quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

A Fisiologia do Adolescente e o Tornar-se Pessoa


Prof. Dr. Felismar Manoel (1)

RESUMO

Através de pesquisa bibliográfica diacrônica, procurou-se conhecer a opinião de diferentes especialistas, sobre a ocorrência dos principais eventos fisiológicos da adolescência e sua significância com relação à formação da personalidade, visando aferir a importância dessa fase do desenvolvimento humano para o processo do tornar-se pessoa.


PALAVRAS CHAVE

Adolescência e puberdade, fisiologia e desenvolvimento,tornar-se pessoa.

Introdução


Objetiva o presente trabalho enfocar os principais eventos de natureza fisiológica e/ou consequente das alterações fisiológicas que ocorrem na adolescência e que são significativos na formação da pessoa humana.
Inicialmente abordará aspecto linguístico dos termos adolescência e puberdade, considerando o consagrado pela língua portuguesa e as contribuições advindas das línguas latina e grega.
Em sequência fará uma breve exposição das principais ocorrências de cunho fisiológico, que surgem na adolescência, ou das alterações resultantes e, que, constituem características básicas dessa fase do desenvolvimento.
Por fim discorrerá sobre as possibilidades que a adolescência oferece para a formação da pessoa e seu ajustamento bio-psico-social contributivo para o seu bem estar individual e para uma participação exitosa como membro da sociedade onde vive.
O estudo resulta de pesquisa bibliográfica de alguns autores que editaram seus trabalhos em livros, (incluindo duas revistas apenas), sem ter um compromisso com a sincronicidade das publicações e preocupado simplesmente com o assunto, na visão de diversos especialistas, incluindo médicos, psicólogos, antropólogos, pedagogos, psicanalistas, psicomotricistas, psicopedagogos, filósofos, fisiólogos, professores de educação física, teólogos etc. O trabalho, portanto, não tem uma visão de completude, mas apenas dos dados mais gerais relacionados com a fisiologia do adolescente, que constituem fatores para um desenvolvimento normal do ponto de vista psico-físico e que resultam na formação de uma pessoa ajustada, em harmonia consigo mesma e com o seu meio social.

Aspectos Linguísticos dos Termos Adolescência e Puberdade

Francisco da Silveira Bueno em seu Dicionário Escolar da Língua Portuguesa (1981), registra o verbete adolescência, substantivo feminino, significando o período da vida do homem entre a puberdade e a virilidade, que vai dos quatorze aos vinte e cinco anos.
Embora tal definição seja tipificada para o sexo masculino, os verbetes do adjetivo e substantivo adolescente admitem os dois gêneros, significando, que, ou o que está na adolescência.
Em linguagem do senso comum fala-se de adolescência e puberdade como significando uma mesma coisa, referindo-se principalmente à crise vivencial muito comum na adolescência (Jérome 1962).
A língua latina, que deu origem aos vocábulos da língua portuguesa, registra adolescentia como o período da vida humana entre a puberdade e a virilidade, que vai dos quatorze aos trinta anos (Faria 1994). O termo deriva do verbo adolesco, que em sentido próprio significa crescer, desenvolver-se, engrossar, tornar-se maior, mas que Vergilio empresta também o sentido figurado, significando arder, queimar, transformar-se em vapor (Georgicas 4, 379).
Quanto ao termo pubertate, deriva o mesmo do verbo pubesco, que em Cícero tem o sentido de cobrir-se de pêlos, chegar à puberdade (De Officiis 1118).
Percebe-se que tanto no latim como em português, puberdade denota idéia de um fenômeno de transformação corporal, universalmente presente, enquanto adolescência significa o processo ou a fase em que ocorre o processo psico-social de inserção do jovem no mundo dos adultos, variando de acordo com as culturas, podendo até mesmo estar ausente, conforme relatam estudos antropológicos (Grace 1978).
O grego, que exerceu influência sobre as línguas latina e portuguesa, traz colaboração importante de adequação ao ponto de vista fisiológico, pois dentro do conceito de efebeia () inclui as idéias de puberdade e adolescência em todas as suas fases, sendo hebe () o desabrochamento do novato (= neotes) (Lauro 1940), desde o surgimento dos pêlos e transformações corpóreas ( = tricotes) até o exalar de sua sexualidade, vigor e maturidade (= tragos) (Pereira 1976).

Características Fisiológicas da Adolescência e Puberdade

Embora o critério de definição de adolescência da língua grega seja mais adequado para reflexões fisiológicas, como é esclarecido anteriormente, ao fazer considerações sobre os principais aspectos fisiológicos da adolescência e puberdade, como aqui se pretende, este texto seguirá a definição de Weineck (1991, pág. 254) que ao considerar o desenvolvimento humano, coloca a infância escolar tardia por volta dos dez anos, como a entrada na puberdade e esta, abrangendo duas fases distintas, primeiro a da pubescência, entre os onze a quatorze anos para as meninas e entre os doze a quinze anos para os meninos; e a segunda a da adolescência, situada entre treze a dezoito anos para as meninas e dos quatorze aos dezenove anos para os meninos. Depois disso seguirá a fase da idade adulta.
A idéia de fases do desenvolvimento significa os períodos de um desenvolvimento uniforme, que permite nítida distinção entre eles, através de características claramente diferenciadas. Weineck citando Keller/Wiskott diz que, desenvolvimento é a soma dos processos de crescimento e diferenciação do organismo, que finalmente levam ao seu tamanho, forma e função definitivos (Weineck 1991 pág. 254).

