segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

1 - Memórias Pury – Gemúmae Pury - Lembranças de minha aldeia rural/Gemúnae unhúm birruã ambó-goára (gaambó-goára).

 

Memórias da Aldeia Rural Pury de Fazenda dos Gregórios em Cruzeiro, Distrito de Tuiuitinga, Município de Guiricema, Zona da Mata, Estado de Minas Gerais, Brasil.


por Nhãmãnrure Stxutér Pury (*)

(Felismar Manoel)


(*) O texto pury está escrito conforme a pronúncia percebida, usando os recursos do português brasileiro.



Estratégias Aprovadas no Terceiro Encontro de Lideranças Puris da Zona da Mata, em Goianá (ou com goianáe)



Conforme a sabedoria dos mais velhos (Trirronára leká Tarréa iu Antáre), eram construídas nossas memórias de identidade e caráter, para nutrir e sustentar nossos ideais no mundo de Dokóra, protegidos por Tupã. Assim, cumpre-me narrar:


Txina Pury foi o Opê-Antár de minha Aldeia Rural(Ambó-Goára); ele nasceu cerca do ano 1848, pertencente a mesma Aldeia Florestal (Tistxoré-Goára) de minha bisavó Perruã Pury (Indira Pury – nome adotado quando capturada), que viveram na região de Rio Pombas. Seus clãs familiares eram do Vale das Ervas Curativas (Dotapá Muúm unhúm Sponge-ndondea), mais ou menos na região de Ervália, que desceram o fluxo do Rio dos Bagres, fugindo da perseguição dos brancos colonizadores por aquelas bandas; habitaram por todas as margens do Rio dos Bagres, indo até o Rio Xopotó e daí ao Rio Pombas.


Todas essas regiões eram moradias dos puris, dos coroados e dos coropós, parentes originados em passado muito distante, dos indígenas goitacazes, dos quais se separaram por desavenças internas, por rixas, por desentendimentos entre famílias intra-étnicas, optando por construírem seus próprios destinos, embora mantendo muita proximidade entre puris e coroados, os quais conviviam e se auxiliavam mutuamente, tendo havido, entretanto, certo desentendimento entre puris e coroados nas aldeias do Rio Pombas, após a chegada dos invasores colonizadores nessa região específica, mas cultivando amizades e apoios com outras aldeias, com congraçamento constante entre puris e coroados da região de Ubá, Guidoval, Visconde do Rio Branco, São Geraldo, Guiricema, Miraí e comunidades das cercanias, todas elas participantes do terceiro encontro de lideranças puris, quando buscavam planejar estratégias de enfrentamento contra as adversidades surgidas pela convivência com os brancos invasores.


Em busca de estratégias para enfrentamento contra as agressões dos invasores dos territórios, o Povo Pury realizou encontros de lideranças das aldeias, tendo dois desses encontros falhados em seus propósitos, porque houve penetração de puri do mal (puri bugre) que delatou os objetivos, motivando agressões ao nosso povo. Cerca de 1903, aconteceu o terceiro encontro dessas lideranças puris, com a participação do povo de Miraí, Muriaé, Guiricema, Visconde de Rio Branco, Guidoval, São Geraldo, Ubá e Ervália, desta vez com Goianá, sem a presença de bugres, não sabendo ao certo, se foi gente goianá (amigo dos estrangeiros), ou a localidade Goianá.


Desse encontro ficou decidido montar estratégias para introduzir os jovens puris nas escolas formadoras dos brancos, para que adquirissem suas expertises e as utilizassem nos postos de serviços dos brancos, no sentido de proteger os indígenas puris e de outras etnias. Ficou assim decidido:

1 – Que se organizem as aldeias rurais (ambó-goárae), mais abertas, acolhendo comunidades de famílias puris da região, mesmo dispersas, mas com fidelidade aos costumes puris;

2 – As crianças (sámbe) sejam instruídas pelas mães (inhãe), os Preceptores (Opê-Tarréa); os jovens e os adultos procurem sempre ouvir o conselho dos mais velhos (Tarreára) para as tomadas de decisões; que todos privilegiem as decisões do Opê-Antár de cada aldeia;

3 – Que cada aldeia se dedique a desenvolver de modo específico a alguma expertise da sabedoria pury, visando influenciar os brancos invasores e outros não indígenas, procurando preencher as lacunas de suas necessidades ou vulnerabilidades.

4 -Observo eu, que falharam em duas estratégias não cogitadas, assim colaborando para o agravamento da situação dos indígenas puris:

a) – Não se pontuou nenhuma defesa de posse local, nem requereu e delimitação do território aos puris.

b) – Não se pensou em manutenção e domínio dos falares e fazeres puris, mesmo em situações adversas, para que se continuasse a pensar em puri, visto que a linguagem oportuniza a prática do pensar.


