pelo pai, pela mãe e por seus filhos, continua e continuará sendo o sonho desejado da maioria do povo de Deus que caminha, mas alguns deles poderão não ter as habilidades que os capacitem para essa competência, abrindo para eles então horizontes de um outro modelo de vida também digna, onde em sadia consciência eles poderão vivenciar um outro modelo de família, construindo ai o seu bem estar pessoal, afetivo e social, e colaborando para uma sociedade mais fraterna e solidária. Eu consigo de coração aberto, acolher com simpatia outros modelos de famílias no ambiente social, como já o faço nos espaços terapêuticos de saúde da família, no SUS ou fora dele.

Duque de Caxias, RJ, 04/01/2017

domingo, 1 de janeiro de 2017

A Árvore da Vida Eterna

Dom Felismar Manoel
Bispo Primaz


A Igreja Cristã é a Árvore da Vida Eterna, pois Jesus Cristo é o seu Tronco, os Apóstolos são seus galhos e Nós somos seus ramos, folhas e frutos.
É Jesus Cristo que nos doa a Seiva da Graça que nos mantém na Vida Eterna, desde aqui e agora. É através dos Apóstolos que recebemos o Conhecimento do Evangelho Salvador de Jesus Cristo, os Dons Eclesiais e os Sacramentos Sagrados, mediante a Sucessão Apostólica Histórica presente no Planeta Terra pelo Ministério dos Bispos, Pastores, Presbíteros, Diáconos, Ministros do Templo, Crentes Fiéis e todo o Povo de Deus enfim.

Por Jesus Cristo Deus Pai nos recebe como Filhos, e por Amor ao seu Cristo e a Nós, nos Vivifica mediante o seu Santo Espírito, enquanto estivermos ligados ao Tronco da Árvore da Vida que é Jesus Cristo.

Temos o Livre Arbítrio para manter fidelidade à Palavra de Deus revelada por Jesus Cristo, através de nossas condutas e exemplos de vida, ou para nos afastar dela e seguir o mundo com suas fantasias, ceder às paixões da carne com suas cobiças, ou atender aos apelos dos falsos profetas, falsos cristos, espíritos embusteiros, levianos, ou seguidores de satanás.

Os que se mantiverem ligados ao Divino Tronco que é Jesus Cristo, terão a participação na Vida Eterna desde aqui e agora, já os que se distanciarem de Jesus Cristo, por falta de fidelidade aos seus ensinamentos, não terão a Vida da Graça, mas estarão apartados de Jesus Cristo, mesmo que frequentem a Igreja, e portanto, não farão parte do Povo de Deus que caminha para a Pátria Celestial, a Divina Jerusalém.

A Árvore da Vida Eterna, a Igreja de Jesus Cristo, purifica o ar ao seu redor tornando-o saudável, fornece sombra e conforto a todas as criaturas de Deus, ela alegra o seu ambiente com as suas flores e alimenta com seus frutos os seres de boa vontade. Nela existe santidade, paz, acolhimento, fraternidade, proteção e abrigo para todo o Povo de Deus.

Vamos traçar aqui um esquema dessa Árvore, seu Tronco, seus galhos, seus ramos, folhas, flores e frutos:

1 - O Tronco Divino é Jesus Cristo;
2 - Do Tronco Divino, Jesus Cristo, brotam Doze Galhos que são os Apóstolos que organizaram as Primeiras Igrejas (Igrejas Mães), dos quais derivam a Sucessão Apostólica Ministerial;
3 - Dos Doze Galhos, os Apóstolos de Jesus Cristo, surgem os múltiplos ramos, que são as Igrejas Locais, sustentando as folhas, as flores e os frutos, que somos nós os Eclesianos, Crentes Fiéis, enquanto Sal da Terra e Luz do Mundo, formando o Povo de Deus que caminha.

Assim temos:
*** Jesus Cristo, o Tronco Divino e Chefe da Igreja;
*** Patriarcados de Origem Apostólica (ainda existem cinco), dos quais derivam Igrejas Locais para várias partes do Planeta Terra;
*** Múltiplas Igrejas Locais (usando nomes diversos), testemunhando a Jesus Cristo e a sua Salvação mantenedora da Vida Eterna, espalhadas por várias regiões do Planeta Terra. São as seguintes:

I - Igreja Patriarcal de Constantinopla - Trabalho apostólico iniciado pelo Apóstolo André - Este Patriarcado tem liderança ecumênica com comunhão eclesial junto aos cristãos católicos apostólicos ortodoxos de todo o mundo, mantendo sua linhagem de Sucessão Apostólica até os dias atuais, com várias Igreja Locais em diferentes partes do mundo;

II - Igreja Patriarcal de Alexandria - Trabalho apostólico iniciado por Marcos - Este Patriarcado utiliza também o Título de Papa para seu titular, são católicos apostólicos ortodoxos , mantendo sua linhagem de Sucessão Apostólica até os nossos dias, com Igreja Locais espalhadas por várias regiões do planeta terra;

III - Igreja Patriarcal de Antioquia - Trabalho apostólico iniciado por Barnabé e Paulo, O Apóstolo Pedro foi seu Bispo, do ano 45 ao ano 53, indo depois para Roma. Este Patriarcado passou por várias situações de instabilidade política e também algumas heresias, o que motivou o surgimento de alguns Patriarcados próprios, como o do Nestorianismo, Monofisismo, Monotelismo, Maronita, Caneasiana.

