domingo, 29 de setembro de 2024

A Txambô nas aldeias rurais e comunidades pury e o aprendizado sobre a nossa Ancestralidade

 

As Famílias Raízes - A Txambô é um cerimonial da nossa história ancestral pury e tem por objetivo a formação da consciência purinã nos mais jovens e conservar na memória coletiva a trama das nossas lutas durante as nossas vivências enquanto povo e etnia.


Conta -se que em passado muito distante, antes da chegada dos invasores europeus, nossas famílias pury viviam junto ao Povo Goitaká em territórios entre os Rio São Mateus e Rio Doce, e que viviam mal porque não se harmonizavam com o caráter beligerante e feroz daquele povo, o que levou-as a praticarem a koroná, pedindo ajuda e orientação à Nhãmãdú/Dokóra. Depois de certo tempo três famílias receberam as visitas instrucionais dos Deuálamãe, Sãbonã orientando a uma família como organizar e comemorar as festividades, Uãbóri orientou a outra família como cuidar da terra com seus viventes, e Xamixúma orientou a terceira família como proteger o povo dos perigos nas matas e florestas quando nas caças e coletas para alimentação e sobrevivência, constituindo essas três as famílias raízes pury, que junto às outras famílias deveriam se separarem do coletivo Goitaká e constituir-se como o Povo Pury, uma etnia coesa, daí formando as famílias troncos pelos casamentos entre seus filhos, e também as famílias ramos pelas uniões de seus filhos, se espalhando pelas redondezas da Serra da Mantiqueira.


Assim, nosso povo pury se espalhou descendo também a serra e habitando as margens dos rios, ribeirões e córregos, se reunindo episódicamente em nação, quando buscavam decisões gerais que deveriam envolver a todos.


Salve o Povo Pury!

Salve as memórias das aldeias e comunidades pury de Guiricema, Cruzeiro dos Gregórios, Valão, Tuiutinga, Marianas e Sapé em Guidoval, cujos testemunhos de lutas povoou a minha infância e juventude.

Ksapernhê tinxú!

segunda-feira, 13 de maio de 2024

Práxis Pastoral de Dom Manoel Ceia Laranjeira Diocese São José – Rio de Janeiro, RJ