Atividade Motora


Crianças e adolescentes necessitam para um desenvolvimento psico-físico harmonioso, de uma dose suficiente de movimentação (Weineck 1991). Isto acontece graças a um mecanismo fisiológico do pallidum, então com dominância de impulsos, produzindo uma maior movimentação (Korolkovas 1991) e por outro lado a uma outra característica do ser jovem, que tem a capacidade de perceber o esforço para suportar carga diminuída com relação ao adulto, o que sugere devam ser, consideradas as particularidades referentes ao crescimento das crianças e adolescentes no gerenciamento das atividades físicas (Weineck 1991).

Proporções Corporais


Os segmentos corporais das crianças e adolescentes apresentam crescimentos em intensidades diferentes, acarretando alterações nas proporções corporais, significativas para a prática de exercícios, principalmente na fase da pubescência.
Weineck (1991 pág. 248) citando Zurbrugg diz que ocorre um crescimento centrípeto, ou seja, pés e mãos amadurecem antes que pernas e antebraços e estes amadurecem antes que coxas e braços.

O Problema da Aceleração e Retardamento


O desenvolvimento normal da criança e adolescente faz coincidir a idade cronológica com a biológica, não acontecendo o mesmo nos casos de desenvolvimento precoce, quando ocorre uma sucessão acelerada das fases do desenvolvimento corporal em um ou mais anos e nos casos de desenvolvimento tardio, um retardamento por um ou mais anos. Tais variações no crescimento físico podem ser perturbadora para o adolescente (Telford 1980).
Nos três tipos de desenvolvimento existe um crescimento harmônico, em relação ao desempenho orgânico, às medidas dos órgãos e ao sistema esquelético (Weineck 1991).

Metabolismo


Na criança, ou adolescente, em fase de crescimento, o metabolismo estrutural desempenha um papel muito especial, em razão do crescimento e diferenciação que exigem diversos processos de estruturação e restruturação, com conseqüente aumento do metabolismo basal em cerca de 20 a 30% mais que no adulto, necessitando, portanto, de maior quantidade de vitaminas, minerais e outros nutrientes. Há uma necessidade maior de proteína, na ordem de 2,5 g por quilo de peso corporal, sendo esta necessidade mais aumentada ainda em caso de cargas adicionais conseqüente de exercícios, para se evitar que o metabolismo funcional prejudique o metabolismo estrutural e interfira no crescimento do organismo infantil (Weineck 1991).

Aparelho Locomotor Passivo


Diz a Lei de Mark-Jansen (citado por Weineck 1991, pág. 249) que “a sensibilidade do tecido é proporcional à velocidade de crescimento”. Assim a criança ou o adolescente, quando comparados ao adulto, estão muito mais expostos ao perigo de danos de carga, através de estímulos não fisiológicos da carga, pois seus ossos, tendões e ligamentos, que compõem as estruturas do aparelho locomotor passivo, estando ainda em crescimento, não mostram a mesma resistência à carga que na idade adulta, constituindo um fator de desempenho limitante (Weineck 1991).

Eis algumas particularidades da infância e adolescência:
- Os ossos são mais flexíveis e menos resistentes à pressão e tração, devido a um armazenamento relativamente maior de material orgânico mole.
- O tecido dos tendões e ligamentos ainda não é suficientemente resistente à tração, devido ao fraco ordenamento micelar (estruturas semelhantes a redes de cristais) e predominância de substâncias intercelulares.
- O tecido cartilaginoso e os discos epifisários ainda não ossificados, representam um perigo em relação às forças de pressão e torção, devido à sua alta taxa de divisão, condicionada ao crescimento.
Pode-se afirmar que impulsos de carga adequados ao crescimento - submáximos, exigindo de forma múltipla o complexo todo do aparelho locomotor passivo - oferece um estímulo apropriado, tanto para o crescimento quanto para a melhora da estrutura (Weineck 1991).

Musculatura


Há semelhança entre a célula muscular esquelética da criança e do adulto. O que diferencia é a formação quantitativa de subestruturas da célula muscular, sendo, a parcela de fibras ST (slow twitch - contração lenta) na faixa dos doze anos, equivalente a 64,2 ± 11% nas meninas e 72,8 ± 11% nos meninos.
Até o início da puberdade há pouca diferença de massa e força musculares entre meninos e meninas. Só a partir de então e em conseqüência de alterações hormonais ocorrem acentuadas taxas de crescimento em relação à massa muscular e desenvolvimento diferenciado, específico do sexo e características corporais (Weineck 1991).

Termorregulação


Em termos de termorregulação existem diferenças entre crianças e adultos.
A superfície corporal absoluta da criança é menor, mas ao contrário, sua superfície relativa em relação ao peso corporal, é cerca de 36% maior que a do adulto. Entretanto, apesar dessa superfície corporal relativa ser maior, as crianças apresentam uma menor taxa de transpiração, em cerca de 2,5 vezes menor que no adulto por glândula sudorípara. Além disso a criança tem menor número de glândulas sudoríparas ativas.
Há também uma limitação no hipotálamo, segundo se pensa, elevando o limiar de temperatura para que a transpiração se inicie (Weineck 1991).

Desenvolvimento Cerebral


O desenvolvimento da cabeça, cérebro e todo o corpo acontece de modo muito variado.
O cérebro tem um crescimento muito rápido, atingindo 90 a 95% do tamanho do adulto já aos seis anos de idade (Weineck 1991).
As células nervosas do sistema nervoso central, sofrem um entrançamento e proliferação intensiva até o terceiro ano de vida, podendo ser estimuladas por meio de exercícios adequados (Le Boulch 1978).