Eu fui protagonista, interagindo em três aldeias rurais: a da minha própria moradia de Fazenda dos Gregórios, em Cruzeiro; a de Tuiuitinga(*); e a do Pé da Serra de Tuiuitinga. - (*) Em língua pury os “pássaros verdes” da família periquitos são chamados TUIU ou TUIM, e “localidade preferida”, é chamada de ITINGA, por isso se atribui que o nome TUIUITINGA seja porque essa localidade era a mais preferida por esses pássaros – Essas três aldeias rurais se dedicaram ao desenvolvimento de expertises da sabedoria pury, conforme as decisões aprovadas no terceiro encontro de lideranças pury. Assim:


a) A minha Aldeia Rural (Ambó-Goára) da Fazenda dos Gregórios se dedicou ao desenvolvimento da medicina pury, na qual recebi treinamento, cuidando do cultivo das plantas curativas e preparo dos remédios a partir das ervas e alguns resíduos animais, produzindo os extratos alcoólicos, as botijas e tsanas de bambus apropriadas, bem como seu escalonamento em diluições adequadas até o terceiro nível de fortalecimento, instruindo aos populares como usar os banhos florais e folhais para os estágios emocionais alterados geradores de doenças, e aos curadores (opê-ndondea), a interpretação dos estados de enfermidades e o uso adequado das soluções para tratamento;


b)A Aldeia Rural de Tuiuitinga que eu às vezes visitava, que se dedicou a treinamento de jovens inteligentes e audazes, para a partir do domínio de conhecimento de suas expertises técnicas, aprendidas em suas escolas e treinamentos, dialogarem com tais especialistas brancos, em possível pé de igualdade, sobre nossos saberes pury. Disto resultou fixar moradia em Tuiuitinga, tratadores de doenças (txarré-ndondea), tratadores de animais (txarré-txamae), medidores de terra/solo térreo (kuruíndô-atxéa), conhecedores do solo/adequação do solo ao cultivo (opê-atxéa);


c) A Aldeia Rural do Pé da Serra de Tuiuitinga, onde fui professor municipal das crianças, aldeia essa que se dedicou a promover experiências com as plantações agrícolas, visando adequação de plantas a qual tipo de solo, bem como formas de armazenamento seguro da produção de grãos, para seu uso adequado no tempo que necessitasse, surgindo diversas técnicas de conservação contra bichos;


d) Constava ainda, mas eu não visitei, a Aldeia Rural de Guidoval, voltada a produção dos artesanatos pury; em Ervália uma Aldeia Rural dedicada a selecionar o cultivo de plantas curativas de doenças e “malidades” que atacassem a população. Informavam ainda que em Miraí, Muriaé, Manhumirim e outras regiões do estado do Espírito Santo, estavam se dedicando a divulgar nossos instrumentos musicais puris, como flautas, tambores, chocalhos e violas, inclusive divulgando a plantação de taquaras e tabocas. Não visitei esses locais para conferir.


Tenu-arri Dokóra que me permitiu essas experiências de vida! Tenu-arri Tupã por ter me protegido durante esses meus 82 anos de existência aqui na Utxô. Sua benção Dokóra/Ksapernhé-tinxú Dokóra! Sua benção Tupã/Ksapernhé-tinxú Tupã! - Nhãmãnrrure Stxutér Pury/Felismar Manoel – Duque de Caxias, RJ. 28/12/2020.







quinta-feira, 29 de outubro de 2020

As Pukitanas Pury

 

Ho Puky! O Grito de Afirmação Étnica de um Povo

Nhãmãrrure Stxutér / Felimar Manoel



 “As Pukitanas Pury”. Assim era conhecida pela população, o grito de afirmação étnica pury; à medida que foram desestruturadas as organizações das aldeias pury rurais, ainda se conservou por algum tempo, nas regiões cercanas de Cruzeiro (a vila), Pé da Serra de Tuiuitinga e na Sede Distrital de Tuiuitinga, os costumes das festas e festivais pury, com suas danças, suas comilanças e seus cantos.


Quando durante os cantos e canções se pronunciava o “Ho Puky”, todos os puris dispersos e presentes na multidão, emitiam seus gritos de afirmação étnica, em um uníssono ondulante e agudo. Beleza de se ouvir! Quem nos dera ouvir de novo! Pois cantantes de “ho puky” já os temos novamente entre nós. O grito de afirmação étnica pode ser interpretado como um ondulante alarido de todos os puris, em uníssono, em grito agudo, característico de nossa etnia. Infelizmente não consigo mais reproduzí-lo, em virtude de ter sido acometido de uma neuropatia idiopática que me produziu um desvio labial esquerdo, que não mais me permite assobiar (assoviar), ou fazer o alarido agudo de nossa afirmação étnica, que o povo denomina de “grito de guerra”.