 Igreja Católica Livre no Brasil Ordem de Santo André - Capítulo Rio de Janeiro Igreja Católica Apostólica Independente no Brasil Av. Nossa Senhora de Fátima, 66 - Rio de Janeiro, RJ Av. Rio Branco, 120/301 – Rio de Janeiro, RJ Rua da Chita, 15 - SETESA – Rio de Janeiro, RJ Rua Joaquim Silva, 81 – Rio de Janeiro, RJ Palavras Iniciais Sob o lema “SOMOS UM EM CRISTO”, o Rev. Salomão Ferraz iniciou o seu ministério pastoral, promovendo a união entre os diversos grupos cristãos que nutriam relações de intolerâncias entre si, buscando firmar-se nas fundamentações evangélicas e nas tradições apostólicas do Novo Testamento que se harmonizassem com a clara bitola dos quatro evangelhos canônicos, isto já em 1902 (e mantido durante todo o seu ministério), quando começou a praticar a hoje chamada “HOSPITALIDADE EUCARÍSTICA” e “UM SÓ BATISMO” conforme Jesus ordenou, em nome da Santíssima Trindade e com água. Sob o lema “CONHECEREIS A VERDADE E A VERDADE VOS LIBERTARÁ”, desde 1951 desenvolveu o seu ministério pastoral o Bispo Dom Manoel Ceia Laranjeira, no seu território diocesano, mantendo acesa a chama da união entre os cristãos na experiência do testemunho intra-eclesial e promovendo as afirmações do Credo Social da própria igreja livre, preocupando sempre com as minorias sociais, os excluídos, os marginalizados e por isso, estabelecendo através de seus religiosos e padres as comunidades de serviços, buscando a promoção humana junto as comunidades carentes, quer nos espaços centrais urbanos, nas periferias urbanas e nas áreas rurais. Dom Manoel Ceia Laranjeira não tinha preocupação de construir grandes templos, suntuosas catedrais, coisas parecidas; ele orientava a seus padres para serem servidores entre os irmãos, compartilhando, carregando os fardos uns dos outros, na solidariedade, na caridade, na generosidade, mas também nas reflexões da palavra de Deus, na adoração, na prática da comunhão em Cristo, comunhão com Deus, comunhão com todos os santos, comunhão com todos os irmãos em Cristo. Deixarei de relatar aqui dados relacionados ao período 1951 a 1958, pois nessa época não militava no seio dessa abençoada Igreja de Cristo, mas ainda vivenciava a espiritualidade franciscana conforme se praticava na romanidade papal, acontecendo a minha conversão, graças ao ministério pastoral de Dom Salomão Ferraz e Dom Manoel Ceia Laranjeira em 1959. Duque de Caxias, em 06/08/2016 Dom Felismar Manoel Bispo Primaz – Catolicismo Salomonita ICAI-TS Faltou Divulgação para as Comunidades no Passado Nas atuais manifestações do nosso clero via wats ap, muitas questões se afloraram, havendo um certo desvelamento revelador de temperamentos, caráter e educação de base pessoal, que se abafam sob a figura do clérigo tradicionalmente construído pela história através dos séculos. Além das belas orações e palavas bonitas dos cenários devocionais e celebrativos das liturgias, quem na verdade somos nós como pessoas, como indivíduos, em nossas singularidades e idiossincrasias? Sabemos que de fato Deus nos conhece no íntimo e com Ele teremos que nos ajustar algum dia. Houve uma palavra de Dom Raimundo Augusto que foi muito importante para mim, quando afirmou que conhecia o trabalho apostólico de Dom Manoel Ceia Laranjeira dentro da linha do catolicismo românico, mas nada sabia sobre o seu envolvimento com o catolicismo evangélico aqui nas terras do Rio de Janeiro. Dom Raimundo Augusto é um Bispo sério, responsável, transparente em suas convicções religiosas e em seu zelo apostólico e pessoal. Esse fato fez-me “tomar consciência” que não se divulgava relatórios dos trabalhos pastorais de Dom Manoel Ceia Laranjeira; sendo assim, como os que viviam militando em outros cenários distantes, poderiam saber o que se passava por aqui? Dom Manoel tinha um perfil de dinâmica pastoral diverso do perfil de Dom Salomão Ferraz. Enquanto Salomão Ferraz se constituía em um verdadeiro evangelista, divulgador dos pensamentos, das ideias e das doutrinas extraídas dos evangelhos do Senhor, através dos púlpitos, pregações, conferências e textos impressos, já Manoel Ceia Laranjeira era zeloso aplicador do Credo Social do Catolicismo Salomonita, orientando sua dinâmica pastoral, no sentido do “carregar os fardos uns dos outros”, estabelecendo trabalhos de aplicação dos princípios evangélicos na promoção da pessoa humana. Lembro-me de uma observação de Dom Manoel feita a mim, juntamente com Dom Salomão, lá nos idos de 1959, na época em que eu fazia o Seminário Propedêutico, ao saber que no ambiente franciscano eu me preparava para ser missionário na África (Nigéria/Niger), ele então me disse, em tom de observação: “Porque sair daqui e ir para a África para ser missionário, se temos aqui muitas áfricas sofridas, abandonadas, em nossos meios urbanos, em meio a essas selvas de asfaltos, de pedras, de concretos, de ganâncias, esperando por corações e mentes missionárias. em função do evangelho alforriador de Nosso Senhor Jesus Cristo?” Essa observação do venerável pai espiritual foi significativa na minha redefinição de rumos para meu apostolado. Pontuação de Algumas Atividades Advertência – Em nosso meio eclesial, nunca se temeu os rótulos de católicos e ou protestantes, pois todos nos sentimo honrados em ostentar essas características, isto conforme as definiu Salomão Ferraz: I - Sou católico porque …1 - tenho reverência pelo elemento sobrenatural da religião; 2 - tenho respeito pela piedosa tradição dos séculos baseada no testemunho das sagradas escrituras; 3 - tenho alto apreço pelos sacramentos instituídos por Jesus Cristo e por ele recomendados com carinho, culminando no Santíssimo Sacramento do Altar; 4 - tenho a crença humilde e singela na real presença do Senhor na Santa Eucaristia. II – Mas também sou protestante porque … 1 - tenho respeito pelo valor do indivíduo que não deve ser anulado para atender a interesses de nenhuma máquina, seja ela industrial, política ou eclesiástica; 2 - tenho sentimento de responsabilidade individual direta para com Deus e os humanos, não necessitando de nenhum intermediário indiscreto, sou portanto uma pessoa correta; 3 - obedeço como lei suprema, aos ditames de minha consciência esclarecida ; 4 - em nome dessa consciência, sou capaz de levantar em tempo a bandeira de uma justa rebelião. “Me sinto muito honrado em ostentar esses dois nomes, pela graça de Deus sou católico e sou protestante também.” Também como ministrava pastoralmente Dom Manoel Ceia Laranjeira em prol da união cristã: 1- A Igreja Católica Livre (catolicismo salomonita) não se considera espiritualmente separada do catolicismo romano, nem do anglicano, nem do ortodoxo, nem de outros ramos da Igreja universal; 2 - Os seus termos da fraternidade são livres, amplos e generosos, como os da paz de Cristo, que é "dada", e "de graça", sem cálculos interesseiros; 3 - A verdadeira unidade religiosa e social é a que se encontra "diretamente" em Cristo, o grande Mediador, não somente entre Deus e os homens, mas também dos homens nas suas relações uns com os outros; 4 - O que dificulta a paz na igreja e entre as nações, são os falsos medianeiros, que pretendem tomar o lugar do único Mediador, Mediador indispensável, que é Jesus Cristo. Fatos no Tempo sob o Pastoreio de Dom Manoel Ceia Laranjeira 1959/1960 – Nessa época se deu a minha conversão ao catolicismo salomonita graças ao ministério e assistência pastoral de Dom Salomão Barbosa Ferraz e Dom Manoel Ceia Laranjeira e fui admitido no Seminário Propedêutico. Tive como Tutores o Rev. Padre Joaquim Jacob Pinto (padre Jacob) e o Rev. Padre Belmiro de Castro Ruas (padre Ruas). O seminário propedêutico fica a cargo de cada diocese e tem o objetivo de observar o temperamento, caráter e personalidade do seminarista, se estão alinhados ao que se espera de um religioso e ministro do evangelho e desenvolve também com o seminarista as disciplinas do curso de catolicismo salomonita, visando construir o perfil identitário da tradição salomonita de cristão unionista. Período muito proveitoso para mim, quando pude exercitar-me na piedade e santidade pessoal, e conhecer a consagração pessoal de nossos bispos, padres, religiosos e crentes fieis. 1961/1964 – Iniciou-se a minha formação acadêmica, sendo matriculado no bacharelado de filosofia no SETESA-RJ (Seminário Teológico Santo André – Campus Rio de Janeiro). No curso de filosofia minha área de concentração, meu foco de interesse foi “Comportamento Humano”, razão de aprofundamento em “antropologias”, “psicologias” , “pedagogias” e clínica pastoral. Me dediquei às pesquisas de campo sobre a realidade social da cidade Rio de Janeiro, para embasar as estratégias pastorais adotadas e supervisionadas por Dom Manoel Laranjeira. Minhas pesquisas se voltavam para menores, crianças e adolescentes, marginalizados, delinquentes, (população de rua), às vezes se envolvendo em questões de lares desestruturados. 