Sistema Cárdio-circulatório


Durante o crescimento ou sob treinamento, as fibras musculares cardíacas tem um desenvolvimento harmonioso, com aumento no seu comprimento e diâmetro, propiciando diminuição da freqüência cardíaca, aumentos do espaço interno do coração e do volume de pulsação, levando o coração a um trabalho mais efetivo e econômico.
O sistema cárdio-circulatório de crianças e jovens, sob estímulos de treinamento, realiza alterações adaptativas positivas, principalmente sob o treino de resistência, podendo alcançar um volume cardíaco relativo por quilo de peso corporal, de 14,9 a 18,1 ml, quando a normalidade para um coração esportivo adulto é da ordem de 12 ml (Weineck 1991).

O Crescimento Corporal e a Maturidade Sexual


O crescimento do corpo todo, em sua estatura normal, ao contrário do cérebro, só vai acontecer no término da puberdade, em torno dos vinte anos (Weineck 1991).
A arrancada para este crescimento acontece em torno dos nove a dez anos, quando o hipotálamo secreta os fatores de liberação que irão influenciar a hipófise anterior levando-a a produzir o hormônio somatotrófico que impulsionará o crescimento corporal e os hormônios gonadotróficos que estimularão o desenvolvimento dos caracteres sexuais primários e secundários (Korolkovas 1991).

Esquema Corporal


O esquema corporal tem uma evolução lenta durante a infância, alcançando seu pleno desenvolvimento aos onze ou doze anos, portanto na fase puberal.
O esquema corporal é definido como uma intuição global ou conhecimento imediato do nosso corpo, em estado de repouso ou em movimento, em função da interrelação de suas partes e sobretudo da relação com o espaço e os objetos que o rodeiam, uma relação ajustada entre o indivíduo e seu meio (Le Boulch 1969).
A elaboração definitiva do esquema corporal, ocorre, graças a tomada de consciência dos diferentes elementos corporais e ao controle de sua mobilidade com vista a ação, levando a diversos ganhos:
- Desenvolvimento e instalação das possibilidades de relaxamento global e segmentar;
- Independência dos braços e pernas com relação ao tronco;
- Independência da direita com relação à esquerda;
- Independência funcional dos diversos segmentos e elementos corporais;
- Transposição do conhecimento de si ao conhecimento dos demais.
Desenvolve diversas capacidades de aprendizagem e de relação com o mundo exterior, tendo meios para conquistar sua autonomia.
Sua relação com o adulto, se distanciará cada vez mais até chegar a cooperação e ao compartilhamento das responsabilidades (Vayer 1973).
Amplia as condições para o aperceber-se da sua singularidade e complexidade, fornecendo os elementos essenciais para o tornar-se pessoa (Mondin 1980).

Crise Existencial


Embora existam diferentes teorias sobre os conflitos da adolescência, estudos etnográficos indicam que, as circuntâncias sociais concretas da vida da criança determinam a duração do período da adolescência, e a existência ou ausência de crises conflitivas e dificultosas e o caráter da passagem da infância à idade adulta. Deriva desses estudos a idéia de que “no homem o natural não pode ser contraposto ao social, porque nele o natural é o social” (Dragunova, 1979).
Há a necessidade de por em relevo a nova formação básica na consciência do adolescente, esclarecendo a situação social do desenvolvimento que, em cada idade, constitui um sistema irrepetível de relações entre a criança e o meio. A reestruturação desse sistema de relações cosntitue o conteúdo fundamental da crise da idade transicional (Vigotski, 1960).
A posição imprecisa do adolescente, que se reconhece adulto em alguns aspectos e não em outros, e as exigências que se apresentam em seu meio social, quando em um desenvolvimento psicofísico normal e assistência pedagógica devida, servirá ao jovem de dinamizador na busca de valores positivos para adornar a sua personalidade, como assimilação de operações intelectuais complexas, desenvolvimento da autoconsciência, capacidade de comunicação e de vida emocional, iniciativa social, formação da concepção de mundo, adoção de ideário filosófico, social, espiritual, político, filantrópico ou profissional que possibilita a sua autotranscendência e o caminhar para a integralização da sua pessoa (Kon, 1979).

