quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

3 - Memórias Pury – Gemúmae Pury - Pai Nosso Pury – Pantxarré Pury

 

Lembranças de minha aldeia rural / Gemúnae unhúm birruã ambó-goára (gaambó-goára).


Memórias da Aldeia Rural Pury de Fazenda dos Gregórios em Cruzeiro, Distrito de Tuiuitinga(**), Município de Guiricema, Zona da Mata, Estado de Minas Gerais, Brasil.


por Nhãmãnrure Stxutér Pury (*)

(Felismar Manoel)


(*) O texto pury está escrito conforme a pronúncia percebida, usando os recursos do português brasileiro; (**) O povo pury pronuncia TUIUITINGA (tuiu ou tuim = periquito - pássaro verde - , e itinga = lugar preferido por esses pássaros.



Pai Nosso na versão pury – Pantxarré Pury – Uma apropriação adaptativa das ideias cristãs populares pelos puris de segunda e terceira geração.



1.0 - Uma observação preliminar – Minha bisavó era gente originária da floresta, conhecida entre seu povo pelo nome de Perruã, que foi capturada pelos brancos invasores na infância, por fazendeiros portugueses nas florestas das margens do Rio Pombos, sendo batizada por seus algozes com um nome cristão, que ela nunca aceitou, passando a se identificar como Indira Pury, por observar que havia certo fascínio das gentes da fazenda por esse nome (de origem indiana creio), que traz o significado da beleza da água da chuva; ao atingir a puberdade foi dada em união ao escravo africano da fazenda, que também não aceitara seu nome cristão imposto pelo batismo, e referia a si próprio como Tongo Mina, tongo com o significado de homem honrado entre seu povo étnico mina da África.


1.1 - Com a libertação dos escravos, saíram dos domínios da fazenda de seus algozes, e moraram inicialmente nas cercanias do lugarejo chamado cidade de Pombas atualmente; dessa união o casal teve três filhos, surgindo a primeira geração pury da minha linhagem de ascendentes: Deco Pury, Maria Graciana (minha avó materna) e Juca Pury, todos sendo batizados no catolicismo da época, sendo criados entre duas posições culturais em conflito: uma cultura católica portuguesa brasileira que falava de bondade, mas que agia de modo desrespeitoso e descaridoso para com os povos originários das florestas e com os escravos e seus descendentes, e por outro lado, não tinha facilidades de praticar os valores étnicos e culturais, nem dos povos das florestas, nem dos povos africanos. Suas culturas étnicas eram sufocadas por estratégias dos invasores brancos, com respaldo do clero do catolicismo romano, que viviam à sombra dos poderosos poderes políticos e econômicos dos invasores dominadores.


1.2 - A minha vó materna Maria Graciana casou com um cidadão português de nome Juaquim Soares de Souza (Lima) – este se apaixonara pela medicina natural pury e se tornou homeopata pury sistematizando o seu repertório homeopático – e dessa união surgiu a segunda geração pury de minha ascendência, por seus filhos: Sonito Soares, Elmira Soares, Carolina Soares, Salvina Soares, Maria Soares (minha mãe) e Arquimedes Soares; esta segunda geração pury passou por uma educação e instrução piedosa, reverente aos valores espirituais, mas nefasta, pois negava valores e altaneiridade aos conteúdos do povo pury, considerando-os pessoas inferiores, simplistas e bobas, negando condições de sua manutenção e continuidade enquanto sujeitos étnicos, inclusive com denodado esforço de apagamento de seus falares e modos de vida.


1.3 - Minha mãe, Maria Soares , uma pury de segunda geração, portanto, teve seu primeiro casamento, e dele teve quatro filhos: Onesta, Nair, Omiro e Carlita, ficando viúva ainda jovem, casando-se em segundas núpcias com meu pai, Felicio Manoel Julinho, descendente de troncos italianos, (também viúvo com cinco filhos: Maria, Luzia, Alverina, Alvenira e José) e dessa segunda união nascendo mais seis filhos: Messias José, Joaquim, João, Edes, Felismar (eu) e Sudário, constituindo esta a terceira geração pury, na qual me incluo.


2.0 - Vale observar que, enquanto a segunda geração pury assimilava os valores da cultura e religião católica dos brancos invasores, tornando-se uma população “caipira”, de certa maneira dócil em seu apagamento das origens, constituía-se instrumento útil às manobras de hegemonia dos algoses brancos invasores – com surgimento de alguns raros jovens destemidos e prudentes conservadores da herança étnica pury, - já na terceira geração começou por surgir bom número de jovens, como um povo desconfiado das posições dos brancos invasores, e da massa popular que se formava em seu apoio e dependência; os resultados das estratégias adotadas pelo terceiro encontro de lideranças pury da região, (em 1903), começaram a surgir de modo efetivo, unindo esforços e apoios de alguns remanescentes dos povos originários como fontes de memórias e saberes (de modo prudente), mais outros da primeira e segunda geração, assumindo postos de serviços dos brancos (onde podiam trazer alguns benefícios à etnia), e valendo-se dessa posição “privilegiada”, fazer o que tivesse ao alcance em favor dos valores culturais e espirituais do povo pury originários das florestas. Foi assim que surgiu a versão do Pai Nosso Cristão, adaptados aos modos de ser pury, que abaixo resgato para nós.



3.0 - Pai Nosso

(versão nos falares pury da minha região)



1 - Deuá Lamã Dokóra!

Grande Espírito Dokóra!

Pantxarré unhúm okóra txaé.

Pai nosso no céu viver

2 – Tanú diémandjira,

Santificado seja o seu nome,

3 – Tiatapã diémapúia

Seja feita a sua vontade,

4 – Kará plêuake utxô, aloú kagrána okóra.