1964/1967 – Continuei a minha formação acadêmica no SETESA-RJ, agora no bacharelado de teologia, sendo a minha área de concentração, o meu foco de interesse a “teologia bíblica fundamental”, a “teologia pastoral”, a “teologia do culto”, a “eclesiologia” e a “psicologia pastoral”. Tive o prazer de conhecer o Pe. Dr. Francisco Alves Correa, professor do SETESA-RJ, que acabou por ser o meu Professor Orientador por ocasião do meu Doutorado em Filosofia da Religião. Durante o bacharelado de teologia, fiquei sob a tutoria de Dom Salomão Ferraz e Dom Manoel Laranjeira, tendo dois encontros avaliativos com cada tutor em cada semestre, bem como continuei com os dois preceptores, padre Jacob para as questões do rito românico e padre Ruas para os ritos evangélicos, ortodoxos e ascéticos. Para as preceptorias éramos encaminhados a outras comunidades que colaboravam com nossa igreja, sob a supervisão de nossos preceptores, assim eu estagiei na igreja ortodoxa São Nicolau do Rio de Janeiro - liturgia bizantina (Rua Gomes Freire), igreja do catolicismo melquita – rito melquita (de obediência papal) no centro do Rio de Janeiro (Rua República do Líbano); com as igrejas batistas em Nova Iguaçu – Presidente Juscelino ( experiências em comunidades) e na Fundação Deodoro (trabalho com a juventude), Deodoro, Rio de Janeiro; estagiei com o Exército de Salvação de Rio Comprido (culto de ruas, evangelização nos “antros” de pecado, nos “guetos sociais”, dispensando cuidados com as populações, carentes, excluídas e marginalizadas) Rua Campos da Paz, Rio de Janeiro. Após as preceptorias básicas éramos encaminhados às comunidades pastoreadas por Dom Manoel, para fazer a preceptoria pré-ordenação, assim fui encaminhado a fazer preceptoria na congregação dos Padres Missionários Cristo Sacerdote Eterno, sob o governo do Superior Geral padre Benedito Pereira Lima, em Nova Iguaçu (Bairro Moquetá), recebendo ali, das mãos de Dom Manoel Ceia Laranjeira a minha ordenação diaconal. O Superior Geral foi sagrado bispo pelas mãos de Dom Manoel Ceia Laranjeira por aquela época, e então, Dom Benedito Pereira Lima me conferiu a ordenação presbiteral. Nessa época houve uma tentativa de aumentar o contingente clerical que buscava a união com Roma, (pois a situação da Ordem de Santo André estava estacionada, nem era romana, nem era católica livre), isto com o apoio do bispo diocesano de Nova Iguaçu (não me lembro o nome), sendo arrolado meu nome no dossiê que seria encaminhado à Roma, sem a minha autorização (o que levou a um certo constrangimento, pois requeri a devolução de meus documentos, tendo que recolhê-los das mãos do Cardeal do Rio de Janeiro, Dom Jaime de Barros Câmara, gerando certa querela desagradável entre eu e ele, o cardeal). Em fins do ano 1965 Dom Salomão nos convocou a restaurar o movimento original do Catolicismo Livre, pois tinha perdido as esperanças que a Igreja de Roma cumprisse os protocolos verbais de união assumidos, respeitando os nossos carismas. Suas palavras foram: “Toquem o barco para a frente e para o alto; permanecerei na jurisdição romana para evitar as perseguições a vocês; estou muito velho para reiniciar, e minha permanência aqui, mesmo com sofrimento e sob amargura, será uma boa estratégia com relação a validade das ordens, pois terei refrigério na plena comunhão com Cristo.” Assim fizemos o Concílio e restauramos o movimento com o nome de Igreja Católica Apostólica Independente no Brasil, no início do mês de janeiro de 1966, tendo eu participado do Primeiro Conselho Geral da Igreja. 1968/1972 – Nessa época éramos muito atacados pelo clero romano, que nos acusavam de não ser bem preparados, de não possuir títulos acadêmicos, coisas assim, e então resolvi fazer o Doutorado em Ciência da Religião no SETESA-RJ, no que recebi um grande incentivo de Dom Manoel Ceia Laranjeira e do casal batista amigo, com quem tinha feito estagio comunitário, o Rev. Pastor José de Souza Herdy e sua esposa Dona Nilza. Minha área de concentração foi Filosofia da Religião e tive como Professor Orientador o Pe. Dr. Francisco Alves Correa, titulado pela Universidade Gregoriana de Roma, tendo eu defendido a tese sobre Fé e Razão, cujo título foi “A Sedução e a Razão como Subsídios da Fé de Abraão”. Assim que conclui o meu doutorado fui encaminhado por Dom Manoel para fazer pesquisas de campo e montar estratégias pastorais para as Missões Urbanas, pois o seu alvo era sempre construir um mundo melhor à luz das doutrinas do evangelho e aplicar o Credo Social da Igreja Livre (no Missal Brasiliense era repetido nas Missas dos Primeiros domingos com o Nome de Comunhão dos Santos). Hoje, nosso Credo Social está presente na Profissão de Fé e Renovação de Compromissos, liturgicamente vivenciada nos dias de Santo André apóstolo. Missões Urbanas, nas Áreas da Periferia aos Centros Urbanos e nas Áreas Rurais do Rio de Janeiro, sob o Pastoreio de Dom Manoel Ceia Laranjeira. Não tenho precisão nas datas dos fatos que vou apontar, pois nossos arquivos foram desviados no período laperciano, e de memória não consigo resgatar as datas com precisão. 1 - Em Cabuçu, município de Nova Iguaçu, Dom Manoel pastoreou a Congregação de catolicismo oriental (atual Igreja Ortodoxa Constantinopolitana), tendo à frente Dom Luz Valdigem que foi sagrado bispo por mim. 2 – Missão Jardim das Palmeiras, em Nova Iguaçu, congregação de catolicismo evangélico, pastoreada por mim. No período laperciano ele me afastou da função e vendeu o templo para um terreiro de umbanda. 3 - Missão no Bairro Wona, em Belford Roxo, congregação de catolicismo românico, no período laperciano foi transferida para a igreja ortodoxa canônica. 4 – Missão no Bairro Cangulo, Duque de Caxias, congregação de catolicismo românico, no período laperciano transferida para a igreja ortodoxa canônica. 5 – Missão no Bairro Comendador Soares em Nova Iguaçu, desenvolvia duas congregaçoes no mesmo templo, pela manhã catolicismo românico e a tarde catolicismo evangélico, no período laperciano foi o prédio vendido para uma igreja assembleia de Deus. 6 – Missão no Bairro São Mateus, em São João de Meriti, junto ao Lar de Menores São Judas Tadeu. Congregação de catolicismo românico pastoreada por dom Lapércio, que vendeu o prédio para ser transformado em locaçoes comerciais. 7 – Missão no Bairro Vila Rosali, em São João de Meriti, anexo a Abadia São José Operário, congregação de catolicismo românico, pastoreada por dom Lapércio, que não conseguiu manter o aluguel do imóvel. 8 – Missão no Bairro Juscelino, em Nova Iguaçu, duas congregações, pela manhã de catolicismo românico e à tarde de catolicismo evangélico, usando parceria com a igreja batista. 9 – Missão no Bairro de Fátima, no Rio de Janeiro, congregação de catolicismo românico, pastoreada diretamente por dom Manoel Ceia Laranjeira, anexa a residência e escritório episcopal, mais tarde transferida para Bangu e Av. Rio Branco. 10 – Missão do Bairro Bangu, Rio de Janeiro, tendo os anexos SETESARJ, Residência Episcopal e funcionando episodicamente as quatro congregações: Congregação de catolicismo românico para assistência local, congregação de catolicismo evangélico, congregação de catolicismo oriental e congregação de ordens ascéticas para as aulas práticas de pastoral e liturgia do SETESA-RJ, diretamente sob o pastoreio de Dom Manoel Ceia Laranjeira, extinguiu-se com a morte de dom Manoel no período laperciano. 11 – Missão no Bairro da Lapa, Rio de Janeiro, funcionando duas congregações sob o meu pastoreio, pela manhã congregação de catolicismo românico e à tarde congregação de catolicismo evangélico, tendo anexo a residência episcopal e o espaço de psicologia de clínica pastoral sob minha responsabilidade. No período laperciano eu fui afastado, e após a morte de Dom Manoel, houve invasão do prédio com queima de arquivos e mobiliários da igreja. 12 – Missão do Bairro Cruz Vermelha, Rio de Janeiro, congregação de catolicismo ascético (Superior Padre Ramon), com assistência pastoral e social a população de baixa renda. Foi desativado com a morte do Padre superior. 13 – Missão doméstica do Padre Cabral, na margem da Via Dutra, em Nova Iguaçu, congregação de catolicismo evangélico junto as famílias nas vizinhanças da residência do padre Cabral. Foi desativada por motivo de doenças na família. 14 – Missão itinerante na Área Metropolitana do Grande Rio, com congregações de catolicismo evangélico, desenvolvendo o Apostolado de André e Felipe junto as famílias (anunciar a Jesus Cristo e prover assistência às famílias), em atividade até os dias de hoje, sob minhas responsabilidades. 15 – Missão do Bairro São Cristovão, no Rio de Janeiro, com congregações de catolicismo evangélico e catolicismo ascético, sob minha responsabilidade atual supervisão episcopal, desenvolvendo o apostolado de André e Felipe e Ministério Litúrgico. Palavras Finais Acho interessante que em todas as dioceses e arciprestados, passemos a produzir os relatórios das nossas atividades pastorais, para que tenhamos registro de memórias próprias e para que possamos divulgar para os irmãos o que estamos fazendo. Lamento que todas essas atividades nunca tinham sido alinhadas em publicações de relatórios, o que leva o nosso clero a não tomar conhecimento do que outros irmãos e colegas estão fazendo em outras localidades. Só me dei conta dessa lacuna, através da fala de Dom Augusto em áudio no wats ap. Peço que me perdoem por esse lapso. Que Deus nos abençoe Em 06/08/2016 Dia da Transfiguração do Senhor – dedicado à honra e consagração das vestes litúrgicas e religiosas - para nos lembrar que nas funções litúrgicas e ministeriais, devemos sempre estar revestidos do Cristo de Deus. Dom Felismar Manoel – Bispo primaz Catolicismo Apostólico Salomonita