A Adolescência e o Tornar-se Pessoa



A questão da pessoa não era totalmente desconhecida dos sábios da antigüidade, mas foi no Cristianismo que ela se delineou claramente através do Personalismo, quando os Pais da Igreja se ocuparam em estudar a Pessoa de Cristo, que por extensão levou a uma melhor compreensão da pessoa humana. Desde então, estudiosos se voltam para a reflexão sobre uma melhor definição do que constitui a pessoa humana (Mondin 1980).
Atualmente, o Humanismo, em suas diversificadas nuances e variações (Feijó 1992), devota especial interesse pela totalidade da pessoa humana, servindo de base para a abordagem holística, adotada por diferentes profissionais das áreas de saúde e educação no trato com o homem, preocupando-se com a totalidade da pessoa, em resposta à crise de fragmentação imposta pela ciência e suas especializações (Crema 1994).
A pessoa não é um resultado já belo e adquirido desde o nascimento, mas é, antes uma fonte de ricas possibilidades pela qual se faz uma conquista, oportunizada durante toda a vida do adulto (Mondin 1980).
Tornar-se adulto do ponto de vista social varia com cada cultura, sendo a puberdade o evento natural demarcador da fase transicional entre a infância e a vida adulta, mesmo naquelas culturas sem contagem cronológica, que se valem dos “ritos de passagem” para conferir o status de adulto aos membros de suas comunidades (Mair 1984).
O começo da puberdade forma um marco no desenvolvimento psicofísico do adolescente, sem nenhum equivalente na vida adulta (Weineck 1991). Sua intensa criatividade e sua reatividade aliada aos valores de sua individualidade, constituem aspectos fundamentais de estimulação para que se consiga uma boa maturidade psicossocial e futura relação harmoniosa com o mundo (Mondin 1980).
Durante a adolescência o jovem adquire saber e crescimento corporal, não podendo o seu desenvolvimento saudável ser dissociado de um bom ambiente escolar, familiar e social (Naiying 1996). É nessa fase que se encontram as bases para se delinear a orientação geral na formação das atitudes morais e sociais da personalidade que continuará desabrochando na vida da pessoa humana (Petrovski 1979). É essa a ocasião de se aprender tudo aquilo para o qual a vida humana deve ser orientada, para que se torne uma vida plenamente valiosa.
O valor funcional desse acesso aos valores sociais é considerável. A inteligência e a afetividade do adolescente, do adulto jovem, devem ser mobilizadas para proporcionar uma vida nova, na qual será muito importante o espírito de responsabilidade, tão fundamental a uma vida adulta plenamente realizada (Wallon, citado por Ajuriaguerra).
Segundo Feijó (1992, p. 43), “O indivíduo é uma organização psicossomática em constante processo, em perene desabrochar. Em outras palavras, a personalidade é um sistema com dimensões históricas, com um princípio, meio e fim. Seu vir-a-ser é a elaboração da história passada projetando-se na direção da história futura.” O adolescente não pode ser explicado simplesmente pela interferência entre o biológico e o sociológico. Se é verdade que ele deve fazer a história, também é verdade que ele é fruto de sua história pessoal (Ajuriaguerra sem data); pois as peculiaridades das manifestações e do curso do período da adolescência estão determinadas por circunstâncias sociais concretas da vida e do desenvolvimento do adolescente e por sua situação social no mundo dos adultos, constituindo subsídios importantes na formação da pessoa (Petrovski 1985).
A pessoa humana só pode ser compreendida mediante a ligação que a une ao seu meio inter-humano. “Quando o ser humano integra as atividades orgânicas e biológicas que mantém sua existência e a ligam ao seu meio biológico, ele se chama corpo; quando ele integra suas atividades orgânicas, suas necessidades de afeto ou sua afetividade, identificando-se então, parcialmente, com os objetos de seus grandes interesses visuais e ligando-se a outros seres humanos vivos, ele se chama indivíduo; quando ele integra suas atividades orgânicas, suas atividades instintivas, suas atividades de estruturas complexas, identificando-se então com seus semelhantes e com ele mesmo, como projeção espiritual de qualquer ideal, tornando-se então um ser com valores, um ser com direitos, com deveres e um ser ainda mais ligado aos outros homens em sua intimidade moral, é que ele adquire mais autonomia e liberdade, chamando-se pessoa” (Hesnard, citado por Ajuriaguerra).
O ser humano tem internalizado como seu, elementos importantes do meio sócio-cultural, científico e espiritual que constituem e definem sua pessoa (Vigotski 1960). Assim os filósofos reconhecem como características principais da personalidade, quatro elementos essenciais que permitem definir a pessoa como um indivíduo dotado de autonomia quanto ao ser, de autoconsciência, de comunicação e de autotranscendência (Mondin 1980), adquiridos em um processo que tem início na adolescência e que poderá ser aperfeiçoado durante toda a vida (Petrovski 1985).

Conclusão

As transformações que ocorrem no corpo durante a adolescência e que culminam com a forma corporal definitiva do adulto, surgem em conseqüência de fatores fisiológicos e são importantes para a formação da personalidade.
Tais mudanças tem início com a fase da puberdade, mas são desencadeadas um pouco mais cedo através de mecanismos neuroendócrinos, que estimulam a produção dos hormônios responsáveis pelo desenvolvimento do corpo e dos caracteres sexuais primários e secundários.
Para um desenvolvimento harmonioso, a criança e o adolescente necessitam de muita movimentação. Isto é conseguido graças a dominância de estruturas encefálicas, que produzem mais impulsos motores, e por outro lado, pela diminuição da capacidade de percepção do esforço para suportar cargas. Essa atividade motora aumentada é significativa para o adolescente porque estimula também o metabolismo estrutural, aumentado necessariamente, para atender a maior demanda conseqüente dos processos de estruturação e restruturação, envolvidos no crescimento e diferenciações do corpo, que culminam com a forma corporal definitiva do adulto, possibilitando a elaboração e introjeção do esquema corporal, instrumento útil para uma relação ajustada entre o indivíduo e seu meio, desenvolvendo a sua autonomia, capacidade de cooperação social e compartilhamento de responsabilidades, pela percepção de sua singularidade e complexidade pessoal.
As circunstâncias sociais concretas da vida do adolescente, quando em um desenvolvimento psico-físico ideal, mesmo que desencadeie uma crise existencial pela fase transicional da infância para a vida adulta, possibilita que ele desenvolva a sua autoconsciência, delimite as fronteiras da heteronomia em que vive e conquiste a sua autonomia enquanto ser, estabelecendo relações saudáveis consigo mesmo, com o meio e com as outras pessoas, que amplia a sua capacidade de comunicação e vida afetiva, adotando a participação social e os ideais altruístas, filantrópicos, espirituais, filosóficos e profissionais que permitem a realização de sua personalidade e autotranscendência, evidenciadas na sua manifestação enquanto pessoa.