Os Cruzados (católicos romanos) em 29/06/1098, invadiram Antioquia, depuseram o Patriarca Ortodoxo e impuseram um Patriarca Latino durante cem anos, até 1268, quando os árabes conquistaram a Antioquia e houve o retorno do Patriarca Ortodoxo, fugindo então os Patriarcas Latinos para Roma, mas mantendo seus títulos.

Este Patriarcado pertence também ao catolicismo apostólico ortodoxo e mantém sua linhagem de Sucessão Apostólica até os dias de hoje, estando presente com Igrejas Locais em múltiplas regiões do mundo moderno;

IV - Igreja Patriarcal de Jerusalém - Trabalho apostólico sob a direção de Tiago (Jacob) - A Igreja de Jerusalém constituía uma pequena diocese sujeita ao bispo de Cesareia, do Patriarcado de Antioquia, até o ano 45. Sua autonomia aconteceu no ano 451, quando o IV Concílio Ecumênico lhe outorgou a independência total com o título de Patriarca ao seu Arcebispo Juvinélio.

Este Patriarcado também pertence ao sistema católico apostólico ortodoxo, mantendo sua linhagem de Sucessão Apostólica até nossos dias, estando presente com Igrejas Locais em várias regiões da terra;

V - Igreja Patriarcal de Roma - Trabalho discipular iniciado pelos cristãos dispersos que foi pastoreado por Paulo e também por Pedro, segundo a tradição, a partir do ano 53. Esta Igreja sofreu muita perseguição por parte dos Imperadores de Roma, tendo muitos cristãos sendo martirizados aí em favor da fé.

Durante as perseguições esta Igreja viveu nas catacumbas de Roma, um período de forte poder espiritual, deixando se influenciar depois, pela política dos Imperadores, após a decretação da paz. Esta Igreja separou-se da comunhão com os católicos apostólicos ortodoxos em 1054, com claras ideias de hegemonia sobre o mundo cristão.

Ao longo da história esta Igreja transformou-se em um Estado Político (Vaticano), sendo o seu Patriarca (Papa) o Governante deste Estado, mantendo Embaixadores (Núncios) em diferentes países, e na sua política de hegemonia sobre o mundo cristão, adotou o perfil de uma Empresa Multinacional, mantendo seus representantes (Cardeais) nas várias regiões onde atua.

Houve uma época em que patrocinou muitas atividades diabólicas em nome de Deus, como as Cruzadas, o Silabus, a Inquisição, o Ultramontanismo, desviando-se claramente do espírito do Evangelho do Cristo.

Continua com pretensões de ser a única Igreja verdadeira, embora alimentando claras posições anti evangélicas ainda nos dias de hoje, como a proibição de casamento para os padres e madres, a afirmação de que o papa é o substituto <vigário> de Cristo na terra, a afirmação de que o papa nunca erra em questões religiosas, o incentivo e cultivo do culto das imagens <proibida nos mandamentos da Lei de Deus, conforme a bíblia>, a alimentação e cultivo das doutrinas de espíritos que se manifestam para os videntes como se fossem a mãe de Jesus, com ideias contrárias às orientações do Evangelho de Jesus.

Houve época em que usava como símbolo uma Tiara com Tríplice Coroas, como Imperador Mundial, sobre a Igreja, sobre os Povos e sobre os Governantes (ultramontanismo).

Esta Igreja mantém uma Sucessão Apostólica Histórica genuína, mas com manchas em sua legitimidade, pois houve época em que houve três Papas ao mesmo tempo, um em Avinhão, na França, e dois na Itália, todos se afirmavam verdadeiros e se excomungavam mutuamente.

Apesar disto, como Deus escreve certo em linhas tortas, esta Igreja Patriarcal é responsável pela expansão da pregação do Evangelho de Cristo no Ocidente, dela derivando diversos ramos de Igrejas Locais com fiel testemunho cristão, como as Igrejas de Confissão Luterana e as diferentes Igrejas Evangélicas atuais, as Igrejas Católicas Apostólicas Livres em diferentes países, como nas Filipinas, na França, na Inglaterra, na Holanda, em Portugal e no Brasil com a Igreja Católica Apostólica Livre no Brasil, a Igreja Católica Apostólica Brasileira, a Ordem de Santo André, a Igreja Católica Apostólica Independente no Brasil e a nossa tão querida Igreja Católica Apostólica Independente de Tradição Salomoniana.

Nós somos os ramos que devemos estar unidos ao Tronco Jesus Cristo, pois somente Ele é capaz de nos fornecer a Seiva da Graça, para o desempenho de nossas tarefas como folhas, flores e frutos. É preciso que lembremos sempre ser do Tronco que nos vem a Graça, o Poder, a Salvação, a doutrina.

Apenas derivar da linhagem dos galhos históricos não é suficiente, nem confirma a autenticidade da Igreja de Cristo. Procuremos ser a Igreja de Cristo! Convertamo-nos a Ele a cada dia de nossas vidas! Saiamos dos erros históricos e cultivemos a Boa Nova de Salvação, conforme contextualizada no Evangelho de Jesus Cristo.

Que Deus nos abençôe a todos!
Dom Felismar Manoel
Catolicismo Apostólico Salomonita
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