Em 1957, em Cruzeiro, por ocasião da “dança dos caboclinhos”, em homenagem a São Sebastião, dentro da capela da vila, quando meu opê-tarré, que dirigia a roda de dança, quando ele bradou o Ho Puky, quase não mais se percebeu, além de mim, o nosso grito de afirmação, e isto por dois motivos, conforme foi possível constatar:

* alguns silenciaram por medo de perseguições, e outros, emudeceram o seus gritos, porque já começavam a assimilar a versão dos inimigos, a versão dos bugres, de que ser pury, ou ser índio, era ua condição inferior, de atraso intelectual, ou fraca inteligência. Foi muito triste constatar, mas não o suficiente para eu desistir.


Continuei me afirmando pury, com consciência e ufania de o poder ser, como aprendi com minha inhã (mãe), meu opê-tarré (instrutor) e nosso opê antár (chefe ancião da aldeia). Um apelo aos artesãos dos saberes puris e cantantes de nossas canções do agora: Cantem e dancem embalados por nossas canções e resgatem por nossas canções, a nossa afirmação étnica, produzindo o entusiasta alarido, agudo e ondulante de nosso Ho Puky! Tenu-arrí!


segunda-feira, 19 de outubro de 2020

VOCAÇÃO SACERDOTAL EM PARADOXO

 

Abuna Philoseleos / Felismar Manoel

Mosteiro Compaixão Sagrada

Ancianato Monasterial
19/10/2020


Nos dias atuais tenho percebido um certo paradoxo nas vocações sacerdotais surgidas, sejam no grau presbiteral ou no grau episcopal, pois os candidatos a tais gráus de Ordem, se apresentam com bastante pressa para que se marque as cerimônias de ordenação, mas, por outro lado, oferecem uma sistemática resistencia a se investirem na formação adequada, seja do ponto de vista intelectual, filosófico, ou teológico; apresentam sentido esmerado na aquisição de indumentárias e vestes litúrgicas, quase sempre preferindo as mais pomposas.


Afirma um antigo adágio que “não é o hábito que faz o monge", mas aqui, nesse presente contexto, o que tem sido verificado é o contrário, pois existem clérigos suntuosos e ricamente vestidos, mas que não são capazes de sustentar quase nenhuma reflexão filosófico-teológica com bases fundamentadas na exegese e hermenêutica bíblica , quer em eclesiologia, teologia do culto, teologia pastoral, ou mesmo vida espiritual cristã; os principais doxas denominacionais são ignorados, comprometendo até mesmo os artigos de religião que fornecem bases às identidades de suas denominações.

É preciso fortalecer o foco e conscientizar os candidatos às Ordens Sacras, sobre a questão da responsabilidade de um pastor e sacerdote, que orienta e assiste às suas respectivas comunidades, nas quais existem pessoas com graus diversos de problemas, que buscam orientações com tais lideranças religiosas, mas que são possivelmente bem mais instruídas que os referidos clérigos reitores de suas comunidades religiosas; geralmente se tornam clérigos muito bem vestidos liturgicamente, mas quase vazios de intelectualidade e humanidade.

É preciso que todos se conscientizem, que os vocacionados devem passar por um período de testagem na sustentação dos seus ideais de busca pela experiência ministerial cristã, pois esse ministério exige responsabilidade para com a vida de outras poessoas; passado esse período probatório vocacional, passa-se para o estágio de formação propedêutica, quando se aprende e testa o ajustamento do caráter e temperamento para a vida espiritual religiosa e clerical, de acordo com o carisma de sua instituição; uma vez aprovado no estágio propedêutico, passa-se a formação formal humana, intelectual e acadêmica, com certas bases filosóficas, para uma razoável arte de pensar quaisquer questoes; segue-se também, uma razoável formação teológica, que fundamente a vivência de espiritualidade religiosa, litúrgica, comunidade e social. A partir desses pressupostos, justifica-se as ordenações sagradas, para as diaconisas, diaconos e presbíteros (padres, efemeritas e pastores, deixando claro que, a função episcopal, deve ser decidida pelas instituições eclesiásticas, por isto aconselhável que seja consagrado por dois ou três bispos, embora seja válida a ordenação conforme as rubricas feita por um só bispo, quando as circunstâncias assim o exigir.


Existem superiores de ordens ou congregações religiosas, ou mesmo campos missionários, que exigem suas administrações e governos por um presbítero consagrados na ordem episcopal, para assumirem de modo progressivo o pastoreio pleno de suas comunidades, quer como Superior Episcopal sobre pessoas e coisas de uma Ordem ou Congregação, como Abade Episcopal sobre pessoas e coisas entre os muros de uma instituição, ou como Arcipreste Episcopal sobre pessoas e coisas em um campo missionário.



Não creio ser conveniente continuarmos ordenando padres e sagrando na ordem episcopal, candidatos sem passar pela propedêutica apropriada, preceptoria comprovacional e estágios tutoriais atestatórios de espiritualidade efetiva e de um aceitável padrão de vida eclesial junto às comunidades.



Temos um enfrentamento dificil, mas o vejo como caminho para termos clérigos agiornados com nossas realidades e propostas próprias de nossas instituições.



Que Deus nos ajude.
Abuna Felismar Manoel.