Referências Bibliográficas


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(1) - Professor Mestre Adjunto I da UNIGRANRIO; Doutor em Filosofia da Religião - SETESA/Não Capes; Mestre em Ciências da Motricidade Humana - UCB/Capes; Formação em Psicanálise Clínica - SFPC; Formação em Psicomotricidade Sistêmica - CEC; Formador-Didata em Terapia Psicomotora Analítico Clínica - TEPAC do CEBRASC; Especialista em Docência Superior - IBMR; Bacharel em Fisioterapia - IBMR; Bacharel em Filosofia - SETESA; Bacharel em Teologia - SETESA; Bispo Primaz do Catolicismo Evangélico Salomonita - ICAI-TS.

Implantação de Projetos Comunitários



Educação para a Vida
Prof. Dr. Felismar Manoel (1)

Tem havido pedidos de alunos, para que eu publique as políticas, métodos e técnicas que o Catolicismo Evangélico Salomonita usa, para implantação dos programas pastorais de "promoção humana e educação para a vida" junto às diferentes comunidades sociais, onde atuam nossas missões, capelas e paróquias. Esta publicação atende a essas solicitações.

1 - Atenção Básica às Comunidades do Povo de Deus.

Na atenção básica às comunidades promovida pela ICAI-TS, o alvo principal é a promoção humana inspirada no Evangelho Libertário de Jesus Cristo, que alforria o Ser Humano não só subjetivamente do pecado, na sua vida pessoal, mas também na vida social, familiar e dos grupos que partilham experiências na sua caminhada no planeta terra. Por isso há uma preocupação em educar para a vida.
Vida aquí é tomada nos seus dois sentidos eruditos: o bios (biologia) enquanto “processos vitais orgânicos, e também o zoês (zoesia), enquanto vida subjetiva plenificada pela vivência das ordenanças evangélicas, viés revelado por Jesus Cristo.
Neste contexto, vida é sinônimo de saúde e deve ser vista enquanto processo, cujas fases podem ser operacionalizadas pelo ser humano de modo consciente, como sujeito do processo e como ator no cenário onde vive e compartilha experiências.
O modo principal de operar essas mudanças na vida do ser humano é através da Educação para a Vida. Por isso temos em todas as comunidades os Centros de Instrução pró Vida – CIVIDA. Aqui a educação é percebida enquanto processo.

Assim a educação deve acontecer mínimamente seguindo as fases seguintes:
SENSIBILIZAÇÃO <===> INFORMAÇÃO;
INFORMAÇÃO <===> MOTIVAÇÃO;
MOTIVAÇÃO <===> EXPERIMENTAÇÃO;
EXPERIMENTAÇÃO <===> ADOÇÃO DO NOVO.

Na realidade, só terá acontecido a educação, quando houver a adoção do comportamento novo.
Só haverá a construção do sujeito, quando houver a sua conscientização e a assunção do seu papel no processo, quando então o sujeito se tornará ator no cenário da sua comunidade, agente capaz de transformar a realidade na construção de um mundo melhor.

I - Caminhos a Seguir:

1 – Vistoriar a região da comunidade para se conhecer a realidade local (quando houver tempo e recursos, aconselha-se usar o método etnográfico participativo). Normalmente utiliza-se o “diário de campo” (um caderno) para anotar tudo que for significativo, ou relevante, quando se "passeia" pela comunidade, anotando tudo de significativo que percebe, tanto os de aspecto positivo, quanto os de aspectos negativos;

2 – A partir dos diários de campo, se reunem e elaboram um Relatório de Vistoria Sistematizado - RVS, (sistematizar é por ordem sistemática nos dados registrados) para fornecer subsídios à identificação dos problemas;

3 – Análise do RVS, identificação dos problemas e construção de uma MATRIZ DE PROBLEMAS - MdP. (Deve-se analisar os dados do RVS, identificando os problemas que podem ser resolvidos e anotando-os em separado em uma folha de papel, que constitui a Matriz dos Problemas)
4 – A partir da MdP elabora-se um DIAGNÓSTICO SITUACIONAL- DS. (A partir dessa MdP é que vai se pensar, raciocinar e encontrar o Diagnóstico da Situação Local).

5 - Segue-se uma análise conjuntural participativa para escolha de prioridades. (É sempre conveniente a participação dos membros das comunidades, que possam fornecer subsídios dos pontos complicadores existentes nas comunidades, principalmente daqueles que representam os CONTRA-VALORES e que podem oferecer riscos para os agentes de pastorais e para os membros das comunidades que se envolvem). (A análise da conjuntura é extremamente importante, e nela deve participar as pessoas amadurecidas, lúcidas e responsáveis das próprias comunidades, além de técnicos, pois ela visa evitar complicações, interdições, conflitos; quando existem atividades marginais, caciquismo ideológico, político, ou até mesmo religioso, tém-se que ter cuidados nas comunidades. Na análise conjuntural deve-se atentar também para esses aspectos).

6 – Com base na análise conjuntural constrói-se a MATRIZ DE ESTRATÉGIAS DE AÇÃO - MEA. (A matriz de estratégias de ação MEA, é a relação das ações possíveis para resolver os problemas existentes, anotadas em folha de papel, que será uma peça importante do trabalho comunitário).

7 – A partir das MEA elabora-se os Projetos de Intervenções para implementação das ações transformadoras das realidades passíveis de mudanças. É a partir da Matriz de Estratégias de Ação, que o grupo de Agentes Pastorais irão construir os Projetos de Intervenção para solucionar os problemas. (Poderá surgir a necessidade de pesquisas também, tanto no sentido fenomenológico, quanto no cartesiano, visando esclarecer pontos obscuros antes de iniciar as intervenções).