segunda-feira, 22 de abril de 2024

Santas Regras de Atitudes Comportamentais Salomonitas (*) Para os Irmãos e Irmãs Salomonitas

 

(*) Estas Santas Regras foram compostas e assumidas sob juramento pelo Venerável Reverendo Salomão Barbosa Ferraz, Pastor Cristão Presbiteriano em 04/12/1902, e observadas por toda a sua vida, até a sua morte em 1969, enquanto Superior Geral da Ordem de Santo André e estando sob a Jurisdição da Igreja de Roma como Bispo Auxiliar de São Paulo e Titular de Eleutérnia. – Atualização em língua portuguesa do Brasil em 2023 - Dom Felismar Manoel


.


1.0 - Regras de Vida e Comprometimento Social


O Rev. Salomão Barbosa Ferraz, Pastor Presbiteriano, em 04/12/1902 jurou observar estes princípios em toda a sua vida, tendo-os cumpridos até sua morte em 1969, e são propostas como orientações para as atitudes comportamentais de todos e todas que assumem conviver conforme o carisma de seu apostolado unionista cristão credal apostólico, tanto na vida pessoal, como pastoral, social e espiritual, para a construção de um mundo melhor, digno do Reino da Boa Nova, conforme propõe o seu Credo Social.


1.2 – Regras de Vida - Ter atitudes comportamentais em quaisquer ambientes em que se encontrar, conforme segue:


I – Acolher com reverência e amor as orientações das Sagradas Escrituras do Velho e do Novo Testamentos, contextualizadas com os Santos Evangelhos de Jesus Cristo, tendo este como bússola para a vida e as práticas religiosas e espirituais;


II – Praticar a oração como um dever na vida, buscando seguir os exemplos de Jesus Cristo e dos seus apóstolos (Luc. 6: 12; Atos 6:4);


III – Não fazer comentários sobre as coisas que excitam e impressionam de modo pessoal, primeiro conversar sobre elas com Cristo em colóquios de oração;


IV – Não praticar o que excita a sua vaidade pessoal, ou desperta o seu desejo de reconhecimento, salvo se for absolutamente indispensáveis ao cumprimento do dever;


V – Não cultivar alegria em qualquer bem terreno, sem antes reconhecer nele a dádiva de Deus, tendo um coração agradecido;


VI – Não cultivar má vontade, nem indisposição, nem causar prejuízo para com ninguém e assumir como dever supremo, manter-se acolhedor, com boa vontade, coração compassivo e com lábios anunciadores das boas palavras.



1.3 – Comprometimentos Sociais – Assumir este Credo Social em união com todos como uma práxis, capaz de produzir uma harmoniosa convivência social e natural entre os seres vivos e um mundo melhor para toda a ordem da criação de Deus:



I –Empenhar-se nos votos de lealdade ao Senhor Jesus Cristo, ao seu Império espiritual e social, buscando a restauração de tudo em seu amor na Amada Pátria Brasileira ou quaisquer outras nações acolhedoras;


II – Comportar-se enquanto crente fiel a Jesus Cristo, buscando viver à vista de Deus, em comunhão com a irmandade dos humanos, todos os santos, anjos e criaturas de Deus; com a Igreja Universal, visível e invisível, de todos os tempos, no passado, no presente e no futuro, pondo-se como honrado/a e feliz nessa solidária e fraternal companhia;


III – Reconhecer e confessar sempre a paternidade de Deus para toda a ordem de criaturas existentes, como a origem de todas as coisas e também da humanidade, sendo todos nós, portanto, irmãos de origem de todas as criaturas de Deus, sem impedimento de raça, de nacionalidade, de classe, de gênero, de identidade e de credo, ou outras singularidades;


IV – Reconhecer que os mais pequeninos e humildes membros do gênero humano, são os que merecem maior cuidado e solicitude de seus irmãos;


V – Empenhar-se para que não falte aos seres humanos, nem o trabalho honroso, nem o pão de cada dia, nem o agasalho, nem a moradia, nem a educação, nem a saúde, ou quaisquer outras coisas que imponha o respeito à dignidade da pessoa, para que todos cheguem a Deus, a Fonte Suprema da Luz, do Amor e de todo o Bem;


VI – Empenhar-se para que o mal seja banido do mundo e que as bençãos temporais e espirituais da vida sejam partilhadas por todos os seres humanos na face da terra em paz e solidariedade com todas as criaturas de Deus na ordem da criação em nosso planeta;


VII - Confiar sempre na força do Senhor Jesus Cristo para cumprir tais propósitos, buscando e promovendo a união com todos quantos confessam o Santo Nome de Deus e Jesus Cristo, nosso Irmão, Mestre, Senhor e Salvador.