Aqui na terra, como no céu.



5 – Parrín panké ungepompá linaká operára,

Hoje nos dá o alimento de todos os dias,

6 – Tekuá karrón panaréten moiamá,

Perdoa (apazigua) nossas dívidas,

7 – Kará plêuake pantekuá karrón

Assim como perdoamos

8 – Terrón panké aréten mioamá,

Aqueles que nos devem,

9 – Pantekondé unhún kandé kaiuáne,

Nos guarde de cair(quebrar) nas trapaças,

10 – Makín pantakín unhúm ukandjeriká.

Mas nos livre das maldades e misérias.

11 – Gandeú taperéluá diédaitxé,

Porque de direito é seu tudo,

12 – Tamapú, kansú unhúm monekroión.

A honra, o poder e a glória.

Tekuára-sú! Tekua-sú!

Paz natural (diversas em harmonia)! Paz!



3.1 - Observação – Em alguns contextos ou contingências vivenciais, alguns pury tinham que irem à Missa (Mánge Uipangé), frequentar o catecismo (Arizar-txina) e às vezes tendo que confessar (Perembó) com o padre (Oaré-Terengambô). Por isto o interesse na versão construída conforme a consciência pury. Muitos padres não sabiam a língua dos pury e não percebiam a versão adaptada.


Nhãmãrrure Stxutér Pury (Felismar Manoel)




sábado, 9 de janeiro de 2021

2 - Memórias Pury – Gemúmae Pury - Dentes, instrumentos da saúde – Djêa tipímo

 

Lembranças de minha aldeia rural/Gemúnae unhúm birruã ambó-goára (gaambó-goára).


Memórias da Aldeia Rural Pury de Fazenda dos Gregórios em Cruzeiro, Distrito de Tuiuitinga, Município de Guiricema, Zona da Mata, Estado de Minas Gerais, Brasil.


por Nhãmãnrure Stxutér Pury (*)

(Felismar Manoel)


(*) O texto pury está escrito conforme a pronúncia percebida, usando os recursos do português brasileiro.



A Saúde da Boca – Tipímo-Txoré (Tipímo unhúm Txoré)

Dentes, instrumentos da saúde - Djêa Tipímo.



Uma curiosidade – Quando um dente de leite de uma criança já estava mole, fácil para ser extraído, um adulto amarrava uma linha nele e pedia a criança para manter a linha esticada, enquanto isto, outra pessoa procurava provocar um susto na criança, que, com o impacto sentido, acabava por arrancar o dente de leite sem a criança nada de grave sentir, sendo que quando era o primeiro dente extraído, ele era jogado acima, sobre o telhado, ou outra cobertura, para que o rato o carregasse e então, o lamã (espírito) protetor dos dentes , trouxesse um outro dente novo para a criança nativa das florestas (indígena).


Desde bem cedo se cuidava da saúde dos dentes das crianças, pois o sistema de tratamento da saúde do povo pury considera os dentes como instrumentos para a saúde (Djêa tipímo), bem como a boca (txoré) e os lábios (txé, txéa), por isso, na época do frio, lavava-se às mãos, e com a polpa do dedo limpo, molhava-o no azeite com malva cheirosa e espalhava-o nos lábios para proteger.


O azeite da mamona era produzido pelo povo pury e era aquecido com folhas de malva cheirosa, ou com flor do algodoeiro, deixando esfriar, quando então se retirava as folhas ou flores, e guardava-o para uso na proteção com o unguento labial (buzunto txéa).


Com frequência lavava-se a boca, fazendo bochechos com água de hortelã e casca de juá vermelho ou amarelo. Quando se comia pequenos pássaros ou outros pequenos animais assados (os que não olham para o céu de Dokóra), se ficassem detritos da comida entre os dentes, usava-se o fio de guaxima para passar entre os dentes e retirar tais resíduos, sempre usando os bochechos com água de hortelã e juá. (A guaxima é um tipo de malvona muito comum nas regiões próximas as florestas, sendo utilizada suas fibras para confeccionar diversas peças de uso nas famílias pury).


Toda fase da lua crescente, desde os sete anos, os puris escovam seus dentes esfregando a casca do juá e depois usando uma pequena escova, tipo vassourinha, feita com um ramo descascado e macerado com pancadas de madeira, para separar suas fibras e no final enxágua a boca com bochechos de água ou chás de hortelã. Essa pequena escova ou vassoura para os dentes, é feita de um abundante e diversificado vegetal genericamente chamados de “vassouras”, ainda existente na minha atual região (não sei qual é a sua classificação botânica).


Usava-se também esfregar o pó de carvão vegetal com a polpa do dedo nos dentes, usando retalhos de bucha vegetal, para retirar as placas amareladas das superfícies dos dentes, sempre usando água corrente e enxaguando com a água de hortelã.


Diariamente, antes de dormir, o adulto pury examina a boca e os dentes com seu dedo, coloca água de hortelã e esfrega as gengivas, após cuidar de seus dentes. Não conheci cáries dentárias entre os nativos que vivenciavam só a cultura pury, mas outros com hábitos de comer os doces dos brancos, apareciam os dentes estragados, inclusive as dores dos dentes, que eram tratadas com fumaça do fumo de rolo queimado nos “pitos de barro” construídos de cerâmica pury, incidindo o fluxo da fumaça na região do dente estragado; quando havia as dores de dentes, sem dente estragado, se usava tomar o chá de cravo (tempero de cozinha).

A água de hortelã podia ser substituída pelo extrato alcoólico de hortelã, produzido no sistema de tratamento de saúde pury (Florália Pury), misturado com água.