8 – Na Implementação das ações deve-se fazer o acompanhamento, através de avaliação do controle do processo em andamento e avaliar também o impacto das ações interventoras na comunidade. (Aqui deve-se ter cuidade em adotar um mecanismo para fazer o controle do processe de intervenção - Relatórios de Vistoria Técnica, Memoranda, Questionários, etc. Também deve fazer o controle do impacto das intervenções junto à Comunidade, aplicando Questionários Comunitários antes de iniciar e após a implantação dos projetos).

II - Alguns Fatores já conhecidos de Saúde e Qualidade de Vida nas Comunidades, que servem de focos de nossas observações:

Educação formal acessível, saneamento básico existente e mantido (refere-se a drenagem de águas e esgotos com bitolagens progressivas das tubulações, calçamento, asfaltamento, etc); habitação adequada à dignidade da pessoa humana; renda suficiente para a sustentabilidade da vida; trabalho dignificante; alimentação adequada; meio ambiente equilibrado (É bom que haja conscientização dos fatores antrópicos comprometedores do equilíbrio ambiental, que podem ser evitados); bens e serviços essenciais acessíveis; espaços de convivência sociocultural disponíveis; espaços para atividade física e lazer disponíveis; segurança civil; transporte para o ir e vir; livre expressão filosófico-religiosa e ideológica, entre outros.

III - Bases para Implantação das Linhas Pastorais. O ser humano é uma entidade complexa, devendo ser respeitada essa complexidade, quando do nossos projetos de intervenções:

1 – Qualquer linha de intervenção deve considerar o ser humano em sua totalidade, em sua integralidade. É muito difícil uma abordagem verdadeiramente holística, no sentido grego do termo, mas é possível desejar aproximar o mais que for possível desta totalidade, para o que adotamos o termo pró holística;

2 – Ao implementar as ações busque envolvimento sinérgico de outras forças vivas da comunidade ou do Municipio;

3 – É necessário o envolvimento e a participação da comunidade, por isso é recomendado adotar os encontros de discussões com seus membros para o necessário empoderamento, visando torná-los sujeitos do processo de transformação da realidade local, verdadeiros atores daquele cenário onde vivem – pode-se aproveitar as datas comemorativas, os eventos sociais, etc;

4 – Outro ponto importante é a participação social, através de parcerias, de preferência, da região onde as ações se desenvolvem;

5 – Na distribuição dos beneficios das ações tém-se que ser equitativos, não podendo privilegiar apenas os que são simpatizantes ou adeptos do seu credo;

6 – Para a implementação das ações é conveniente, diria mesmo essencial, que haja múltiplos envolvimentos estratégicos, para que tais ações se consolidem, não como modismo, mas como ação transformadora da realidade;

7 – Para que não seja modismo, é necessário que as ações implementadas sejam sustentadas ao longo do tempo, para que possam envolver as bases do imaginário das pessoas da comunidade, desde as crianças, adolescentes e adultos.

IV - Roteiro para os Projetos ou Programas de Intervenção nas Comunidades:

É interessante notar que qualquer projeto ou programa de intervenção, tem necessariamente que envolver o processo educacional, embora permeie outros eixos de pertinência.
Falamos tanto da educação formal, quanto da educação informal. Para isso adotamos um Roteiro para a Montagem dos Projetos ou Programas de Intervenções.
Este Projeto ou Programa de Intervenção é perpassado por diferentes Eixos de Pertinências, conforme as áreas da realidade que se quer transformar:

1 – Área de Intervenção - (focar os problemas que se quer resolver, aclarando os diferentes eixos de pertinência que serão considerados: saúde, trabalho, educação, moradia, segurança, transporte, etc);
2 – Beneficiários ou Público Alvo que se quer atingir, considerando cada eixo de pertinência;
3 – Objetivos Gerais – Poderá ser aclarado por eixos de pertinência, ou genericamente.
Objetivos Específicos – O ideal é que os objetivos Específicos sejam aclarados por cada eixo de pertinência;
4 – Justificativas – (referir-se à importância das intervenções, ações, ou projetos, com relação aos problemas identificados em cada eixo de pertinência);
5 – Programação das atividades – (apresentar a programação das atividades a serem implantadas, por eixos de pertinência, preferentemente mediante cronograma das ações, mesmo que tenha flexibilidade para adaptações e mudanças);
6 – Descrição das Metodologias de Ações – (os métodos de ação devem ser apresentados por cada eixo de pertinência);
7 – Órgãos participantes – (aqui são aclarados os parceiros que estão comprometidos ou envolvidos em nossa empreitada pastoral, podendo ser por eixos de pertinência);
8 – Programação Orçamentária – (a programação orçamentária deve ser efetuada minuciosamente, mesmo que com recursos da própria ICAI-TS, pois o orçamento facilita o controle dos custos, a prestação de contas e favorece a análise de parceiros sociais. Para nós na ICAI-TS, quase sempre montamos os nossos projetos com a boa vontade de servir, COM A CARA E A CORAGEM, como se diz popularmente);
9 – Administração do Projeto ou Programa de Intervenção – (indicar quem gerenciará a execução e desenvolvimento do projeto ou programa, por eixos de pertinência);
10 – Metodologias de Acompanhamento dos Projetos e Programas – (é necessário avaliar a execução das diferentes etapas das execuções de projetos e programas, por isso se define a metodologia para avaliar o controle do processo de desenvolvimento, bem como para avaliar o impacto que a implantação dos projetos ou programas produzem nas comunidades, isto poderá ser feito por cada eixo de pertinência).