1.4 – Testemunhar a Sagrada Fé Cristã Credal Apostólica, conforme segue:


I – Praticar um Catolicismo autêntico, acolhedor, vinculado à Sucessão Apostólica, que oportuniza a salvação eterna para quaisquer tipos de pecadores, disponibilizando a todos e todas os sete sacramentos e demais riquezas espirituais e litúrgicas do Ministério Cristão, voltado para Deus, para os seres humanos e para as Pátrias ou Nações onde estiver em atividades pastorais e espirituais;


II – Manter-se como movimentos apostólicos ou institucionais autônomas, livres de quaisquer tutelas políticas, tanto nacional como de sedes estrangeiras, com independência para agir tão somente, em Nome de Jesus Cristo, o Santo Alforriador, Chefe da Santa Igreja Católica Apostólica no mundo, conforme as legítimas tradições apostólicas e de santos padres, tendo os Santos Evangelhos como bússola norteadora de dúvidas e dissenções.


Dom Felismar Manoel – Abuna do Ancianato do Monastério Sagrada Compaixão. Duque de Caxias, RJ

sábado, 5 de março de 2022

O Povo Pury – Seus Três Subgrupos

  Nhãmãrrúre Stxutér / Felismar Manoel

Quando de nossas instruções infanto juvenis sobre histórias de ancestralidades, vivendo nas aldeias rurais (ambó goára), recebemos informações de nosso Opê-Antár (maior autoridade da aldeia), do Opê-Tarré (preceptor na formação infantil) e dos mais velhos em geral, de que o Povo Pury há muitíssimo tempo passado, vivia com o Povo Goitaká e que de entre eles saíram três grupos familiares tornando-se o Povo Pury, por discordarem de outras condutas e se constituírem em gente mais bondosa, desconfiada e observadora (definição de pury), diversa dos demais, sempre se esforçando para ser fiéis às exortações de três Môdeuá-Lamãe (Entidades criadas por Dokóra) vindos do mundo dos Encantados de Dokóra, tornando-se enquanto povo, guardiães de suas sabedorias nas comunidades onde vivem. Assim surgiu o Povo Pury, distinto como nação (Antxíkaré), distribuídos em tribos (Txeminára) com diversas aldeias (tistxóre-goára e ambó-goára), conforme foram crescendo e se espalhando as famílias (arekím-teké) pela terra (Utxô), formados em três subgrupos intra étnicos, como segue:


1 – Pury Sabonã, os guardiães dos encontros festivos, orientados e protegidos pelo Grande Espírito Sabonã (Deuá-Lamã), que tem como seu animal simbólico a borboleta (simpreú), povo alegre e que tem alta aptidão para organizar e bem dominar as celebrações dos festivais e encontros festivos do povo em geral durante o ano.


2 – Pury Uambóri (Uã+bó+rri), os guardiães da fertilidade do solo e do bem-estar dos viventes, sendo orientados e protegidos pelo Grande Espírito Uã/ Uán (Deuá-Lamã), tendo como ente simbólico a árvore, que tem suas raízes no solo, o seu tronco no ar e suas folhas expostas ao sol e voltadas para os céus; povo reticente, com desenvolvida aptidão para o cuidado e cultivo do solo e uso dos vegetais para a saúde da terra e a manutenção do bem-estar dos seus ocupantes. --- Uã = Deuá-Lamã; bó / ambó = árvore; rri = fertilidade --- O meu clã pertence a este subgrupo, sendo meu tronco familiar depositário das responsabilidades na proteção das raizes (kaiá).


3 – Pury Xamixúma, os guardiães da proteção das cobras, sendo Xamú o Grande Espírito protetor das cobras (Deuá-Lamã), tendo como animal simbólico o Urutú Cruzeiro. Quando os homens se embrenham nas florestas em atividades de caça, algumas mulheres se preparam para acompanhá-los, pintando em seus braços a cobra, sendo as mediadoras para protegê-los dos ataques das cobras em geral. --- Há uma crença que a cobra Tótem (Urutú Cruzeiro), quando em presença dos raios da luz solar, produz um reflexo luminoso capaz de desnortear as mulheres virgens, por isso só as casadas podem acompanhar os homens na caçada.


Além da divisão intra étnica dos pury, por vezes se ouvia uma divisão um tanto pejorativa, feita pelos partidários dos invasores europeus, pretensamente como se fossem sábios: classificavam os pury de estatura mediana como puri, os de baixa estatura como puri mirim e os de mais alta estatura como puri açú.


O povo pury considera a mulher como a matriz principal constituinte da etnia pury, mas integra com muita boa vontade os homens de outras etnias que se casam com mulheres pury, após demonstrem ações afirmativas da cultura pury. Isto fez surgir entre os pury os conceitos de branco pury, preto pury e muito provavelmente o pardo pury, naturalmente frutos da influenciação euro cultural da convivência na terra violada pelos invasores. O povo pury adotou a palavra “bugre” para identificar as pessoas de caráter duvidoso, ou mesmo de mau caráter, nas quais não se deve devotar confiança, como também a palavra “goianá” para identificar a pessoa que se comportava como verdadeiro amigo de pessoas de outras etnias (estrangeiras), bem como a palavra “guarú” para identificar os indígenas que eram retirados de seus habitats naturais e trazidos para outras localidades, fazendo deles verdadeiros “estranhos no ninho”. Muitas coisas mentirosas se falaram e escreveram sobre nós pury, mesmo se apresentando como os sábios da época; não havia nenhum compromisso com a alteridade _- fundamento essencial da antropologia – falavam sobre nós sem ser um de nós, nem conviver conosco, ignorando o fato de sermos uma cultura construída e sustentada na oralidade por muitos e através de longo tempo; o que viam em suas visitas e ouviam de nossos falares e fazeres, eram relatados conforme interpretados por suas consciências pessoais, demonstrando uma preocupação de apresentar algo para quem lhes dava sustentação aqui em terras de Pindorama e talvez receberem láureas acadêmicas na Europa. Não são confiáveis para mim. Onde ficaram as observações participativas dos estágios de convivência de todo esses tais relatores? Tem sido transformados os relatos de curiosidades reveladas como se fossem estudos científicos. Os pury de nossa região, principalmente de Ubá, Visconde de Rio Branco, São Geraldo, Guiricema e Guidoval, aprenderam a fazer troças na hora de explicar as traduções, quando desconfiavam que tais interlocutores não eram intencionados corretamente. Aqui cabe uma interjeição pury: Âtxe! Até quando vai durar essa lenga-lenga! - Em 05/03/2022 -

Nhãmãrrúre Stxutér / Felismar Manoel -


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

3 - Memórias Pury – Gemúmae Pury - Pai Nosso Pury – Pantxarré Pury

 

Lembranças de minha aldeia rural / Gemúnae unhúm birruã ambó-goára (gaambó-goára).