Observação – Aqui, quando se fala em Programas, está se referindo ao aspecto de empreitada pastoral guarda-chuva, que abriga diferentes projetos e ações, geralmente de longa duração.
Quando se fala em projetos, são empreitadas mais focais, tanto de pesquisas prévias, quanto de intervenção direta para transformação de alguma realidade local, com menor tempo de duração e geralmente abrigados em um programa maior.

Referências Norteadores :

Cartas Internacionais de Saúde e Modelos para Implantação de programas e Projetos Comunitários seguindo as influências da Fundação Getúlio Vargas..

Felismar Manoel – Implantação de Linhas Pastorais transformadoras da realidade para a construção de um mundo melhor – Capivari (Vila Coqueirinho), Duque de Caxias, abril de 1994.

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(1) - Professor Mestre Adjunto I da UNIGRANRIO; Doutor em Filosofia da Religião - SETESA/Não Capes; Mestre em Ciências da Motricidade Humana - UCB/Capes; Formação em Psicanálise Clínica - SFPC; Formação em Psicomotricidade Sistêmica - CEC; Formador-Didata em Terapia Psicomotora Analítico Clínica - TEPAC do CEBRASC; Especialista em Docência Superior - IBMR; Bacharel em Fisioterapia - IBMR; Bacharel em Filosofia - SETESA; Bacharel em Teologia - SETESA; Bispo Primaz do Catolicismo Evangélico Salomonita - ICAI-TS.



terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Minhas Origens Étnicas


Prof. Dr. Felismar Manoel (1)


No Brasil é bastante complicado falar em etnia, pois grande parte da população é composta de um amálgama étnico, e eu não fujo à regra.

1 - Etnia do lado materno:

1.1 - Indios Puri - Oriundos da Zona da Mata de Minas Gerais, mais notadamente, das regiões que faz limites entre Minas, Espírito Santo e Rio de Janeiro. Uma jovem índia é capturada e feita prisioneira de uma fazenda de portugueses, onde lhe arranjam um nome com o qual é batizada no catolicismo romano, nome que ela nunca aceitou e assimilou, passando a referir-se sobre sí própria como "Indira Puri", sendo Indira um dos nomes comuns na sua tribo e Puri o orgulho de sua nação indígena; cultivou a arte da cerâmica de utilitários domésticos, de transagens de cipós, fibras, bambus e taquaras, arte que transmitiu a sua filha.

1.2 - Negros Mina - Escravo africano jovem, servidor da fazenda dos portugueses, que igualmente recebeu um nome e o batismo do catolicismo romano, nome que nunca reconheceu e assimilou, passando a referir-se sobre si mesmo como "Tongo Mina", sendo Tongo um nome tribal comum e Mina o orgulho de sua nação africana; cultivou a arte do cultivo de plantas medicinais, hortaliças e agricultura de subsistência.

1.3 - Tongo Mina e Indira Puri se casaram e tiveram uma filha (mais ou menos em 1880) que foi batizada com o nome de Maria Graciana, (não tenho referências se houve mais filhos), tendo assimilado o seu nome de batismo e o devocionismo católico romano, embora vivenciando o hibridismo de valores, tanto indígenas, como africanos comuns entre os povos das aldeias e vilas, mas transferiu seus valores e artes culturais para seus filhos, sem forçá-los.

1.4 - Com a libertação dos escravos, modificou um pouco o panorama vivencial dos povos, com relação a fixação no solo, ali pelas regiões de Pombo, Guaianases, Guidoval, Miraí, Ubá, podendo dizer que, com relação à escravidão, houve certas possibilidades de melhora para Maria Graciana, que casou com um português chamado Juaquim Soares de Souza Lima e tiveram quatro filhos: Silvino, Salvina, Castorina e Maria. O português Juaquim era universitário de Coimbra, "engenheiro de estradas e pontes", com concentração em artes pirotécnicas (arte que transmitiu para os filhos), mas tendo se dedicado com carinho à ciência homeopática (parece que com formação também em Portugal), sendo uma referência nas localidades interioranas para socorrer as populações em questões de saúde e doença. Havia um pouco de "nebulosidade" nas informações sobre o avô Juaquim, sendo um homem simples, muito estudioso das ciências e da Bíblia e conformado com a falta de estudos dos filhos, que pouco falava sobre si mesmo.

1.5 - Maria Soares teve o seu primeiro casamento com um nativo da região do Pombo, salvo engano, com o qual teve quatro filhos: Onesta, Carlita, Nair e Omiro. Seu marido morreu baleado, deixando-a viúva com os filhos, sendo recolhidos pelos pais e avós.

1.6 - O amálgama étnico do lado materno inclui, portanto, etnia puri (indígena), etnia mina (africana) e etnia portuguesa (européia). Vejamos agora o lado paterno.

2 - Etnia do lado paterno:

2.1 - Maria Barbieri, de Gênova na Itália, excelente administradora da fazenda e do lar, zeladora no uso da língua italiana em família, para as orações do ângelus e durante as refeições; aberta às manifestações culturais locais, com diálogo interativo entre as devoções populares e a étnomedicina puri; casada com Giovani, a seguir referido.

2.2 - Giovani Emanueli Giulini, de Calábria na Itália, agricultor, acomodado as circunstâncias históricas locais, colaborador nas decisões da esposa. Casal muito alegre nos encontros familiares (família grandiosa que veio para o Brasil), de falatório alto e constantes celebrações.

2.3 - Do casamento de Maria Barbieri com Giovani tiveram vários filhos: Otaviano (nascido na Itália), Elmira (nascida em águas brasileiras quando vinham de navio), Felício, Emílio, Maria, José, João (nascidos no território brasileiro). Não estou seguro, mas parece que havia uma outra filha de nome Constanza. Não tenho dados muito precisos sobre essa irmandade, pois na minha infância, após a morte da nona (avó), não se conservou uma boa relação entre irmãos (meus tios), não sendo inimigos uns dos outros, mas com certo distanciamento nas convivências, principalmente porque uns eram ricos e outros pobres.