Memórias da Aldeia Rural Pury de Fazenda dos Gregórios em Cruzeiro, Distrito de Tuiuitinga(**), Município de Guiricema, Zona da Mata, Estado de Minas Gerais, Brasil.


por Nhãmãnrure Stxutér Pury (*)

(Felismar Manoel)


(*) O texto pury está escrito conforme a pronúncia percebida, usando os recursos do português brasileiro; (**) O povo pury pronuncia TUIUITINGA (tuiu ou tuim = periquito - pássaro verde - , e itinga = lugar preferido por esses pássaros.



Pai Nosso na versão pury – Pantxarré Pury – Uma apropriação adaptativa das ideias cristãs populares pelos puris de segunda e terceira geração.



1.0 - Uma observação preliminar – Minha bisavó era gente originária da floresta, conhecida entre seu povo pelo nome de Perruã, que foi capturada pelos brancos invasores na infância, por fazendeiros portugueses nas florestas das margens do Rio Pombos, sendo batizada por seus algozes com um nome cristão, que ela nunca aceitou, passando a se identificar como Indira Pury, por observar que havia certo fascínio das gentes da fazenda por esse nome (de origem indiana creio), que traz o significado da beleza da água da chuva; ao atingir a puberdade foi dada em união ao escravo africano da fazenda, que também não aceitara seu nome cristão imposto pelo batismo, e referia a si próprio como Tongo Mina, tongo com o significado de homem honrado entre seu povo étnico mina da África.


1.1 - Com a libertação dos escravos, saíram dos domínios da fazenda de seus algozes, e moraram inicialmente nas cercanias do lugarejo chamado cidade de Pombas atualmente; dessa união o casal teve três filhos, surgindo a primeira geração pury da minha linhagem de ascendentes: Deco Pury, Maria Graciana (minha avó materna) e Juca Pury, todos sendo batizados no catolicismo da época, sendo criados entre duas posições culturais em conflito: uma cultura católica portuguesa brasileira que falava de bondade, mas que agia de modo desrespeitoso e descaridoso para com os povos originários das florestas e com os escravos e seus descendentes, e por outro lado, não tinha facilidades de praticar os valores étnicos e culturais, nem dos povos das florestas, nem dos povos africanos. Suas culturas étnicas eram sufocadas por estratégias dos invasores brancos, com respaldo do clero do catolicismo romano, que viviam à sombra dos poderosos poderes políticos e econômicos dos invasores dominadores.


1.2 - A minha vó materna Maria Graciana casou com um cidadão português de nome Juaquim Soares de Souza (Lima) – este se apaixonara pela medicina natural pury e se tornou homeopata pury sistematizando o seu repertório homeopático – e dessa união surgiu a segunda geração pury de minha ascendência, por seus filhos: Sonito Soares, Elmira Soares, Carolina Soares, Salvina Soares, Maria Soares (minha mãe) e Arquimedes Soares; esta segunda geração pury passou por uma educação e instrução piedosa, reverente aos valores espirituais, mas nefasta, pois negava valores e altaneiridade aos conteúdos do povo pury, considerando-os pessoas inferiores, simplistas e bobas, negando condições de sua manutenção e continuidade enquanto sujeitos étnicos, inclusive com denodado esforço de apagamento de seus falares e modos de vida.


1.3 - Minha mãe, Maria Soares , uma pury de segunda geração, portanto, teve seu primeiro casamento, e dele teve quatro filhos: Onesta, Nair, Omiro e Carlita, ficando viúva ainda jovem, casando-se em segundas núpcias com meu pai, Felicio Manoel Julinho, descendente de troncos italianos, (também viúvo com cinco filhos: Maria, Luzia, Alverina, Alvenira e José) e dessa segunda união nascendo mais seis filhos: Messias José, Joaquim, João, Edes, Felismar (eu) e Sudário, constituindo esta a terceira geração pury, na qual me incluo.


2.0 - Vale observar que, enquanto a segunda geração pury assimilava os valores da cultura e religião católica dos brancos invasores, tornando-se uma população “caipira”, de certa maneira dócil em seu apagamento das origens, constituía-se instrumento útil às manobras de hegemonia dos algoses brancos invasores – com surgimento de alguns raros jovens destemidos e prudentes conservadores da herança étnica pury, - já na terceira geração começou por surgir bom número de jovens, como um povo desconfiado das posições dos brancos invasores, e da massa popular que se formava em seu apoio e dependência; os resultados das estratégias adotadas pelo terceiro encontro de lideranças pury da região, (em 1903), começaram a surgir de modo efetivo, unindo esforços e apoios de alguns remanescentes dos povos originários como fontes de memórias e saberes (de modo prudente), mais outros da primeira e segunda geração, assumindo postos de serviços dos brancos (onde podiam trazer alguns benefícios à etnia), e valendo-se dessa posição “privilegiada”, fazer o que tivesse ao alcance em favor dos valores culturais e espirituais do povo pury originários das florestas. Foi assim que surgiu a versão do Pai Nosso Cristão, adaptados aos modos de ser pury, que abaixo resgato para nós.



3.0 - Pai Nosso

(versão nos falares pury da minha região)



1 - Deuá Lamã Dokóra!

Grande Espírito Dokóra!

Pantxarré unhúm okóra txaé.

Pai nosso no céu viver

2 – Tanú diémandjira,

Santificado seja o seu nome,

3 – Tiatapã diémapúia

Seja feita a sua vontade,

4 – Kará plêuake utxô, aloú kagrána okóra.

Aqui na terra, como no céu.



5 – Parrín panké ungepompá linaká operára,

Hoje nos dá o alimento de todos os dias,

6 – Tekuá karrón panaréten moiamá,

Perdoa (apazigua) nossas dívidas,

7 – Kará plêuake pantekuá karrón

Assim como perdoamos

8 – Terrón panké aréten mioamá,

Aqueles que nos devem,

9 – Pantekondé unhún kandé kaiuáne,

Nos guarde de cair(quebrar) nas trapaças,

10 – Makín pantakín unhúm ukandjeriká.