2.4 - Felício se casou com uma italiana, herdeira da Fazenda dos Guilhermes, instalada pacifica e harmoniosamente nas regiões de aldeias puri, no vasto território do Município de Guiricema, próximo ao vilarejo Cruzeiro de Guiricema. Os aldeões eram aculturados aos brancos locais e por sua vez, essa população local também aculturada aos valores dos indígenas puri, onde surgiram casamentos, compadrescos, interatividade laboral, cultural, religiosa, comemorativa de eventos das duas realidades culturais. Surgiu uma nova realidade populacional conhecida como "puri", talvez um "neo-puri"; identificar que alguém era "puri" naquela região, era afirmar que ele era um nativo, ou nativa daquela nova estrutura de convivência, e que era um descendente da nova mistura étnica e que se identificava com os valores das culturas loco-regionais; esta é uma razão pela qual me considero um "puri", principalmente por ser a cultura da minha adolescência, a que mais assimilei nas minhas muitas convivências com diferentes culturas, e a que mais conciliou os meus valores da área científica, filosófica, teológica e de espiritualidade.
Do casamento de Felício com a italiana nasceram filhos: Maria, Luzia, Alverina, Alcenira e José. Infelizmente a mãe dessas crianças morreu nova deixando Felício viúvo na fazenda cuidando dos filhos.

2.5 - A viúva Maria Soares se casa com o viúvo Felício Manoel Julinho (os cartórios brasileiros aportuguesaram os nomes), em vez de "Emanueli Giulini" ficou "Manoel Julinho", passando todos os descendentes a constar como, ... "fulano" Manoel Julinho, quando deveria ser ... "fulano" Emanueli Giulini. Do novo casamento dos viúvos nasceram mais filhos: Messias, Joaquim, João, Edes, Felismar (eu) e Sudário, que passou a conviver na fazenda, com muita constância toda essa nova irmandade, resultante dos filhos dos três casamentos.

2.6 - Com esse casamento dos dois viúvos, o amálgama étnico é enriquecido agora com mais dois elementos de etnias europeias, de matriz italiana (Gênova e Calábria).

3 - Amálgama Étnico Brasileiro:

3.1 - Não existe um estudo apurado, etnologicamente elaborado das realidades brasileiras, até porque necessitaria de múltiplas etnografias loco-regionais consistentes, para que se pudesse concluir comparações e conclusões etnológicas.
Considero-me um puri, provavelmente um neo-puri, embora tendo perdido os semantemas da língua original puri, porque das culturas de convivências participativas da minha vida, é a cultura dos nativos puri a que mais me identifico, por sua harmonização entre natureza e ciência, entre ciência e espiritualidade, entre o novo e o velho; por sua abertura para o novo, sem abandonar a responsabilidade de testemunhar a valorização do antigo, dialogando com o novo, em prol de uma convivência útil e harmoniosa entre os diferentes seres humanos, entre os seres humanos e a natureza da qual ele se faz parte, entre os valores das culturas e ciências humanas e sua compatibilização com a transcendência, por seu senso de irmanação entre todas as criaturas de Deus, por seu profundo olhar misericordioso, benevolente, igualitário, para o outro diferente e para todas as coisas.

3.2 - Memorial de minha vida pessoal. Me cobram a publicação de minha autobiografia, ou relatos de minhas experiências de vida. Mas tenho estado envolvido em tantas atividades em prol de causas mais essenciais, durante esta minha existência de 73 anos, que não tem sobrado tempo suficiente para desenvolver um trabalho de tal natureza.
Minha experiência missionária junto às diferentes comunidades, desde meus dezesseis anos, trouxe-me bagagens, principalmente sob a ótica antropológica e eclesial, que me inclina a uma futura publicação. Mas é muito difícil, para quem viveu e continua vivendo do trabalho assalariado, ter disponibilidade material e de tempo suficiente para tal empreitada. Hoje tenho a felicidade de exercer o Magistério Superior na Universidade Grande Rio, Instituição que muito amo e estimo por seus múltiplos empenhos, com singular desempenho dos elevados ideais do seu fundador Reverendo Pastor José de Souza Herdy. Fazer o que gosto e em ambiente compromissado com ideais elevados, é confortador para mim. Deus seja louvado.
Espero em tempos não muito distantes, até porque já tenho 73 anos, atualizar o meu "Memorial" e torná-lo público em meu blog. Com saudosismo de minha adolescência entre os puri e revivendo o espírito do romantismo da alma, despeço-me, firmado no nome puri, que na adolescência escolhi...

               Nhãmanrúri Schuteh (Córrego tranquilo, bonito)
           Felismar Manoel - Duque de Caxias, RJ - Natal de 2012


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(1) - Professor Mestre Adjunto I da UNIGRANRIO; Doutor em Filosofia da Religião - SETESA/Não Capes; Mestre em Ciências da Motricidade Humana - UCB/Capes; Formação em Psicanálise Clínica - SFPC; Formação em Psicomotricidade Sistêmica - CEC; Formador-Didata em Terapia Psicomotora Analítico Clínica - TEPAC do CEBRASC; Especialista em Docência Superior - IBMR; Bacharel em Fisioterapia - IBMR; Bacharel em Filosofia - SETESA; Bacharel em Teologia - SETESA; Bispo Primaz do Catolicismo Evangélico Salomonita - ICAI-TS.