Mas nos livre das maldades e misérias.

11 – Gandeú taperéluá diédaitxé,

Porque de direito é seu tudo,

12 – Tamapú, kansú unhúm monekroión.

A honra, o poder e a glória.

Tekuára-sú! Tekua-sú!

Paz natural (diversas em harmonia)! Paz!



3.1 - Observação – Em alguns contextos ou contingências vivenciais, alguns pury tinham que irem à Missa (Mánge Uipangé), frequentar o catecismo (Arizar-txina) e às vezes tendo que confessar (Perembó) com o padre (Oaré-Terengambô). Por isto o interesse na versão construída conforme a consciência pury. Muitos padres não sabiam a língua dos pury e não percebiam a versão adaptada.


Nhãmãrrure Stxutér Pury (Felismar Manoel)




sábado, 9 de janeiro de 2021

2 - Memórias Pury – Gemúmae Pury - Dentes, instrumentos da saúde – Djêa tipímo

 

Lembranças de minha aldeia rural/Gemúnae unhúm birruã ambó-goára (gaambó-goára).


Memórias da Aldeia Rural Pury de Fazenda dos Gregórios em Cruzeiro, Distrito de Tuiuitinga, Município de Guiricema, Zona da Mata, Estado de Minas Gerais, Brasil.


por Nhãmãnrure Stxutér Pury (*)

(Felismar Manoel)


(*) O texto pury está escrito conforme a pronúncia percebida, usando os recursos do português brasileiro.



A Saúde da Boca – Tipímo-Txoré (Tipímo unhúm Txoré)

Dentes, instrumentos da saúde - Djêa Tipímo.



Uma curiosidade – Quando um dente de leite de uma criança já estava mole, fácil para ser extraído, um adulto amarrava uma linha nele e pedia a criança para manter a linha esticada, enquanto isto, outra pessoa procurava provocar um susto na criança, que, com o impacto sentido, acabava por arrancar o dente de leite sem a criança nada de grave sentir, sendo que quando era o primeiro dente extraído, ele era jogado acima, sobre o telhado, ou outra cobertura, para que o rato o carregasse e então, o lamã (espírito) protetor dos dentes , trouxesse um outro dente novo para a criança nativa das florestas (indígena).


Desde bem cedo se cuidava da saúde dos dentes das crianças, pois o sistema de tratamento da saúde do povo pury considera os dentes como instrumentos para a saúde (Djêa tipímo), bem como a boca (txoré) e os lábios (txé, txéa), por isso, na época do frio, lavava-se às mãos, e com a polpa do dedo limpo, molhava-o no azeite com malva cheirosa e espalhava-o nos lábios para proteger.


O azeite da mamona era produzido pelo povo pury e era aquecido com folhas de malva cheirosa, ou com flor do algodoeiro, deixando esfriar, quando então se retirava as folhas ou flores, e guardava-o para uso na proteção com o unguento labial (buzunto txéa).


Com frequência lavava-se a boca, fazendo bochechos com água de hortelã e casca de juá vermelho ou amarelo. Quando se comia pequenos pássaros ou outros pequenos animais assados (os que não olham para o céu de Dokóra), se ficassem detritos da comida entre os dentes, usava-se o fio de guaxima para passar entre os dentes e retirar tais resíduos, sempre usando os bochechos com água de hortelã e juá. (A guaxima é um tipo de malvona muito comum nas regiões próximas as florestas, sendo utilizada suas fibras para confeccionar diversas peças de uso nas famílias pury).


Toda fase da lua crescente, desde os sete anos, os puris escovam seus dentes esfregando a casca do juá e depois usando uma pequena escova, tipo vassourinha, feita com um ramo descascado e macerado com pancadas de madeira, para separar suas fibras e no final enxágua a boca com bochechos de água ou chás de hortelã. Essa pequena escova ou vassoura para os dentes, é feita de um abundante e diversificado vegetal genericamente chamados de “vassouras”, ainda existente na minha atual região (não sei qual é a sua classificação botânica).


Usava-se também esfregar o pó de carvão vegetal com a polpa do dedo nos dentes, usando retalhos de bucha vegetal, para retirar as placas amareladas das superfícies dos dentes, sempre usando água corrente e enxaguando com a água de hortelã.


Diariamente, antes de dormir, o adulto pury examina a boca e os dentes com seu dedo, coloca água de hortelã e esfrega as gengivas, após cuidar de seus dentes. Não conheci cáries dentárias entre os nativos que vivenciavam só a cultura pury, mas outros com hábitos de comer os doces dos brancos, apareciam os dentes estragados, inclusive as dores dos dentes, que eram tratadas com fumaça do fumo de rolo queimado nos “pitos de barro” construídos de cerâmica pury, incidindo o fluxo da fumaça na região do dente estragado; quando havia as dores de dentes, sem dente estragado, se usava tomar o chá de cravo (tempero de cozinha).

A água de hortelã podia ser substituída pelo extrato alcoólico de hortelã, produzido no sistema de tratamento de saúde pury (Florália Pury), misturado com água.



segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

1 - Memórias Pury – Gemúmae Pury - Lembranças de minha aldeia rural/Gemúnae unhúm birruã ambó-goára (gaambó-goára).

 

Memórias da Aldeia Rural Pury de Fazenda dos Gregórios em Cruzeiro, Distrito de Tuiuitinga, Município de Guiricema, Zona da Mata, Estado de Minas Gerais, Brasil.


por Nhãmãnrure Stxutér Pury (*)

(Felismar Manoel)


(*) O texto pury está escrito conforme a pronúncia percebida, usando os recursos do português brasileiro.



Estratégias Aprovadas no Terceiro Encontro de Lideranças Puris da Zona da Mata, em Goianá (ou com goianáe)



Conforme a sabedoria dos mais velhos (Trirronára leká Tarréa iu Antáre), eram construídas nossas memórias de identidade e caráter, para nutrir e sustentar nossos ideais no mundo de Dokóra, protegidos por Tupã. Assim, cumpre-me narrar:


Txina Pury foi o Opê-Antár de minha Aldeia Rural(Ambó-Goára); ele nasceu cerca do ano 1848, pertencente a mesma Aldeia Florestal (Tistxoré-Goára) de minha bisavó Perruã Pury (Indira Pury – nome adotado quando capturada), que viveram na região de Rio Pombas. Seus clãs familiares eram do Vale das Ervas Curativas (Dotapá Muúm unhúm Sponge-ndondea), mais ou menos na região de Ervália, que desceram o fluxo do Rio dos Bagres, fugindo da perseguição dos brancos colonizadores por aquelas bandas; habitaram por todas as margens do Rio dos Bagres, indo até o Rio Xopotó e daí ao Rio Pombas.


Todas essas regiões eram moradias dos puris, dos coroados e dos coropós, parentes originados em passado muito distante, dos indígenas goitacazes, dos quais se separaram por desavenças internas, por rixas, por desentendimentos entre famílias intra-étnicas, optando por construírem seus próprios destinos, embora mantendo muita proximidade entre puris e coroados, os quais conviviam e se auxiliavam mutuamente, tendo havido, entretanto, certo desentendimento entre puris e coroados nas aldeias do Rio Pombas, após a chegada dos invasores colonizadores nessa região específica, mas cultivando amizades e apoios com outras aldeias, com congraçamento constante entre puris e coroados da região de Ubá, Guidoval, Visconde do Rio Branco, São Geraldo, Guiricema, Miraí e comunidades das cercanias, todas elas participantes do terceiro encontro de lideranças puris, quando buscavam planejar estratégias de enfrentamento contra as adversidades surgidas pela convivência com os brancos invasores.


Em busca de estratégias para enfrentamento contra as agressões dos invasores dos territórios, o Povo Pury realizou encontros de lideranças das aldeias, tendo dois desses encontros falhados em seus propósitos, porque houve penetração de puri do mal (puri bugre) que delatou os objetivos, motivando agressões ao nosso povo. Cerca de 1903, aconteceu o terceiro encontro dessas lideranças puris, com a participação do povo de Miraí, Muriaé, Guiricema, Visconde de Rio Branco, Guidoval, São Geraldo, Ubá e Ervália, desta vez com Goianá, sem a presença de bugres, não sabendo ao certo, se foi gente goianá (amigo dos estrangeiros), ou a localidade Goianá.


Desse encontro ficou decidido montar estratégias para introduzir os jovens puris nas escolas formadoras dos brancos, para que adquirissem suas expertises e as utilizassem nos postos de serviços dos brancos, no sentido de proteger os indígenas puris e de outras etnias. Ficou assim decidido:

1 – Que se organizem as aldeias rurais (ambó-goárae), mais abertas, acolhendo comunidades de famílias puris da região, mesmo dispersas, mas com fidelidade aos costumes puris;

2 – As crianças (sámbe) sejam instruídas pelas mães (inhãe), os Preceptores (Opê-Tarréa); os jovens e os adultos procurem sempre ouvir o conselho dos mais velhos (Tarreára) para as tomadas de decisões; que todos privilegiem as decisões do Opê-Antár de cada aldeia;

3 – Que cada aldeia se dedique a desenvolver de modo específico a alguma expertise da sabedoria pury, visando influenciar os brancos invasores e outros não indígenas, procurando preencher as lacunas de suas necessidades ou vulnerabilidades.

4 -Observo eu, que falharam em duas estratégias não cogitadas, assim colaborando para o agravamento da situação dos indígenas puris:

a) – Não se pontuou nenhuma defesa de posse local, nem requereu e delimitação do território aos puris.

b) – Não se pensou em manutenção e domínio dos falares e fazeres puris, mesmo em situações adversas, para que se continuasse a pensar em puri, visto que a linguagem oportuniza a prática do pensar.


Eu fui protagonista, interagindo em três aldeias rurais: a da minha própria moradia de Fazenda dos Gregórios, em Cruzeiro; a de Tuiuitinga(*); e a do Pé da Serra de Tuiuitinga. - (*) Em língua pury os “pássaros verdes” da família periquitos são chamados TUIU ou TUIM, e “localidade preferida”, é chamada de ITINGA, por isso se atribui que o nome TUIUITINGA seja porque essa localidade era a mais preferida por esses pássaros – Essas três aldeias rurais se dedicaram ao desenvolvimento de expertises da sabedoria pury, conforme as decisões aprovadas no terceiro encontro de lideranças pury. Assim:


a) A minha Aldeia Rural (Ambó-Goára) da Fazenda dos Gregórios se dedicou ao desenvolvimento da medicina pury, na qual recebi treinamento, cuidando do cultivo das plantas curativas e preparo dos remédios a partir das ervas e alguns resíduos animais, produzindo os extratos alcoólicos, as botijas e tsanas de bambus apropriadas, bem como seu escalonamento em diluições adequadas até o terceiro nível de fortalecimento, instruindo aos populares como usar os banhos florais e folhais para os estágios emocionais alterados geradores de doenças, e aos curadores (opê-ndondea), a interpretação dos estados de enfermidades e o uso adequado das soluções para tratamento;


b)A Aldeia Rural de Tuiuitinga que eu às vezes visitava, que se dedicou a treinamento de jovens inteligentes e audazes, para a partir do domínio de conhecimento de suas expertises técnicas, aprendidas em suas escolas e treinamentos, dialogarem com tais especialistas brancos, em possível pé de igualdade, sobre nossos saberes pury. Disto resultou fixar moradia em Tuiuitinga, tratadores de doenças (txarré-ndondea), tratadores de animais (txarré-txamae), medidores de terra/solo térreo (kuruíndô-atxéa), conhecedores do solo/adequação do solo ao cultivo (opê-atxéa);


c) A Aldeia Rural do Pé da Serra de Tuiuitinga, onde fui professor municipal das crianças, aldeia essa que se dedicou a promover experiências com as plantações agrícolas, visando adequação de plantas a qual tipo de solo, bem como formas de armazenamento seguro da produção de grãos, para seu uso adequado no tempo que necessitasse, surgindo diversas técnicas de conservação contra bichos;


d) Constava ainda, mas eu não visitei, a Aldeia Rural de Guidoval, voltada a produção dos artesanatos pury; em Ervália uma Aldeia Rural dedicada a selecionar o cultivo de plantas curativas de doenças e “malidades” que atacassem a população. Informavam ainda que em Miraí, Muriaé, Manhumirim e outras regiões do estado do Espírito Santo, estavam se dedicando a divulgar nossos instrumentos musicais puris, como flautas, tambores, chocalhos e violas, inclusive divulgando a plantação de taquaras e tabocas. Não visitei esses locais para conferir.


Tenu-arri Dokóra que me permitiu essas experiências de vida! Tenu-arri Tupã por ter me protegido durante esses meus 82 anos de existência aqui na Utxô. Sua benção Dokóra/Ksapernhé-tinxú Dokóra! Sua benção Tupã/Ksapernhé-tinxú Tupã! - Nhãmãnrrure Stxutér Pury/Felismar Manoel – Duque de Caxias, RJ. 28/12/2020.